sábado, 22 de junho de 2013

Resenha do livro “Racismo e Anti-racimo no Brasil”, de Antônio Sérgio Alfredo Guimarães.


por Mayara  Oliveira de Jesus
O livro em questão é fruto das reflexões do autor durante um programa de pesquisa produzido por ele no fim da década de 90. Essa obra é muito importante por trazer conceito de raça ao debate, apresentando não só a ideia de raça entendida pelo senso comum como também sobre como surgiram diferentes conceitos ao longo do tempo e entre vários estudiosos no Brasil.
Guimarães organizou a obra em três partes distintas: 1) aborda os conceitos e teorias sobre o que seria raça e racismo; 2) traz a crítica analítica dos estudos realizados no Brasil entre as décadas de 40 e 70 sobre relações raciais; 3) apresenta reflexões sobre políticas públicas. Porém, é importante destacar que a discussão da qual tratarei aqui está pautada no prefácio e no primeiro capítulo da obra.
Em seu prefácio, Guimarães aponta raça como um conceito social de classificação que serve para legitimar as desigualdades nos âmbitos sociais, culturais de maneira a serem recebidas/entendidas de forma naturalizada. Sendo assim, o racismo para Guimarães, se encontra presente de modo implícito na ideia de natureza geral que irá determinar os aspectos socioculturais e individuais entre as diferentes relações sociais. Ou seja, o autor defende a ideia de que o racismo está ligado a uma estrutura estamental que naturaliza e legitima as desigualdades sociais.
Partindo dessas afirmações, Guimarães critica os estudos que atribuem à ideia de raça um caráter mais biológico e fenotípico, isso por entender que o conceito de raça tem que ser analisado através das ciências sociais, se afastando de argumentações genéticas e naturais. A noção está no âmbito das classificações sociais e, portanto, o autor define que os conceitos de raça e de racismo devem ser vistos como realidades sociais e não biológicas ou naturais.
Um ponto importante ressaltado pelo autor é o cuidado que se deve tomar quanto ao caráter generalizante, atribuído ás relações sociais (gênero, classe, entre outras). Ele defende a ideia que existem peculiaridades nas teorias e critérios para a distinção de cada contexto de relação. Desse modo, Guimarães acredita que só é possível entender o racismo de modo mais específico se ele for analisado a partir de seus aspectos históricos particulares, em contextos espaciais e temporais específicos.
Enfim, a partir de tal discussão pode-se constatar que as hierarquias sociais presentes nas diversas relações sociais estão sustentadas por um discurso de ordem natural que se legitimam através de teorias da natureza (biológica, genética e etc). Assim sendo, para Guimarães, o processo de naturalização está presente nas distintas formas de hierarquias sociais como um traço fundamental nas relações de dominação.  

Resenha sobre o livro "Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil 1870-1930"


