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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Análise da perspectiva antropológica antiproibicionista com relação ao uso ritual da ayahuasca em textos de fundadores do Neip

O objetivo do presente texto é compartilhar com os colegas do Gerts o estado atual da pesquisa que desenvolvo junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Sergipe (NPPA/UFS).

No dia 26/08/2011, uma banca de qualificação aprovou minha proposta anterior (“A Antropologia da Ayahuasca”), mas apontou uma série de questões que precisavam ser revistas e que redundaram na atual proposta. As principais e necessárias mudanças dizem respeito a aspectos metodológicos. Vejamos um trecho do resumo da proposta que a banca aceitou sob a condição de eu realizar um aprofundamento de meu interesse que saliente os limites daquilo que problematizo:

Nesse estudo procuramos observar de que forma a Antropologia, como uma dentre as ciências que acompanham a expansão mundial dos novos usos do chá, se posiciona diante da problemática. Como foi construída a autoridade antropológica no Brasil que fundou um campo internacional comum de interesses? Procuramos apontar de que forma a autoria e os textos antropológicos se transformam em ferramentas que auxiliam na legitimação contemporânea dos novos usos da ayahuasca. (Trecho do Resumo de “A Antropologia da Ayahuasca”).

Eu havia realizado até então um levantamento de indivíduos que têm titulação na área de Antropologia e que publicaram estudos sobre o uso ritual da ayahuasca porque pensava que uma análise de seus discursos poderia me fornecer aquilo que eu buscava: uma lógica de enunciação fundamentadora da legitimação social da prática. Como não fui criterioso no meu planejamento, construí um quadro com 74 indivíduos, de diversos países, cujos perfis diziam respeito aos dois critérios apresentados (título de antropólogo e trabalhos sobre uso ritual da ayahuasca), que no final se mostrou inútil. Eu aprendi, sentindo na pele, que o primeiro passo para uma boa pesquisa se encontra na elaboração de um bom planejamento. A única coisa que pude deduzir desse quadro com 74 antropólogos é que eu precisava de critérios mais firmes para conseguir entender qualquer coisa a respeito do campo de estudos antropológicos sobre a ayahuasca.

Encontrei a possibilidade de exercitar esses critérios olhando para um ponto específico no quadro que eu já sabia antes que existia e que, caso tivesse enveredado inicialmente por esse caminho, poderia ter evitado muita energia despendida em torno de um problema de pesquisa mal elaborado: o fato é que alguns pesquisadores têm posturas “ativistas” com relação ao uso contemporâneo de psicoativos (inclusive a ayahuasca), defendendo o fim da proibição do uso de diversas substâncias consideradas ilícitas (como a ayahuasca também já foi).

A solução que encontrei para os problemas metodológicos de uma proposta generalista foi focalizar esse aspecto envolvido nos estudos antropológicos sobre ayahuasca: a perspectiva antiproibicionista assumida por diversos pesquisadores. Nesse cenário “antiproibicionista”, uma instituição brasileira tem papel central: o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip). Dos sete fundadores do núcleo, quatro são antropólogos: Edward Macrae, Beatriz Labate, Mauricio Fiore e Sandra Lucia Goulart. Apenas Fiore não estuda o uso ritual da ayahuasca.

Basicamente, minha proposta continua a mesma: compreender o campo de interesses sobre o tema a partir da análise de textos essenciais nesse cenário (textos de três fundadores do Neip que são antropólogos e que estudam o uso ritual da ayahausca). A diferença é que aplico agora critérios mais definidos. Sobre a fundamentação teórica, a título de exemplos, priorizo: i) autores da autocrítica antropológica a partir dos anos 1980 (Clifford Geertz, James Clifford, George Marcus), ii) autores que exploram os limites da autoria diante do discurso (Mikhail Bakhtin, Michel Foucault, Roland Barthes) e iii) autores que me auxiliem a pensar o Neip como instituição (Max Weber, Eric Hobsbawn).

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Encontro do Gerts - 28 de abril de 2011

A Antropologia da Ayahuasca
Felipe Silva Araujo, estudante do NPPA-UFS


O objetivo principal desse texto é transmitir algumas informações sobre o atual estado da pesquisa que dará forma para a dissertação que estou desenvolvendo, intitulada “A Antropologia da Ayahuasca” (Mestrado em Antropologia Social, Universidade Federal de Sergipe, previsão 2011). O problema central que se coloca diz respeito à relação entre ciência (prática antropológica) e fé (antropólogo ayahuasqueiro). Como se dá o processo através do qual a produção acadêmica sobre ayahuasca ganha forma? Quais os limites que separam a fronteira entre o exercício acadêmico e a cosmovisão ayahuasqueira?

“Ayahuasca” é um dentre os diversos nomes usados para designar um chá bebido milenarmente por indígenas na América Latina e que no Brasil, através do século XX, ganhou forma de três religiões nacionais: Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal (UDV). É preparado pelo cozimento de duas espécies vegetais, sendo as mais tradicionais a Banisteriopsis caapi (cipó, jagube, mariri, ayahuasca) e a Psychotria viridis (chacrona, rainha). Como estamos diante de um uso de pelo menos dois mil anos, como aponta Naranjo (1979, 1986), e que se deu através de inúmeras formações sociais e foi ritualizado para os mais diversos fins, a primeira observação que se pode retirar do quadro diz respeito à complexidade da configuração social do fenômeno de uso e expansão da ayahuasca.