por  Sandreana  Melo*
            Em o Espetáculo das raças Lilia Schwarcz tem como objetivo entender a relevância e as transformações da teoria racial no Brasil entre os anos de 1870 e 1930. A autora enfatiza tanto a dinâmica de reconstrução de conceitos e modelos, como os contextos em que essas teorias se inserem no Brasil.  Dessa forma, o que importa para Schwarcz é a compreensão de “como o argumento racial foi política e historicamente construído, assim como o conceito “raça” que além de sua definição biológica acabou recebendo uma interpretação, sobretudo social.” (p. 17)
            Para Schwarcz, entender as vigências e absorção das teorias raciais no país se faz necessário para refletirmos sobre a originalidade do pensamento racial brasileiro no esforço de adaptação “ao modelo de sucesso Europeu” dos oitocentos, no que diz respeito ao ideal civilizatório. Apesar de chegar tarde ao Brasil, as teorias raciais são acolhidas com entusiasmo pela reduzida elite pensante nacional dos diversos estabelecimentos de ensino e pesquisa da época.
            Os denominados “homens de ciência” foram incumbidos da missão de refletir sobre a nação Brasileira, seu futuro e seus impasses, definidos como intelectuais que lutavam “pelo progresso scientífico do país” (p. 37). Eram eles: Manoel de Oliveira Lima, do IAGP, Francisco José de Oliveira Viana, do IHGN, Tobias Barreto, da Faculdade de Direitos de Recife, Silvio Romero, da Faculdade de Direito de Recife, João Bapistista Lacerda, do Museu Nacional, Raimundo Nina Rodrigues, da Faculdade de Medicina da Bahia, Euclides da Cunha, do IHGB, Edgard Roquete Pinto, do Museu Nacional, Herman Von lhering, do Museu Paulista, Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Miguel Pereira, da Academia de Medicina do Brasil, A. A. de Azevedo Sodré, da Faculdade de Medicina do Rio do Janeiro.   
            As teorias raciais europeias como o evolucionismo, o positivismo, o naturalismo, o social darwinismo, começam a difundir-se a partir dos anos de 1870. Estas teorias passaram por adaptações, sendo atualizadas de acordo com o contexto político e social brasileiro, ou seja, os intelectuais da época aproveitavam o que imaginavam combinar com o país e descartaram o que, de acordo com Schwarcz, era problemático para a construção de uma argumentação racial sobre a nação.
            As teorias raciais de então, se transformam em um argumento de sucesso para o estabelecimento de critérios diferenciadores de cidadania, bem como meio de pensar um projeto civilizatório para o país, além de legitimaram as diferenças sociais da antiga ordem escravocrata.
            Conforme Schwarcz, os “homens de Sciencia”, também chamados como “Novos ricos da cultura” por Antonio Candido (1988, p. 30), tenderam a adotar os modelos evolucionistas e em especial o social-darwinista, já bastantes desacreditados no contexto europeu da época. Esses grupos de intelectuais passaram a fazer do ecletismo e da leitura e interpretação de textos e manuais positivistas e darwinistas sua atividade intelectual por excelência.
O que é observado pela autora não é tradução aparentemente aleatória de pensadores estrangeiros, mas o trabalho de seleção realizado por eles sobre as teorias estrangeiras. As teorias adotadas no Brasil não foram “fruto da sorte”, mas, introduzidas de forma crítica e seletiva, como instrumento de respaldo conservador e autoritário sobre as hierarquias sociais já fortemente constituídas no país. (Ventura, 1988, p. 7, apud Schwarcz, p..42).
Enfim, as construções teóricas dos “homens de sciencia”, tiveram como principio representar uma solução original aos problemas e ao destino do Brasil. Os modelos teóricos adotados por esses “novos ricos da cultura”, simbolizavam “uma nova forma secular, materialista e moderna – de compreensão do mundo” (p.41). E um dos pontos importantes da reflexão da autora, é que a implementação desses modelos no país seria uma aproximação imaginária com o mundo europeu sinônimo de “progresso e de civilidade” para as elites políticas e intelectuais brasileiras. Ao mesmo, tempo que apesar do descrédito dessas teorias, no Brasil elas serviriam como justificativas teóricas para a “manutenção das práticas imperialistas de dominação” (p.30), e legitimação das consequentes diferenças sociais e econômicas do país.

Schwarcz, Lilia Moritz, Espetáculos das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

domingo, 16 de junho de 2013

Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura

Por Diogo Monteiro

Clifford Geertz (1926-2006) foi um antropólogo estadunidense professor da Universidade de Princeton, em Nova Jersey. É o fundador da Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa, que floresceu a partir dos anos 1950, representando um divisor de águas na teoria antropológica contemporânea.
A epistemologia de Geertz se desenvolveu como um contraponto ao modelo estrutural Levi-straussiano. Para o estruturalismo, o conhecimento deveria originar-se da elaboração de conceitos abstratos que explicariam, de modo homogêneo, os diversos contextos empíricos observados pelo analista. Já o viés interpretativo, propagado por Geertz, baseava-se na ideia de que a compreensão dos fenômenos sociais deveria partir dos casos concretos - da empiria - através dos quais a elaboração de teorias amplas seria possível.
Estudioso dos temas sobre religião, Geertz realizou pesquisas de campo na Indonésia e no Marrocos. Dentre as suas obras publicadas, destacamos: Islam Observed (1968), A Interpretação das Culturas (1973), Negara. The theatre-state in Bali (1980), O Saber Local (1983), Obras e vidas (1988), After the fact (1995) e Nova Luz Sobre a Antropologia (2000).
Em Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura - primeiro capítulo da obra A Interpretação das Culturas - Geertz se propõe, em termos gerais, lançar novas bases para a constituição do saber antropológico. Neste sentido, o autor trata da especificidade da cultura como objeto de análise da antropologia, da sua natureza enquanto conceito antropológico e das peculiaridades do fazer etnográfico.
O autor inicia suas reflexões questionando a validade da aplicação universal de conceitos científicos para a explicação de diversos fenômenos. Ao combater a versatilidade do uso destes conceitos, afirmando que eles não são passíveis de explicar tudo o que é humano, Geertz defende o emprego limitado do conceito de cultura para a área da Antropologia, tornando-o mais especializado e teoricamente mais poderoso (GEERTZ, 1978, p. 14).
No intuito de superar o uso corrente do conceito de cultura estrutural-funcionalista, visto como “aquele todo complexo”, que inclui os comportamentos universais das sociedades humanas, Geertz observa na cultura o seu caráter “semiótico”. Como Max Weber, Geertz acredita que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu e, a cultura, seria essas teias e a sua análise. Em suma, ela não seria uma ciência experimental em busca de leis, mas uma ciência interpretativa à procura do significado (GEERTZ, 1978, p.15).
Geertz indica que para compreender a ciência antropológica não é suficiente debruçar-se sobre os seus resultados, suas teorias ou inteirar-se do que os seus entusiastas falam sobre ela. Para isso, é necessário observar o que os seus praticantes fazem: a etnografia, um esforço elaborado para uma “descrição densa”, cujo objeto seria a análise “da hierarquia estratificada de estruturas significantes, em termos das quais, segundo o exemplo extraído de Gilbert Ryle, os tiques nervosos, as piscadelas, as falsas piscadelas, as imitações, os ensaios das imitações são percebidos e interpretados”. (GEERTZ, 1978, p. 17).
Ao observar a cultura como um texto, Geertz sugere que fazer a etnografia é como tentar ler – no sentido de “construir uma leitura de” – um manuscrito estranho, desbotado, cheio de emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado (GEERTZ, 1978, p. 20).
Geertz polemiza acerca do caráter objetivo ou subjetivo da cultura. Ao combater as proposições da etnociência – antropologia cognitiva/psicológica – que percebe a cultura como uma manifestação subjetiva da mente humana, o autor enfatiza a sua essência pública, afirmando que os significados dos comportamentos são compartilhados pelos indivíduos que convivem em determinados contextos.
A etnografia, segundo Geertz, tem como fim situar o pesquisador entre os nativos, sem que para isso ele tenha a pretensão de tornar-se um deles. O que se pretende é conversar com eles, alargar o universo do discurso humano. Neste particular, a cultura se desvencilharia da sua tendência hegemônica e abriria espaço para a audiência das vozes dos nativos, possibilitando a compreensão dos significados das suas condutas através dos seus pontos de vista particulares.
Deste modo, Geertz nos orienta a tratar as descrições etnográficas como “construções de construções” dos nativos, encaradas em termos das interpretações às quais pessoas de uma denominação particular submetem suas experiências. Assim, os textos antropológicos seriam interpretações de segunda e de terceira mão – somente o “nativo” faz interpretação de primeira mão – são ficções, algo construído, modelado, não que sejam falsas, não-factuais ou apenas experimentos de pensamento (GEERTZ, 1978, p. 25-26).
A descrição densa, para Geertz, possui quatro características principais: é interpretativa, interpreta o fluxo do discurso social, fixa-o em suportes pesquisáveis com o intuito de salvá-lo da extinção e é microscópica. Para esta última propriedade, o autor estabelece que por meio da análise empírica extensiva de contextos circunscritos - de assuntos extremamente pequenos-, a Antropologia acessa grandes temas e realiza análises mais abstratas. “Os antropólogos não estudam as aldeias [...] eles estudam nas aldeias”. (GEERTZ, 1978, p. 32).
Geertz observa a Antropologia Interpretativa como um conhecimento científico não-cumulativo, em perpétua construção, cujos resultados são frequentemente contestáveis. Segundo o autor, o progresso da ciência não se dá através do consenso relacionado às pesquisas anteriores, mas por meio do debate e contestação das inferências estabelecidas. Apesar disso, o autor constata que o grau de validade de dado referencial teórico dependerá do seu maior ou menor poder de explicação para os novos problemas analisados.
Portanto, os pressupostos teóricos de Geertz colaboraram para a renovação da ciência antropológica contemporânea. Alvo de apreciações que a rotulavam como perspectiva acrítica – ela obscurecia as mazelas vivenciadas pelos grupos nativos – e da acusação de promover “racismo às avessas” – a valorização da cultura alheia como critério para o julgamento pessimista da sociedade ocidental – a antropologia de Geertz revelou, na realidade, os meios possíveis para a superação da tendência etnocêntrica que ainda vigorava na prática antropológica. 