Em contrapartida, muito se tem pesquisado sobre o chá através do mundo e o Brasil tem um papel importante na configuração das políticas regulamentadoras. O aumento mais significativo do interesse pelo assunto se deu na década de 1980, quando a legitimidade do uso ritual da ayahuasca foi contestada por diversos setores sociais. Quem fez a mediação do diálogo entre uma sociedade assombrada pelo fantasma do uso de drogas inventado no final do século XIX e os grupos religiosos foram pesquisadores dentre os quais muitos simpatizaram com a causa e o uso da bebida. Seus trabalhos, no entanto, nunca foram questionados como sendo dotados de um menor valor científico. O foco de nossos interesses está colocado nesse espaço de ambiguidade compartilhado pelo antropólogo nativo.

Em todas as batalhas judiciais que enfrentou até hoje, sendo sempre associado ao uso de entorpecentes devido à presença no preparo de uma substância psicoativa conhecida como DMT, os estudos reconheceram a legitimidade do uso “estritamente religioso” do chá. No Brasil, Espanha, Holanda e Estados Unidos, o livre exercício da religiosidade está oficialmente reconhecido e ficou declarada a necessidade de preservação da prática como representante de uma tradição religiosa.

Como Beatriz Labate (2004) aponta, existe um campo de pesquisas compartilhado entre diversos países empenhado no esclarecimento das mais variadas faces dos contextos sociais ayahuasqueiros. Depois de mais três décadas de pesquisas, a discussão começa a demonstrar sinais de especialização, a dissertação que desenvolvo surge então num determinado contexto histórico tanto para os usos ayahuasqueiros como para a antropologia. Para contemplar a relação reconhecidamente imparcial entre uma disciplina acadêmica e um outro universo de conhecimento, o dos bebedores de ayahuasca, realizamos um esforço no sentido de caracterizar o processo de construção dos métodos antropológicos e o processo de construção social de legitimidade do uso da ayahuasca através do séc. XX. Nesse intento, deparamos com semelhanças que, se não justificam, ao menos esclarecem a atuação coerente de pesquisas realizadas pelos próprios ayahuasqueiros.

Minha proposta é desenvolver a dissertação em três capítulos:

1) A Ayahuasca como objeto de estudo da Antropologia
2) O antropólogo ayahuasqueiro como objeto de estudo da Antropologia
3) Um estudo de caso

No primeiro capítulo concentro um esforço teórico para compreender as transformações sobre as concepções da prática etnográfica através do séc. XX bem como realizo uma observação dos processos legais que o uso ritual da ayahuasca enfrenta pelo mundo através de sua associação ao uso de “drogas”. O “uso de drogas” como infração penal representou uma bandeira levantada por importantes países, como os Estados Unidos, e a guerra empreendida contra alguns psicoativos específicos esteve mais associada a interesses econômicos e sociais do que propriamente ao interesse científico.

Bilhões de dólares continuam sendo utilizados como ferramenta de repressão e aparentemente a questão das “drogas” em nossa sociedade nunca esteve tão incontida. Felipe Calderón, em quatro anos de mandato como presidente do México, contabiliza mais de 35 mil mortes na guerra às drogas. Cidades inteiras viraram campos de guerra contra o narcotráfico e inúmeros civis são prejudicados pela política ofensiva de controle que não está livre de erros. O contexto social de pânico relativo ao uso de drogas em todo o mundo, alimentado pelo sensacionalismo midiático, dificulta a aceitação social de práticas tradicionais como o uso ritual da ayahuasca devido à associação direta entre a prática religiosa e a presença da DMT na bebida. Os contextos sociais ayahuasqueiros são profundamente influenciados pela posição de legalidade que oficialmente detêm, sendo que, no outro extremo, a imagem do “drogado” amplamente reificada pela mídia é assumida como um exemplo daquilo que não representa a própria prática. Os processos de identificação se dão através da negação do outro (o “drogado”) e muitas vezes de acusações contra grupos ayahuasqueiros que estariam em tese violando as regras de tradição que possibilitaram o reconhecimento do uso.

No segundo capítulo, pretendo realizar entrevistas com o maior número possível de antropólogos ayahuasqueiros na tentativa de compreender o exercício da posição acadêmico-religiosa. Diversas vezes alguns aspectos diretamente ligados à prática da pesquisa podem ser minimizados no texto final como resultado de uma conjuntura acadêmico-social que demanda cientificismo e objetivismo como legitimadores per si do trabalho científico, o que coloca o antropólogo “nativo” num espaço de ambiguidade a partir do qual a enunciação precisa ser objetivamente reforçada sob pena de a emoção penalizar os resultados científicos finais.

O terceiro capítulo surge como fruto de um envolvimento com grupos do Santo Daime e da UDV em Aracaju; representa uma tentativa de colocar em prática o exercício do dialogismo etnográfico dentro das possibilidades de alargamento e apropriação temática apontados pelos dois capítulos anteriores.


Referências

LABATE, Beatriz Caiuby. A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos Mercado de Letras, Fapesp, 2004.
NARANJO, P. "Hallucinogenic plant use and related indigenous belief systems in the Ecuadorian Amazon". Journal of Ethnopharmacology 1:121- 45. 1979.
__________ ."EI ayahuasca in Ia arqueología ecuatoriana". America Indígena 46:117-28, 1986 apud MCKENNA, Dennis J. “Ayahuasca: uma história etnofarmacológica”. In: Ayahuasca: alucinógenos, consciência e o espírito da natureza. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002