Desta forma, Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura, ao apresentar uma escrita complexa, eivada de termos científicos, aprofundando debates epistemológicos acerca da natureza da prática etnográfica, será lido com grande proveito por estudantes e professores universitários das áreas da Antropologia, Sociologia, História e demais interessados em aprofundar seus conhecimentos acerca das teorias antropológicas contemporâneas.


Referência bibliográfica

GEERTZ, Clifford. Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura. In:_____. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. Cap. 1, p. 13-41. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Resenha “Outsiders – Estudos de sociologia do desvio”, de Howard S. Becker


Por Wener Brasil

O presente texto do cientista social norte-americano Howard Becker, proporciona uma reflexão bastante original e vasta sobre o desvio, suas práticas e teorias na sociedade. Becker propôs estudar diversos comportamentos e ações sociais perante regras e leis criadas pela sociedade, mas de maneira empírica e diversificada. A partir de tais observações, passou a realizar análises críticas sobre pontos de vista sobre os desviantes, ou infratores de regras.
Becker, na sua introdução, coloca primeiro a posição dos sociólogos e das teorias até então vivenciadas por eles. Segundo ele, repensar e abordar questões que reflitam os desvios sociais não foi nada novo, nem revolucionário, mas sim necessário para uma melhor compreensão dessas atitudes.
O texto trás inúmeros exemplos que abordam rotulações e julgamentos criados pela sociedade mediante leis e regras impostas por grupos de diversos tipos sociais. Mas até onde podemos considerar o desvio social como ato ou ação de um individuo? Como ele se vê diante do fato consumado? Correto? Errado? Até que ponto?
Diante dessas perspectivas, Becker explana em seu primeiro capítulo o significado do que entende por “outsider”. Segundo ele, “quando uma regra é imposta, a pessoa que presumivelmente a infringiu pode ser vista como um tipo especial, alguém de quem não se espera viver de acordo com regras estipuladas pelo grupo. Essa pessoa é encarada com um outsider (p. 15)”. Vale ressaltar que o autor define que ser “outsider” é uma questão de pontos de vista. Por exemplo, “aquele que infringe a regra pode pensar que seus juízes são outsiders” (p. 15).
            Um dos interesses do autor é nas regras operantes efetivamente vivenciadas por grupos. Essas são mantidas no convívio por meio de tentativas de imposição. O autor aponta outra perspectiva sociológica, a de que o desvio é relativo, pois dependendo da posição em que se está vivendo, um ato pode ou não ser considerado uma infração a uma lei imposta, ou ainda, a conduta de um individuo dentro de uma comunidade.
Becker conclui que “rotular” ou identificar uma ação ou ato como desvio social dependerá do grupo social à que os atores sociais estão ligados: classe social, político, cultural, religioso, entre outros. A noção de desvio é uma caracterização social de qualquer comportamento fora do padrão em diferentes contextos. 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

"Isto Não É um Cachimbo"


FOUCAULT, Michel; MOTTA, Manoel Barros da (Org.). "Isto Não É um Cachimbo". In: Estética: literatura e pintura, música e cinema. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p. 247-263. (Ditos & escritos ; 3) ISBN 8521803907

Michel Foucault publicou "Isto Não É um Cachimbo" exatamente cinco meses após a morte de René Magritte, autor da pintura a que se refere o texto. De maneira geral, o ensaio cumpre uma função de elogio, homenagem ao pintor belga, falecido em um momento de grande importância para a produção do pensador francês (pouco após a publicação de As Palavras e as Coisas).

O texto faz reflexões sobre o tema do cachimbo em dois desenhos. O primeiro,

de 1926, acredito: um cachimbo desenhado cuidadosamente; e, embaixo [...] esta menção: ‘Isto não é um cachimbo’. A outra versão [...] em vez de serem justapostos em um espaço indiferente, sem limites nem especificação, o texto e a figura são colocados dentro de um quadro; [...] Acima, um cachimbo exatamente semelhante àquele que está desenhado sobre o quadro, mas bem maior. (p. 247)

Em síntese, Foucault defende que o primeiro quadro é resultado de um caligrama desfeito pelo pintor. Aparentemente, i) Magritte retoma a função clássica da representação plástica, que está baseada numa equivalência entre similitude e representação, ao desenhar com esmero de detalhes um cachimbo “fiel” à realidade; ii) retoma a função clássica da representação linguística, que em sua associação com imagens cumpre um papel de legenda, explicação. Mas esta explicação contesta a representação plástica, quando a nega.

Sob as aparências de um retorno a uma disposição anterior, ele [Magritte] retoma suas três funções [de um caligrama], mas para pervertê-las, e perturbar com isso todas as correspondências tradicionais da linguagem e da imagem. (p. 251)

A segunda representação também funcionaria a partir de uma tentativa de retorno a um “lugar-comum” para a imagem e para a representação linguística, porém

essa superfície é logo contestada: poiso cachimbo que Magritte, com tantas precauções, havia aproximado do texto, que ele encerrara com ele no retângulo institucional do quadro, desapareceu: ele está lá no alto, em uma flutuação sem referência, deixando entre o texto e a figura da qual ele deveria ter sido a ligação e o ponto de convergência no horizonte apenas um pequeno espaço vazio, o estreito rastro de sua ausência – como a marca não assinalada de sua evasão. Então, sobre seus montantes oblíquos e tão visivelmente instáveis, ao cavalete resta apenas oscilar, à moldura, se deslocar, ao quadro e ao cachimbo, rolarem no chão, às letras, se dispersarem: o lugar-comum – obra banal ou lição cotidiana – desapareceu. (p. 255)

Michel Foucault analisa ainda as duas produções de Magritte através de uma perspectiva comparativa aos papéis de Klee e Kandinsky para a pintura ocidental. Segundo Foucault, esta conteria dois princípios dominantes entre o século XV e o século XX: uma separação entre representação plástica e representação linguística, subvertido na obra de Klee, pois este faz “valer em um espaço incerto [...] a justaposição das figuras e a sintaxe dos signos” (p. 256), e um princípio de equivalência entre a semelhança e a afirmação de um laço representativo, abandonado por Kandinsky, pois este “liberou a pintura dessa equivalência” (p. 256).

Ninguém, aparentemente, está mais afastado de Kandinsky e de Klee quanto Magritte. Pintura mais do que qualquer outra vinculada à exatidão das semelhanças até o ponto em que ela as multiplica voluntariamente como para confirmá-las [...], determinada a separar, cuidadosamente, cruelmente, o elemento gráfico e o elemento plástico: se acontece de serem sobrepostas como o são uma legenda e sua imagem, e na condição de que o enunciado conteste a identidade manifesta da figura, e o nome que se pretende lhe dar. No entanto, a pintura de Magritte não é estranha ao empreendimento de Klee e de Kandinsky; ela antes constitui, a partir de um sistema que lhes é comum, uma figura simultaneamente oposta e complementar. (p. 256-257)


O pensador francês conclui que, de certa maneira, Magritte “escamoteia o fundo de discurso afirmativo sobre o qual tranquilamente repousava a semelhança; e movimenta puras similitudes e enunciados verbais não afirmativos na instabilidade de um volume sem referências” (p. 263), e chega a visualizar em “Isto não é um cachimbo” uma espécie de receita, quase uma fórmula de composição, cujos passos seriam 1) construir um caligrama; 2) decompor o caligrama, desfazendo seus traços; 3) permitir que o discurso, desprendido da imagem, “caia” em forma de letras; 4) permitir que as similitudes se multipliquem para que no fim se constate que 5) “a pintura cessou de afirmar”.   

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RESENHA SOBRE O FILME "ENTRE NESSA DANÇA"

Por Sérgio da Silva Santos

            O filme “Entre Nessa Dança” ou “You Got Served”, no original, nos traz uma relevante mostra sobre o estilo de vida de jovens da periferia norte-americana. O filme se passa em um bairro da periferia de Los Angeles e retrata o cotidiano dos jovens desse bairro, em torno da violência, do trafico de drogas, das gangs e principalmente da cultura Hip Hop.
O Hip Hop é um movimento cultural juvenil presente em diferentes metrópoles mundiais. Historicamente ele surgiu no barro nova-iorquino do Bronx. No final dos anos 70, jovens afro-americanos e caribenhos tiveram participação decisiva em sua constituição. A dança break, a arte visual, materializada no grafite, e o rap como expressão poético-musical integraram-se como parte deste sistema cultural juvenil. (SILVA, 1999)
A primeira questão chama a atenção no filme, são os diálogos constantes entre os personagens sobre as incertezas entorno do futuro. Entendemos que tais diálogos tiveram o objetivo de retratar uma realidade comum entre os jovens negros americanos. A questão do acesso ao emprego e a garantia de uma qualidade de vida é enfatizada no muitas vezes filme. As incertezas são apresentadas e articuladas com a necessidade de uma auto-afirmação dos jovens diante de seus pares, como também a necessidade de garantir a sobrevivência através do dinheiro. Sendo assim, o envolvimento com o trafico de drogas, reflete para aqueles jovens, como uma possibilidade de garantir, mesmo que de modo momentâneo, uma sobrevivência no cotidiano em que estão inseridos.
O filme mostra o potencial da rua como um espaço de socialização e sociação. Nesse sentido, podemos nos referir a Georg Simmel que enfatiza que as formas e processos de sociação são diversas, pluridimensionais e menos duradouras que outrora. (SIMMEL, 2006) Sendo assim, o filme desperta a possibilidade de pensarmos sobre a complexidade da vida no espaço da rua. Para Simmel,

A sociabilidade cria, caso se queira, um mundo sociologicamente ideal: nela, a alegria do individuo está totalmente ligada à felicidade dos outros. Aqui, ninguém pode em princípio encontrar sua satisfação à custa de sentimentos alheios totalmente opostos aos seus. Essa possibilidade é excluída por várias outras formas sociais que não a sociabilidade. Em todas elas, contudo, essa exclusão se dá por imperativos éticos superimpostos. Somente na sociabilidade ela é dada por princípios intrínsecos da própria forma social. (SIMMEL, 2006, p. 69-70)

Nesse sentido, o filme apresenta duas  possibilidades de reflexão sobre as formas de expressões dos jovens. Primeiro, pensando sobre as gangs e, segundo, sobre os grupos de hip hop. As gangs são mostradas no filme de forma distante, sem destaque. Algumas passagens do filme tratam sobre o assunto. A principal passagem sobre as gangs aparece em torno de um personagem que é uma criança. O dialogo de um jovem com essa criança, dá a ideia de que o hip hop é uma alternativa para sair do mundo das gangs. Mesmo essa criança acompanhando as atividades de dança que o filme enfatiza em relação ao Hip Hop, esta personagem acaba tendo sua vida influencia pela atuação das gangs, sendo morta após troca de tiros.
No filme, a dança break é para aqueles jovens a forma mais próxima de manterem-se ligados. Mesmo compartilhando de um mesmo estilo de vida, os jovens são apresentados no filme em constantes conflitos, seja de natureza familiar, de relacionamento e principalmente em torno do dinheiro, como também a partir dos duelos entre os grupos de break, que realizam batalhas nas quais vence aquele grupo que desenvolve a melhor performance de movimentos.
.          O dinheiro entra neste contexto desde o começo do filme. O estilo de vida dos jovens acaba, mesmo que de forma indireta, fomentada pela busca de uma afirmação, que passa necessariamente pelo dinheiro e pelo estatuto de se tornarem vencedores nas disputa de break. O filme tenta passar a ideia de que as coisas estão voltadas para a disputa, seja a do melhor movimento da dança Break ou de acesso aos recursos possibilitados pelo dinheiro.
O filme é romântico, quando desenrola sobre a vida de jovens na periferia, já que ele não tem o objetivo de mostrar a fundo uma realidade de inúmeros problemas sociais, apenas dando-nos elementos ou nuances deste contexto. A cultura Hip Hop está presente nas grandes metrópoles do mundo e como tal também passa por um processo de “cooptação” pela indústria cultural. O filme mostra muito bem isso. No final do filme, o dinheiro e a fama movem os jovens para uma disputa por 50 mil dólares e a gravação de um clip, com uma artista já consagrada do hip hop americano. Nos EUA é muito forte a capitalização em torno da cultura hip hop, que desde meados dos anos 90 passou a ser extremamente explorada pelo viés comercial.
Sendo o Hip Hop uma cultura vinda de baixo, sendo uma das principais fontes de divulgação de uma cultura e estilo de vida de jovens americanos da periferia, torna esse assunto um tanto complexo. Talvez, esse processo tenha sido influenciado pelo surgimento dos EUA como potencia mundial e como centro de produção e circulação de cultura. (HALL, 2003) Afinal, a cultura hip-hop americana passou a ser uma referencia para jovens de outros países, reproduzidas através inúmeros produtos culturais, como é o caso do filme em questão.

Referências:

HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Organização: Liv Sovik; tradução: Adelaine La Guardia Resende...[et al]. – Belo Horizonte: editora UFMG, 2003.
SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia: individuo e sociedade. Tradução: Pedro Caldas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

Link para assistir o Filme "Entre Nessa Dança":  http://www.youtube.com/watch?v=pVEZK_CL6bw

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Resenha

Introdução do Livro "A invenção das tradições", de Eric Hobsbawm e Terence Ranger


Por Wener Brasil

O objetivo da introdução do livro “A Invenção das Tradições” é fazer uma análise crítica e conceitual da noção de tradição e de costume, bem como tematizar as implicações do que é denominado pelos autores de invenção das tradições no processo de construção do Estado-nação.
A expressão "tradição inventada" é entendida de maneira ampla como sendo as práticas reguladas de natureza ritual ou simbólica, que incorporam valores e comportamentos definidos através de repetição. Tal repetição acontece devido a novas situações e reações que se referem ao antes, como numa ideia de continuidade.

No texto, a diferença entre tradição e costume (vigentes nas sociedades tradicionais) é ressaltada. A tradição inventada teria a característica de imposição de práticas fixas como repetições, já o costume não impediria que a própria dinâmica social implicasse em inovação e modificasse as práticas e rituais até certo ponto.

É destacado pelo autor que todo esse processo da invenção de tradições caminha pela ritualização e formalização, sempre se referindo ao passado, impondo a repetição. Mas, pode-se dizer que toda tradição é inventada? Em tal sentido pode-se dizer que sim, ou seja, a depender da maneira como ela se constitui, a permanência das regras, ou ainda, quando a reprodução é forçada ou institucionalizada com rigidez.

Em síntese, são expostas três categorias relativas às tradições inventadas desde a Revolução Industrial: a) as que estabelecem ou simbolizam a coesão social ou as condições de admissão de um grupo ou de comunidades reais ou artificiais; b) as que estabelecem ou legitimam instituições, status, ou relação de autoridade e c) aquelas cujo propósito principal é a socialização, a inculcação de ideias, sistemas de valores e padrões de comportamento.

Para concluir, um aspecto importante é avaliar qual a ligação entre a invenção e a espontaneidade. Na verdade, se tem uma ideia que essa criação parte de conjecturas políticas, podendo até serem inventadas para a manipulação. Entretanto, fica claro que, para os autores do texto, as mudanças nos costumes são processuais e partem das necessidades coletivas, construídas através das relações de poder e de interesses nos contextos de harmonia ou de tensão social, em que as tradições inventadas são ferramentas de regulação.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Resenha do Texto Grupos Étnicos e suas Fronteiras


Por  Mayara Oliveira de Jesus
No texto “Grupos Étnicos e suas Fronteiras”, o autor Fredrik Barth analisa o fenômeno dos grupos étnicos e suas persistências. Em tal perspectiva, o autor faz uma crítica aos estudos que negligenciaram as fronteiras sociais e os estudos empíricos sobre os grupos étnicos.
Barth se posiciona contra a ideia de que o isolamento geográfico e social sejam fatores que sustentam ou produzam a diversidade cultural. Ele aponta para a ideia de que é na interação em um dado sistema social que ocorre a manifestação da etnicidade.
Neste caso, para que se possa entender melhor o étnico, o referido autor nos mostra que é preciso compreender que tais grupos são categorias de atribuição e identificação realizadas pelos próprios atores, ou seja, existe uma característica de interação e afinidade entre as pessoas pertencentes a um dado grupo.
Barth chama atenção sobre a necessidade analítica de busca pelos diferentes processos que se apresentam como formas de manutenção do grupo étnico, bem como sobre a ênfase na observação dos processos de constituição das fronteiras étnicas e suas manutenções.
Fredrik Barth define grupos étnicos como aqueles que compartilham valores culturais fundamentais, formados por membros que se identificam e são identificados por outros como tal. O autor reforça a ideia de que o quê define um grupo é a fronteira étnica e não a matéria ou conteúdo cultural que possamos encontrar, sendo que essas fronteiras, ao qual o autor relaciona os grupos, são fronteiras sociais e seus fundamentos são uma ideia que os grupos elaboram sobre uma origem ou cultura em comum.
Enfim, o autor propõe que as fronteiras são construídas e mantidas pelas unidades étnicas e por isso é possível percebermos a persistência dessas unidades. Porém, é importante destacar que para Barth, a cultura relacionada a um grupo étnico não está restrita pela fronteira. Desse modo, ela pode também variar sem ter relação com a sua manutenção.

sábado, 20 de abril de 2013

Cinema, memória e ditadura

Lista de filmes sobre a ditadura civil-militar brasileira.

Comente sobre os filmes abaixo e indique mais títulos:

O desafio (Paulo Cesar Saraceni, 1964);

Terra em transe (Glauber Rocha, 1967);

A opinião pública (Arnaldo Jabor, 1967);

Liberdade de imprensa (Curta-metragem - João Batista de Andrade, 1968);

Você também pode virar um presunto legal (Sérgio Muniz, 1971/2006);

Brazil: a report on torture (Saul Landau & Haskell Wexler, 1971);

Estado de sítio (Costa-Gravas, 1972);

Blablablá (Andrea Tonacci, 1975);

O Bom burguês (Oswaldo Caldeira, 1979);

Pra frente, Brasil (Roberto Faria, 1982);

Frei Tito (Curta-metragem - Marlene França, 1983);

Jango (Silvio Tendler, 1984);

Em nome da segurança nacional (Roberto Carminati, 1984);

Cabra marcado pra morrer (Eduardo Coutinho, 1985);

Feliz ano velho (Marcelo Rubens Paiva, 1985);

Nada será como antes. Nada? (Renato Tapajós, 1985);

Que bom te ver viva (Lúcia Murat, 1989);

Muito além do Cidadão Kane (Simon Hartog, 1993);

Lamarca (Sérgio Rezende, 1994);

O que é isso, companheiro? (Bruno Barreto, 1997);

Ação entre amigos (Beto Brant, 1998);

Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro (Silvio Tendler, 1999);

Dois córregos (Carlos Reichenbach, 1999);

Golpe de 64: a procissão está nas ruas (Mauro Lima, 2000);

Barra 68 - Sem perder a ternura (Vladimir Carvalho, 2001);

Araguaya - a conspiração do silêncio (Ronaldo Duque, 2004);

Cabra-cega (Toni Ventura, 2004);

Quase dois irmãos (Lúcia Murat, 2004);

Tempo de resistência (Andre Ristum, 2004);

Olga (Jayme Monjardim, 2004);

Vlado: 30 anos depois (João Batista de Andrade, 2005);

Contos da resistência (Getsemane Silva, Glória Varela, Marcya Reis, André Carvalheira, Guilherme Bacalhao, 2005);

O Quintal Dos Guerrilheiros (João Massarolo, 2005);

Hércules 56 (Silvio Da-Rim, 2006);

Zuzu Angel (Sérgio Rezende, 2006);

1972 (José Emilio Rondeau, 2006);

O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006);

Sonhos e Desejos (Marcelo Santiago, 2006);

Dzi Croquetes (Erika Bauer, 2006);

Batismo de Sangue (Helvécio Ratton, 2007);

Caparaó (Flávio Frederico, 2007);

Condor (Roberto Mader, 2007);

Corpo (Rossana Foglia, Rubens Rewald, 2007);

O profeta das águas (Leopoldo Nunes, 2007);

Tira os óculos e recolhe o homem (André Sampaio, 2008);

Cidadão Boilesen (Chaim Litewski, 2009);

Em teu nome (Paulo Nascimento, 2010);

O dia que durou 21 anos (Camilo Tavares, 2011);

Marighella (Isa Grinspum Ferraz, 2011);

Uma longa viagem  (Lúcia Murat, 2011);

Hoje  (Tata Amaral, 2011).

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O filme Hoje, com direção de Tata Amaral, estreia nos cinemas na próxima sexta, 19. Vencedor do Festival de Cinema de Brasília, o longa conta a história de Vera (Denise Fraga), uma ex-militante política que recebe uma indenização do governo em decorrência do desaparecimento do marido (Cesar Troncoso), vítima da repressão provocada pela ditadura civil-militar. Com o dinheiro, ela consegue comprar um apartamento, além de enfim poder ser reconhecida como viúva. Só que, quando está prestes a se mudar, recebe uma visita que altera sua vida. O filme traz uma nova perspectiva sobre o tema, já que se desenrola no “presente” sobre o “passado”. A memória e os fantasmas desse período, tanto de Vera, como da sociedade, parecem ser um dos temas fundamentais tratados pelo filme.

Assista ao trailer do filme: