segunda-feira, 16 de maio de 2022

Uma Cidade Muda Não Muda: Mulheres, Graffitis e Espaços Urbanos Hostis

É o título da Tese de Doutorado em Sociologia de Erna Barros, que acaba de virar livro. Orientada pelo prof. Frank Marcon e defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) em 2020, o trabalho foi indicado como melhor Tese de Doutorado do PPGS no ano de 2020. 

O livro, "propõe uma leitura do graffiti enquanto fenômeno urbano em diálogo com a estrutura da cidade como espaço de disputas a partir de uma perspectiva de gênero. Busca contribuir para uma discussão sobre o transitar das mulheres pelo ambiente público “por sobre os ombros” de grafiteiras que ressignificam esses espaços, apoiadas na representação de entendimentos sobre uma cidade pensada e planejada segundo uma ideia de universalidade do humano, ou seja, uma perspectiva hegemônica do masculino em detrimento do feminino. Assim, o objetivo principal deste livro é a identificação dos espaços hostis à presença das mulheres no espaço público da cidade e a reflexão acerca da resistência das grafiteiras a esses espaços a partir da reivindicação de uma agência na cidade. Para isso, a metodologia utilizada foi a observação dos usos cotidianos e discursos de grafiteiras na Grande Aracaju-SE, por meio do registro fotográfico e fílmico de suas intervenções no ambiente urbano, percorrendo diferentes trajetos junto a elas, e também sozinha, a fim de compreender a prática do graffiti como ferramenta de representação, contestação e expressão feminina. Deparei-me durante esses trajetos com uma estrutura urbana que atende por uma lógica masculina de planejamento não sensível ao gênero, que impõe às mulheres um transitar cheio de limitações, que apresento neste livro por meio de Pranchas Fotográficas, dispostas em montagens das imagens colhidas em campo. A pesquisa teve como resultado a compreensão de que as grafiteiras ressignificam e transgridem diferentes espaços hostis às mulheres, guiadas por sentimentos de resistência e sororidade, por meio da reivindicação de uma agência estetizada e de dinâmicas particulares de diálogo e atuação na cidade". (Erna Barros) 

O livro está disponível gratuitamente pelo link https://editoracriacao.com.br/uma-cidade-muda-nao-muda-mulheres-graffitis-e-espacos-urbanos-hostis/




quinta-feira, 12 de maio de 2022

Juventude e Sociedade

NOVAES, Regina. Juventude e sociedade: jogos de espelhos, sentimentos, percepções e demandas por direitos e políticas públicas. Sociologia Especial: ciência e vida, v. 1, n. 2, p. 6-15, 2007.

Resenha

Por Raiane Santos

A autora do texto em questão, Regina Célia Reyes Novaes é uma antropóloga que tem dedicado seus estudos no campo das juventudes desde seu processo de formação. Regina contribui para o campo dos estudos sobre juventude a partir de múltiplas perspectivas, sobretudo sobre as políticas públicas para juventude em âmbito nacional.

O texto Juventude e sociedade: jogos de espelhos, sentimentos, percepções e demandas por direitos e políticas públicas, publicado em 2007, traz como ponto de partida a junção de eixos como o processo de globalização e o desenvolvimento de políticas públicas para a juventude a partir do âmago da sociedade contemporânea.

Ainda que a categoria juventude não seja mencionada de forma plural, ao menos no que diz respeito especificamente a este texto, a autora ressalta a importância de reconhecer a universalidade por trás de tal categoria, pontuando que que existem diversos contextos históricos a serem considerados. Neste sentido, Novaes pontua que “ser jovem é viver uma contraditória convivência entre a subordinação à família e à sociedade e ao mesmo tempo, grandes expectativas de emancipação.” (p.1).

O conceito de moratória social é mencionado no texto quando a autora associa a perspectiva das juventudes às diversas condições atribuídas como "pré-requisito" para a experiência juvenil. Tais atribuições podem ser postergadas dependendo da condição e posição socioeconômica dos jovens, pois, “em uma sociedade marcada por grandes distâncias sociais, são desiguais e diferentes as possibilidades de se viver a juventude como “moratória social”, tempo de preparação.” (p.1).

A importância de não universalizar a categoria juventude dentro dos debates sociológicos vincula-se à necessidade de acessar realidades que atravessam a dimensão da faixa-etária. Para a antropóloga, a pergunta “onde você mora?” pode desencadear respostas fundamentais para a restrição e exclusão de jovens específicos. A autora chama este processo de “discriminação por endereço”, afetando principalmente o acesso aos âmbitos educacionais, campo de trabalho e espaços de lazer.

As categorias políticas públicas e juventude estão nitidamente conectados no texto, contudo, é importante mencionar que a autora parte, também, do pressuposto geracional para chegar até os quadros que atingem as juventudes a partir da globalização. Menciona-se que, “para além do aspecto biológico, e apesar dos abismos sociais existentes, ser jovem em um mesmo tempo histórico é viver uma experiência geracional comum.” (p.2). 



Cloud Gate - Millennium Park -  Chicago - Fotografia de Frank Marcon - 2019

É importante notar que a autora faz um comparativo a partir do campo geracional, situando a similaridade de jovens que vivem em um mesmo tempo social” para acessar as condições no campo do econômico, assim, pontua: Os jovens do século XXI, que vivem em um mundo que conjuga um acelerado processo de globalização e múltiplas desigualdades sociais, compartilham uma experiência geracional historicamente inédita. Para além das evidentes distâncias sociais que os separam, os jovens de hoje vivem em um momento no qual a tensão local-global se manifesta no mundo de maneira contundente. Nunca houve tanta integração globalizada e ao mesmo tempo, nunca foram tão agudos os processos de exclusão e profundos os sentimentos de desconexão. (2007, p.2) 

Dentro da concepção moderna de juventude, a entrada no âmbito escolar era considerada inerente dentro do processo de transição para a maturidade, contudo, atualmente nota-se que ocorre o inverso e tal fato retrata-se a partir do momento em que ““estar na escola” passou a definir a condição juvenil”. (p.3). Ainda que a “moratória social” seja experienciada por jovens de classes sociais específicas, pensar a relação entre juventude e trabalho é compartilhar antes de tudo a condição geracional, a relação do estar num mesmo tempo social. Isso porque, jovens de diversas classes sociais demonstram medo e insegurança com relação ao campo de trabalho em consequência do processo de globalização. Este sentimento conecta os jovens através da “consciência de que sua geração está submetida às rápidas
transformações tecnológicas no mundo do trabalho.” (p.3). 

Diversos autores discutem a relação entre juventude e trabalho numa perspectiva de realização humana. A antropóloga Regina Novaes aponta críticas a este cenário pelo fato de que o senso comum ainda associa o sentimento de realização plena a partir da inserção no mercado de trabalho. É um fato que a condição de trabalho gera possibilidades de emancipação, porém, as condições em que os jovens são inseridos com o discurso de estabilidade e conquista de emancipação financeira precisam ser discutidas a partir de realidades plurais. Embora a questão geracional seja pontuada a partir da ótica da globalização, em que os jovens estão adquirindo experiências similares no quesito tempo social, os abismos sociais são mencionados frequentemente no texto. “De certa forma, ser jovem é ser suspeito”, Novaes pondera sobre a realidade protagonizada pelos jovens na contemporaneidade, todavia, o ser suspeito é estigmatizado por fatores como raça, classe e gênero. Todas estas condições estão presentes na sociedade no geral, entretanto, tais vertentes são evidenciadas diante do alto índice de violência urbana.

O “medo de sobrar", como a autora menciona, permeia principalmente os espaços em que as vulnerabilidades são ainda mais expostas. Concomitante a isto, a autora pondera que, [...] para se contrapor ao precoce “medo de morrer” de maneira violenta que tem lugar entre os jovens de hoje, políticas públicas devem se desenvolver com o objetivo de assegurar-lhes o direito à vida segura. Para tanto, não deve haver uma hierarquização e/ou uma cisão entre políticas de inclusão social e políticas específicas de enfrentamento e prevenção à violência. Isto porque há uma interdependência entre os processos de exclusão social que atingem diferentes segmentos juvenis e os mecanismos sociais detonadores de atos e atitudes de violência física e simbólica. (2007, p.6)

Para adentrar na discussão entre jovens como sujeitos de direitos, a autora menciona que a partir de um processo de criação de direitos, outros direitos são condicionados gerando uma dinâmica em que a consolidação de uma necessidade/direito abre espaço para outros. Três tipos de gerações são mencionados para demonstrar que a consolidação de direitos, bem como a luta por estes precisam ser constantes, pois um processo leva ao outro. A primeira geração foi marcada pela consagração dos direitos civis e políticos, a segunda tem a marca dos grupos sociais que acentuou a emergência de novos direitos, e a terceira geração, sendo interconectada às demais, carrega a consagração dos direitos difusos. De acordo com Novaes, esta terceira geração “teve amplas consequências sociais.” (p.8).

Para atravessar o debate sobre políticas na era contemporânea, a antropóloga ressalta que na modernidade a busca por direitos ocorria de maneira individual, enquanto na perspectiva contemporânea, temos a predominância do “reconhecimento e valorização das diferenças e das identidades coletivas''. (p.8). A concepção de direitos difusos a qual a autora pontua como terceira geração remete a teoria do reconhecimento, sobretudo por entender que “os direitos da juventude podem ser vistos como uma nova intersecção entre direitos de cidadania (civis, sociais e difusos)” (p.8), podendo, assim, ser visualizada com eixos que se conecta em prol de uma política de redistribuição.

Tanto para o reconhecimento quanto para fortalecer a categoria “juventude como sujeito de direitos”, a autora pontua que é imprescindível que os âmbitos nacional e internacional dispensem o diálogo conjunto a respeito desses grupos (juventudes), uma vez que “as principais transformações que atingem os jovens também escapam ao nível de decisões nacionais (transformações no mundo do trabalho, narcotráfico mundial, indústria bélica)(...).” (p.9). 

Pensar o “jovem como sujeito de direitos” diz respeito, também, à particularidade de cada um, sem a ideia de exclusão dos “direitos difusos”. A experiência que cada indivíduo e/ou grupo adquire no processo de desenvolvimento fomenta as possibilidades de engajamento social, e, por consequência, amplia a conexão solidária da coletividade a partir de experiências similares. Respeitar as especificidades e considerá-las é um passo fundamental para o desenvolvimento e ampliação de políticas públicas para as juventudes, uma vez que “a juventude não só refletirá a sociedade, mas está desafiada a reinventá-la." (p.9).

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Cultura e Representação

Resenha do Capítulo 1, do livro:


HALL, Stuart. Cultura e representação. Organização e Revisão Técnica: Arthur Ituassu; Tradução: Daniel Miranda e William Oliveira. – Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri, 2016. ISBN (Apicuri): 978-85-8317-048-8


Por Florival José de Souza Filho


Segundo Hall (2016), a “questão da representação” é vista como a prática central que produz a cultura e momento-chave do que tem sido chamado de “circuito de cultura”. Nesse sentido, levanta questões como: o que representação tem a ver com cultura? Qual conexão existe entre representação e cultura?

Para Hall (2016), cultura diz respeito a significados compartilhados, sendo a linguagem, o meio através do qual damos sentido às coisas, produzimos e intercambiamos significados, valores, fundamentais para os sentidos e a cultura

Os questionamentos de Hall (2016) centram-se sobre como a linguagem constrói significados? Como sustenta o diálogo? Como permite que uma cultura de significados compartilhados interprete o mundo de forma semelhante? Concluindo que suas indagações ocorrem através de um sistema representacional que usa signos e símbolos (sonoros, escritos, imagens eletrônicas, notas musicais) que representam, para os indivíduos, seus conceitos.

Nesse sentido, a linguagem, torna-se, para Hall (2016), um caminho pelo qual pensamentos, ideias e sentimentos, são representados numa cultura, e se tornam essenciais aos processos pelos quais os significados são produzidos.  O exame da “produção e circulação de sentido, por meio da linguagem” é o tema central de sua análise, que tem a cultura como tudo o que seja característico sobre o “modo de vida” de um povo, comunidade, nação ou grupo social.

A importância do sentido para a definição de cultura, diz Hall (2016), encontra-se na “virada cultural” das ciências humanas e sociais, nos estudos culturais e na sociologia da cultura. Sendo assim, cultura também diz respeito há um conjunto de práticas, a produção e ao intercâmbio de sentidos e ao compartilhamento desses significados entre os membros de um grupo ou sociedade.

A cultura, para Hall (2016), se relaciona a sentimentos, a emoções, a um senso de pertencimento, bem como a conceitos e ideias (a expressão do meu rosto que pode revelar algo sobre minha identidade); o que estou sentindo (emoções); e a qual grupo sinto-me pertencente (pertencimento). E os significados culturais organizam e regulam práticas sociais, influenciam nossa conduta e consequentemente geram efeitos reais e práticas.

Hall (2016) afirma que os participantes de uma cultura dão sentido aos indivíduos, objetos e acontecimentos, demonstram que as coisas em si, raramente têm um significado único, fixo e inalterável, ou seja: “uma pedra pode ser somente uma rocha, um delimitador de fronteira ou uma escultura” dependendo do que ela significa para os grupos.

Os indivíduos, segundo Hall (2016), dão sentidos a objetos, pessoas e eventos por meio de paradigmas de interpretação que chegam a eles. Dão sentidos às coisas pelo modo como as utilizam ou a integram em suas práticas cotidianas. Assim, o uso que fazem de uma pilha de tijolos com argamassa, é que faz disso uma casa, e o que” sentem, pensam ou dizem a respeito dessa casa, é o que a torna um lar.

A cultura, ao permear toda a sociedade, diferencia o elemento humano na vida social daquilo que é biologicamente direcionado, ressaltando o papel fundamental do domínio simbólico no centro da vida em sociedade, ou seja, o circuito da cultura indica que sentidos são de fato elaborados em diferentes áreas e perpassados por vários processos e práticas denominadas por Hall (2016) de circuito cultural.

Segundo Hall (2016), o sentido nos permite cultivar a noção de nossa própria identidade, “quem somos” e a “quem pertencemos”, e se relaciona, a questões do como a cultura é usada para restringir ou manter a identidade dentro do grupo e sobre a diferença entre grupos. O sentido é constantemente elaborado e compartilhado em cada interação pessoal e social da qual fazemos parte, é o campo mais privilegiado embora mais negligenciado da cultura e do significado.

O sentido também é produzido pelas mídias de massa, sistemas de comunicação global de tecnologia complexa, que fazem os sentidos circularem entre diferentes culturas e, é sempre criado quando nos expressamos por meio de objetos culturais, quando os consumimos, fazemos usos ou nos apropriamos e investimos em tais objetos, valor e significado, ou quando tecemos narrativas que reduzem a fantasia em torno destes.

Os sentidos, diz Hall (2016), regulam e organizam nossas práticas e condutas, auxiliam no estabelecimento de normas e convenções, na construção da identidade e na demarcação das diferenças, na produção, consumo e regulação da conduta social, ou seja, são os meios, onde o sentido se vê elaborado e perpassado, tendo como primeiro elemento do circuito da cultura, a linguagem.

Para Hall (2016), os indivíduos que compartilham a mesma cultura também convivem com conjuntos de conceitos, imagens e ideias, que lhes permitem sentir, refletir e interpretar o mundo de forma semelhante ao dividir os mesmos códigos culturais. Assim, pensar e sentir são, em si mesmos, sistemas de representação nos quais conceitos, imagens e emoções “dão sentido a” ou representam em nossa vida mental, objetos que estão ou podem estar lá fora no mundo. O sentido é um diálogo parcialmente compreendido, ou seja, sempre uma troca desigual.

Essas diferentes formas de produção e transmissão são chamadas de línguas. As línguas operam por meio da representação falada (uso de sons), escrita (uso de palavras), musical (uso de notas em escala), corporal (emprega gestos físicos).

Hall (2016), entende que os sons, as palavras, os gestos, as expressões, as roupas, são parte da nossa realidade natural e material. Sua importância para a linguagem, não se reduz ao que são, mas sim ao que fazem, “as suas funções. Eles constroem significados e os transmitem, visto que não possuem um sentido claro em si mesmos, são veículos ou meios que carregam sentidos, funcionam como símbolos que representam ou conferem sentido as ideias que desejamos transmitir.

Deste modo, dirá Hall (2016) que a linguagem é uma prática significante. Qualquer sistema representacional que trabalha nesses termos, pode ser visto de forma geral, como algo que funciona de acordo com os princípios da representação pela linguagem. A fotografia é um sistema representacional, pois usa imagens sobre um papel fotossensível, para transmitir um sentido fotográfico a respeito de determinado indivíduo. A música usa a linguagem na medida em que emprega notas musicais para transmitir sensações e ideias.

Os jogos de futebol, repletos de cartazes, bandeiras e slogans, rostos e corpos pintados de certas cores ou inscritos com certos símbolos, podem ser considerados como uma linguagem na medida em que é uma prática simbólica que concede sentido ou expressão à ideia de pertencimento a uma cultura nacional ou de identificação com uma comunidade local. Isso é parte da linguagem da identidade nacional, um discurso de pertencimento nacional, representação aqui está intimamente ligada à identidade e conhecimento.

A linguagem fornece um modelo geral do funcionamento da cultura e da representação, especialmente na chamada abordagem semiótica - estudo dos signos e seus papéis - enquanto veículo de sentido numa cultura em que, ultimamente, centrou seu esforço no estudo do discurso na cultura.

Para Hall (2016), discursos são maneiras de se referir a um determinado tópico da prática ou sobre ele construir conhecimento, um conjunto de ideias, imagens e práticas que suscitam variedades no falar, formas de conhecimento e condutas, relacionadas a um tema particular, atividade social ou lugar institucional na sociedade que define o que é ou não adequado sobre um determinado tema ou área de atividade social.

As formações discursivas, definem ainda que tipo de conhecimento é considerado útil, relevante, verdadeiro em seu contexto e definem que gênero de indivíduos ou sujeitos personificam essas características. Assim a formação discursiva se tornou, termo geral, utilizado para fazer referência a qualquer abordagem, onde o sentido, a representação e a cultura são elementos considerados constitutivos.

O uso corrente da linguagem e do discurso, enquanto modelos de como a cultura, o sentido e a representação funcionam, bem como a subsequente “virada discursiva” nas ciências humanas e sociais, constituem a mudança de direção mais importante, ocorrida nos últimos anos no estudo da vida em sociedade.

por Frank Marcon

1. Representação, sentido e linguagem

A prática da representação, representa para Hall (2016), o processo chave do circuito cultural que ocupa um novo e importante lugar no estudo da cultura. A representação conecta o sentido e a linguagem à cultura. Mas o que isso quer dizer? O que a representação tem a ver com cultura e significado?

Segundo Hall (2016), a representação utiliza a linguagem para expressar algo sobre o mundo ou representá-lo a outras pessoas, mas também, é uma parte essencial do processo pelo qual os significados são produzidos e compartilhados entre os membros de uma cultura. Portanto, representar envolve o uso da linguagem, dos signos e imagens para significar ou representar objetos, tornando-se um processo complexo de conexão entre sentido e linguagem.

Nesse sentido, Hall (2016) apresenta três abordagens teóricas que entende como passíveis de auxiliar no entendimento da representação do mundo efetivado pela linguagem, ou seja: quando a linguagem reflete um significado que já existe no mundo dos objetos pessoas ou eventos, a abordagem é reflexiva. Quando expressa somente o que o falante, o escritor, o pintor querem dizer, o significado intencional pretendido por Ele, a abordagem é intencional ou quando o significado se constrói na linguagem e por meio dela, a abordagem é construtivista.

A representação é a produção do significado e dos conceitos da nossa mente, por meio da linguagem. É a conexão entre conceitos e linguagem que permite nos referirmos ao mundo real dos objetos, sujeitos ou acontecimentos, no mundo imaginário de objetos sujeitos e acontecimentos fictícios.

Temos assim dois sistemas de representação. O primeiro, no qual toda ordem de objetos, sujeitos e acontecimentos é correlacionada a um conjunto de conceitos ou representações mentais, que nós carregamos, e sem eles, jamais conseguiríamos interpretar o mundo de maneira inteligível. O significado depende do sistema de conceitos e imagens, formados em nossos pensamentos que podem representar ou se colocar como o mundo.

Sendo assim, a cultura é por vezes, definida em termos de sentidos compartilhados ou mapas conceituais compartilhados, mas não é o bastante, precisamos ser capazes de representar e trocar sentidos e conceitos, o que só podemos fazer quando também temos acesso a uma linguagem comum.

A linguagem se apresenta, portanto, como o segundo sistema de representação, envolvido no processo global de construção de sentido. O sistema escrito, o sistema falado de uma língua em particular, são ambos considerados linguagens, as imagens visuais, sejam elas produzidas pela via manual, mecânica, eletrônica digital, quando usadas para expressar sentidos, as expressões faciais ou do gestos, a linguagem da moda, do vestiário, das luzes do tráfego, a música, enfim, qualquer som, palavra, imagem ou objeto que funcionem como signos, que sejam capazes de carregar e expressar sentido e que estejam organizados com outros em um sistema, são sobre esta ótica uma linguagem.

O termo geral que usamos para palavras, sons ou imagens que carregam sentido é signo e estes, indicam ou representam os conceitos e as relações entre eles, em nossa mente, e juntos constroem os sistemas de significado da nossa cultura.

1.2 Linguagem e Representação

Segundo Hall (2016), as pessoas que pertencem à mesma cultura compartilham um mapa conceitual relativamente parecido. Nesse sentido, devem compartilhar também uma maneira semelhante de interpretar os significados de uma linguagem. Só assim os sentidos serão efetivamente intercambiados entre os sujeitos.

Hall (2016) questiona: como sabermos se o conceito indica tal coisa? Ou que a palavra efetivamente representa determinado conceito? Como saber que sons ou imagens trarão, por meio da linguagem, o sentido de meus conceitos e do que quero expressar com eles? Isso pode ser simples no caso dos signos visuais, já que o desenho, a pintura ou a imagem de uma ovelha na câmera e na TV por exemplo, traz a semelhança do animal peludo pastando em um campo ao qual eu quero me referir.

Imagens e signos visuais, mesmo quando carregam uma semelhança próxima às coisas a que fazem referência, continuam sendo signos, eles carregam sentido e então têm que ser interpretados. Para fazer isso, nós devemos ter acesso a dois sistemas de representação. Um que correlaciona o animal no campo com o conceito de ovelha e outro que correlacionado há um sistema de linguagem no qual a linguagem visual carrega algumas semelhanças com a coisa real ou parece com ela de alguma forma.

A relação entre o conceito e o signo, torna-se mais difícil no caso das linguagens, escritas ou faladas nas quais as palavras não parecem nada com as coisas às quais se referem, nem soam como elas. Em parte, isso ocorre porque existem diferentes tipos de signos. Os signos visuais que chamamos de icônicos e carregam uma semelhança com o objeto, pessoa ou evento ao qual fazem referência e os signos escritos ou ditos que são chamados de indexicais e não carregam nenhuma relação óbvia com as coisas às quais se referem.

 

1.3 Compartilhando os códigos

Ao discutir o compartilhamento dos códigos, Hall (2016), busca entender como as pessoas que pertencem à mesma cultura, que compartilham o mesmo mapa conceitual e que falam ou escrevem a mesma língua, sabem que a combinação arbitrária de letras e sons que constitui a palavra ÁRVORE indica ou representa o conceito de “planta grande que cresce na natureza”?

No entanto, afirma que árvores de não saibam que são árvores e que, o sentido não está no objeto, na pessoa, ou na coisa, e muito menos na palavra. Somos nós quem fixamos o sentido, tão firmemente que depois de um tempo ele parece natural e inevitável. O sentido é construído pelo sistema de representação e fixado pelo código que estabelece a correlação entre nosso sistema conceitual e nossa linguagem, de modo que a cada vez que pensamos em uma árvore o código nos diz para usar a palavra em português árvore; a letra V para VITÓRIA; a cor vermelha do semáforo para PARE e verde para LIVRE.

Para Hall (2016) então, um jeito de pensar a cultura é nos termos desses mapas conceituais compartilhados, sistemas de linguagem compartilhada e códigos que governam as ações de tradução entre eles. Os códigos fixam as relações entre conceitos e signos, estabilizam o sentido dentro de diferentes linguagens e culturas, nos dizem qual linguagem devemos usar para exprimir determinada ideia. Inversamente nos dizem quais conceitos estão em jogo, quando ouvimos ou lemos certos signos, e nos possibilitam falar e ouvir inteligivelmente, e estabelecer uma “tradutibilidade” entre nossos conceitos e nossas línguas.

Entende-se agora, de forma mais fácil, porque, sentido, linguagem e representação são elementos fundamentais no estudo da cultura. Pertencer a uma cultura é pertencer, grosso modo, ao mesmo universo conceitual e linguístico, saber como conceitos e ideias se traduzem em diferentes linguagens e como a linguagem pode ser interpretada para se referir ao mundo ou para servir de referência a ele. Compartilhar esses aspectos é enxergar o mundo pelo mesmo mapa conceitual e extrair sentido dele pelos mesmos sistemas de linguagem.

O sentido não é inerente às coisas do mundo. Ele é construído, produzido, é o resultado de uma prática significante - uma prática que produz sentido, que faz os objetos significarem.

1.4 Teorias da Representação

Nesse item, Hall (2016) nos apresenta os três enfoques que explicam como a representação do sentido pela linguagem funciona, são eles: o enfoque reflexivo, o intencional e o construtivista. Na abordagem reflexiva, o sentido é pensado como repousando no objeto, pessoa, ideia ou evento no mundo real, e a linguagem funciona como um espelho, para refletir o sentido verdadeiro, como ele existe no mundo.

A abordagem intencional, defende que é o interlocutor, o autor, quem impõem seu único sentido no mundo pela linguagem. As palavras significam o que o autor pretende que signifiquem. Todos nós usamos a linguagem para convencer ou comunicar coisas que são especiais ou únicas para nosso modo de ver o mundo.

A terceira abordagem é a construtivista. Ela reconhece o caráter público e social da linguagem. Ela atesta que nem as coisas nelas mesmas, nem os usuários individuais podem fixar os significados na linguagem. As coisas não significam: nós construímos o sentido usando os sistemas representacionais - conceitos e signos. De acordo com esta abordagem, nós não devemos confundir o mundo material, onde as coisas e pessoas existem, com as práticas e processos simbólicos pelos quais representação, sentido e linguagem operam.

2. O legado de Saussure

Segundo Hall (2016), a visão social construtivista da linguagem e da representação deve muito a obra e influência do linguista suíço Ferdinand de Saussure. Para Saussure, a produção do sentido depende da linguagem: “a linguagem é um sistema de sinais.” Sons, imagens, palavras escritas, pinturas, fotografias, etc, funcionam como signos dentro da linguagem “apenas quando eles servem para expressar ou comunicar ideias”. Para comunicá-las, eles devem ser parte de um sistema de convenções.

O signo foi analisado por Saussure, em dois outros elementos: a forma (a verdadeira palavra, imagem, foto, etc) e a ideia ou conceito na sua cabeça com a qual a forma era associada. Saussure, chamou o primeiro elemento de significante e o segundo elemento - o conceito correspondente que ele desencadeia na sua cabeça - de significado. Cada vez que você ouvir ou ler o significante (isto é a palavra ou imagem de um celular, por exemplo), ele será relacionado com o significado (o conceito de um telefone portátil na sua cabeça).

Hall (2016), afirma que Saussure, propôs que a linguagem consiste em significantes. Mas para produzir sentido, os significantes devem estar organizados em um sistema de diferenças. É a diferença entre os significantes que significa. E a relação entre o significante e o significado, que é fixada pelos nossos códigos culturais, não é, argumentou Saussure, permanentemente fixa. Palavras mudam os seus sentidos que são produzidos dentro da história e da cultura. Assim, se o sentido muda historicamente e nunca é fixado de forma definitiva, o que se segue é que captar o sentido, deve envolver um processo ativo de interpretação.

2.1 A parte social da linguagem

Segundo Hall (2016), Saussure, dividiu a linguagem em duas partes: a primeira consiste nas regras e códigos gerais do sistema linguístico que deve ser compartilhado para que se torne um meio de comunicação. Essa estrutura de linguagem subjacente, governada por regras, nos permite produzir sentenças bem informadas chamada por Saussure de “langue” (o sistema de linguagem).

A segunda parte consiste nos atos particulares de fala, escrita ou desenho - que usando a estrutura e as regras da langue (sistema de linguagem) - são produzidos por um interlocutor ou escritor real. Ele chamou isso de “parole” ou fala (ou escrita).

Segundo Hall (2016), a estrutura subjacente de regras e códigos (langue) é a parte social da linguagem e poderia ser estudada com a precisão das leis de uma ciência, devido à sua natureza fechada, limitada. A segunda parte da linguagem, o ato individual da fala ou do pronunciamento (parole), é a superfície da linguagem. A linguagem para Saussure é, um fenômeno social, que não pode ser uma questão individual, já que não é possível inventar as regras da linguagem individualmente, para nós mesmos.

domingo, 27 de março de 2022

E-book "Cultura de Paz e Práticas Restaurativas na Escola: Reflexões e Diagnóstico

 Lançamento E-book [baixar]



Este livro é resultado do projeto de pesquisa “Cultura da Paz e Justiça Restaurativa contra a Violência Escolar: estudo e diagnóstico para elaboração de políticas públicas de aperfeiçoamento da prática educacional de adolescentes e jovens em Sergipe”, financiado com recursos da FAPITEC/SEDUC, Edital 02/2020, que buscou verificar se existe e como vem ocorrendo iniciativas e políticas públicas para a promoção da cultura de paz e práticas restaurativas no âmbito escolar de Sergipe, visando perceber se há ações e políticas escolares neste sentido, com o objetivo de compreendermos sobre seu teor e sua eficácia; bem como para elaboração de um diagnóstico sobre realidades das violências escolares destinado a subsidiar futuros projetos de políticas públicas que promovam a cultura da paz nas escolas.






sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Processos Identitários: Sentidos de Nação e Democracia

 



Lançado!!! Download free.

"Este livro é fruto de alguns debates que vêm sendo realizados entre professores(as), pesquisadores(as) e alunos(as) desde o ano de 2018, no âmbito do Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas (GERTs); do Observatório da Democracia/UFS (OBSDEMUFS) e da disciplina Identidades e Poder nas Ciências Sociais, do curso de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de Sergipe. Os temas das identidades e dos Estados nacionais têm sido retomados como forma de analisarmos o fenômeno da onda conservadora e nacionalista que se intensificou nos últimos anos em diferentes países, incluindo o Brasil."

 Organizadores: Danielle Parfentieff de Noronha, Frank Marcon, Marco Aurélio Dias de Souza.

1. Entre movimentos sociais e movimentos terroristas: Disputas discursivas entre projetos nacionais no Brasil bolsonarista (Ygor Santos de Santana)

2. Identidade e democracia no jogo de complexidades da política contemporânea (Josevânia Nunes Rabelo, Rosinadja Batista dos Santos Morato e Ana Flávia Pereira Ventura)

3. Algumas notas sobre a crise democrática e a ascensão da retórica Alt-right (Marco Aurélio Dias de Souza)

4. Os processos identitários frente ao contra-ataque conservador: atores, disputas, normas e contextos. (Roger Carlos Ferreira Alves Santos)

5. Facebook: identidade, poder e mídia social (Mário César de Souza)

6. Identidades nacionais e a ideia de mestiçagem no Brasil (Frank Marcon e Lucas Vieira Santos Silva)

7. Distanciamento e aproximação nos processos de identificação e diferença entre Brasil e América Latina (Gabriela Rodrigues Botelho e Liviane Nascimento dos Santos) 

8. “Cuba, territorio libre de América”: notas sobre soberania, identidade e justiça social no imaginário nacional cubano. (Danielle Parfentieff de Noronha e Paulo Renato Vitória)

9. Nação, nacionalismos e imaginação das identidades nacionais (Ivan Paulo Silveira Santos) 

10. Identidades nacionais e o caso do movimento Paraguay Poderoso (Carolina Olmedo) 

11. O futebol como expressão de identidade: a AD Confiança, em Aracaju, um time proletário (Sakay de Brito Santos)

domingo, 31 de outubro de 2021

Posfácio para "um dia de cada abril ou a função sócio-política do afeto"


* Texto escrito como Posfácio para o livro de poemas: Ramalho, Ítalo. um dia para cada abril ou a função sócio-política do afeto. Ed. Criação, Aracaju, 2021. pp 81-91


Estes tempos de pandemia têm sido socialmente críticos, desde os primeiros impactos que tivemos em abril, quando chegamos às mil mortes no País, até as mais de 100 mil mortes [este texto foi escrito em agosto de 2020], após passados cinco meses de má governação e má condução das políticas de saúde e de restrições sociais de aglomeração. Lá atrás começamos a conviver com uma nova realidade cíclica que já dura meses e que nos afetou indistintamente de forma cultural, social e psicossomática. 

Além dos efeitos perversos da doença provocada pelo vírus, as imposições de isolamento social e de confinamento alteraram radicalmente nossas vidas. Por um lado, transformaram nossas rotinas e formas de higienização e cuidado, de convívio social e afeto, de estudos, trabalho e lazer; por outro lado, também alteraram nossas formas de sentir felicidade e tristeza, indignação e complacência, prazer e tédio, amor e raiva... 

Neste sentido, estes tempos de pandemia também têm sido intensamente reflexivos, provocando sensações pensantes, nos desviando do curso planejado de presente e futuro e criando um lapso temporal e espacial que tornou possível viver de outro modo e de outra perspectiva os dias e os meses, os lugares e os ambientes.

No livro que temos em mãos ou em tela, o ciclo dos dias densos, no transcurso de um mês, foi transformado poeticamente em marco das experiências vividas e sentidas pelo autor, intensamente doloridas e caóticas, solitárias e angustiantes, infladas pela diminuição rítmica do tempo e do espaço. Do abril que foi ou não escolhido por acaso, mas que por coincidência serve como metáfora de abertura, de início de uma dada condição e catarse. Estas sensações que também foram experimentadas por muitos outros de nós e impuseram densas formas de reflexividade à experiência, tendo maior efeito nos primeiros meses de isolamento e confinamento social, quando as transformações no dia-a-dia ainda foram mais intensas, repentinas e impactantes. 

Ítalo Ramalho toma sua própria experiência vivida destes dias como arquétipo poético das práticas, das ilusões e das emoções. Viver, pensar, sentir e escrever sobre tais sensações é uma forma de se expressar diante do imponderável, tentar compreender seus efeitos e tentar entender-se a si e aos outros neste processo. Delimitar e fatiar o tempo sentido e o tempo vivido com a marca cronológica dos dias de um mês não é apenas uma forma de contar, no isolamento ou no confinamento social, mas também uma forma de registrar o experienciado, o pensado e o sentido através da linguagem e, neste caso específico, da poesia. Transformar o estranho, o caótico e o desconhecido em vida e em expressão e vazão estetizada também é um ato político de resistência e de resiliência que a linguagem poética permite, revelando potencialidades outras, diante das formas volúveis que as linguagens cotidianas do tempo rápido, industrial, metropolitano, online e digital não alcançam. 

Sobre os dias que passam, os registros na forma de poema revelam também a expertise do autor advinda das conexões entre campos de saberes distintos, o literário e o antropológico, o de amante das artes e da formação em direito, do qual emerge uma autoetnografia poética profunda, que observa o mundo a partir da realidade experimentada, onírica e subjetivada, marcada pela relação e pela existência do outro - e/ou dos outros - densamente refletida e reflexiva. Se é no(s) outro(s) que existimos, os efeitos do impacto do isolamento social se tornam estruturais nas percepções de nós mesmos, e a poesia se torna o verbo de um modo de se dizer sobre um/eu e sobre todos/nós e de modo holístico sobre o anthropo - o quê Ítalo Ramalho bem traduz nesta obra. 

O abril, aqui, mesmo que despedaçado, como diz a memória do autor sobre o livro/filme, no poema 15 de abril, é tratado como ciclo e como estrutura de sentido desta contagem poética dos dias, um dia para cada dia, um dia para cada abril, explorando muitas faces da carga semântica da palavra e dos significados sociais que ela sugere. Abril intenso, dilacerado, fragmentado, confuso, um dia como todos os dias, um mês como todos outros, só que não como antes, mas como agora, inusitado. Nesta poética do despedaçamento do presente, há um desejo de tradução deste tempo trágico em atos da rotina da vida vivida que se segue: dormir, acordar, transar, cozinhar, comer, limpar, ler, trabalhar, assistir, comprar... Ou simplesmente pulsar... 

            20 de abril 
        
            no entanto: 
            o pulso pulsa 
            pul.....sa 
                        
                        pul..........sa 
                        pulsalâmina 
                        sob o esqueleto estéril 
                    do verbo 

A poesia se abre no abril e se torna pulso, verbo lâmina, remexendo as próprias emoções do autor e do leitor a partir da intensidade explícita da simplicidade e da importância do cotidiano, brincando com jogos de palavras e com os ritmos da linguagem e na forma, mas atenta a análise psicológica e social e à mensagem política implícita das metonímias, às vezes explícita do verbo. É um jogo com os corpos, com a consciência, com a vida e com a morte, mesmo com o lento marcapasso do tempo e diante do espaço restrito da casa, do confinamento e do casamento.

No abril da pandemia, do isolamento e do genocídio como fim, Ítalo Ramalho também recorre à memória das sucessivas políticas de morte traduzidas para outros tempos, através da crítica histórica sobre a colonização do Brasil, por exemplo, trazendo o abril como marco da memória coletiva da existência de outros corpos de dor, e do silenciamento de outras formas de vida e de conhecimento. Da dureza da linguagem ácida e áspera do poeta/poema concreto, o autor encontra ao seu modo e ao seu tempo a sua forma de analogia à denúncia sobre a dominação colonial e judaico-cristã dos povos indígenas, porém sob o alento da resiliência e da reinvenção antropofágica que sobrevive na linguagem... 

            22 de abril 
           
            antes do som 
            lusitano 
            o verbo yanomami 
            sustentou o céu de davi                            
                            inferno de cristo 
                            silêncio antunes 
                            arnaldo de fazer 
                            verboração 
                            carnificanção 

O abril deste livro não é apenas um mês, mas todos os meses repetidos sob o qual vivemos este longo inverno que marca e marcará nossas experiências e continuará aprofundando as realidades sociais já tão desiguais no Brasil. Algo que o autor já profetiza ao criticar a contabilidade frívola dos corpos e a dimensão do poder que ele denomina de necroliberalismo, através deste neologismo que traduz a sedução hegemônica de um modelo de economia liberal e da apolítica cega, decadente e gananciosa que nos afeta e se espalha pelo mundo. Aliás, doença, morte e política se completam de forma recorrente na poesia de Ítalo Ramalho, não como hipérbole estética, mas por se tornarem rotina ou parte da língua franca no imaginário cotidiano do isolamento social e no vernáculo da política, tangenciados pelas facetas pública e privada da vida, na qual mesmo confinados ninguém mais se esconde. 

Mesmo que a cronografia deste abril em algum momento se feche, com língua grossa (ou fina), como diz o autor, outros trinta poemas surgiram - surgirão - do pavimento superior do incansável subconsciente do poeta, da palavra dos meses do agora ou daquela um dia pensada, ritmada e conjugada como função sócio-política do afeto, aparecendo como parte do ritual do ofício pensante e incessante de burilar, de escrever, de declamar e de brincar silenciosamente com os sons, com as subjetividades e os significados das palavras até lhes dar vida pública. São ideias outrora inacabadas, não costuradas, são as formas do fabricar a poesia, agora amalgamadas e expressas em versos a compor o todo da obra, como efeito mágico da bricolagem. Nesta segunda ronda de poemas do livro – os outros trinta -, o autor suspende o abril para transformar o ciclo do mês em estrutura, e os versos seguem aparecendo com a marca dos sonetos; descomprometidos com a narrativa das rotinas do dia a dia, perpetuando de modo enigmático e gráfico o ícone da teia e da rede (#) como marcador de outras práticas; como um outro modo de pensar, dizer, sustentar, fabricar e coser a vida, que se repete como etéreo. Esta tessitura pensada das palavras e dos versos perfura outros planos de consciência, como ato de sustentação da própria existência, soltos, embora enumerados, sequenciados e tagados.            

                #20 

                para o poema nascer 
                é preciso costurá-lo 
                da ponta à cachaça
 
                pensar pelo pé é 
                fazer do caminho 
                bifurcado − 
                linha e pedra – 
                questão de equilibrachão 

No registro poético do autor reconhecemos o desejo pela poesia como possibilidade de equilíbrio, de razão, mesmo diante do uso lúdico, sonoro e semântico das palavras em tempos de normalidades suspensas. A experiência sentida e vivida, marcada pelos efeitos do tempo e dos acontecimentos, é traduzida em linguagem gráfica e sonora, na qual se encontram indivíduo e sociedade, afeto e política, emoção e racionalização, forma e conteúdo. É a poesia tornando o imaginável dizível, o incompreendido compreensível, as palavras em sensações e formas animadas... 

                 #22 

                em minhas mãos 
                o riso do livro 
                move 
                os dentes das suas 
                páginas 
                
                banquete farto: 
                proteína 
                verbal 

É certo que os últimos meses impactaram intensamente o curso de nossas vidas e que para muitos de nós as leituras foram boas companheiras. Mas, para muito além disto, surgiram novos modos de sociabilidades, novas estratégias de sobrevivência e de fazer político, novas formas de regulação social, novos comportamentos afetivos, novos modos de percepção e novas formas de intensificação do individualismo. 

Neste livro temos alguns registros sincrônicos destes processos também vividos pelo poeta a partir da experiência pessoal e da passionalidade racional da sua criação. Versos produzidos durante as sensações vividas, capturando impressões sobre instantes, tendo a forma como latência e como potência de dizer para além do plenamente compreensível para o agora. A poesia - como linguagem ou o livro como obra aberta -, neste caso, aparece metamorfoseada como actante, tanto deste momento para outros tempos, quanto do leitor que sou para outros. 

No futuro teremos estudos sobre a produção reflexiva gerada durante a vigência das excepcionalidades provadas pela pandemia. Sobre o quão intensa e distinta ela fora, sobre como as pessoas reviram as suas vidas e os seus desejos, repensaram os seus projetos e se viram como sujeitos diante da sensação de impotência. Sensação inicialmente já existente diante da guerra ideológica-política, provocada de forma insistente por modelos de governação antidemocráticos, como do caso brasileiro, que têm gerado efeitos ainda mais perversos durante a pandemia, aprofundando discursos de exclusão e de eliminação social, tomando como base moralismos perversos, seletivos e mal intencionados que transformam as orientações sérias e científicas no campo da saúde pública em chacota e instrumento de um modus operandi perverso de exercício de poder pelo poder. Aliás, o caos é terreno fértil para o crescimento de tais formas de fazer política, embora também abra espaço para a transformação revolucionária, para o encerramento dos ciclos, para o início de outros e para emergência de agências insurgentes.

De forma muito pouco reflexiva, vem se tornando senso-comum que as atuais regras de biossegurança, as normas de sociabilidade, de trabalho remoto, de estudos e de lazer destes tempos de excepcionalidade se tornarão o novo normal. A expressão mais me parece conter o desejo de uma nova normalidade de controle social, com maiores restrições à movimentação das pessoas, maior exploração do trabalho, maior endurecimento da vida social e a ideia de que a humanidade viverá a ameaça constante do apocalipse, independente do arrefecimento da pandemia; do que a vontade de entender o processo e de transformar esta realidade temporária. Não temos certeza se a pandemia provocada pelo vírus Sars-COV2 será um marco de transformações profundas e duradouras nas sociabilidades, nos costumes, na geopolítica e na economia global ou nas formas de experimentar a humanidade - e nem precisamos tê-la -, o certo é que enquanto ela se perpetuar continuaremos vivendo a experiência do individualismo de forma ainda mais intensa e jamais vista, e isto se reflete no quê e no como sentimos, sofremos, pensamos e produzimos. É sobre isto que importa dizer e fazer agora. Sobre os registros da experiência humana que nos tornem capazes de interpretar e de compreender para podermos existir, resistir e transformar. Mas, enquanto vermos nas ruas, nas redes sociais e nos noticiários que as pessoas estão saindo do isolamento social voltando a consumir loucamente, os discursos minimizando o impacto sobre as vidas, os negacionismos ideológicos segregacionistas se sobrepondo ao conhecimento científico e crítico e a economia colocada ainda mais acima das pessoas, os versos de Ítalo Ramalho continuarão soando como grito de dor e como alerta humanitário e trágico do agora. 

                6 de abril 

                caixas de papel 
                deveriam conter 
                sapatos 
                guardam pés mortos 
                enforcados 
                pelo cadarço 
                dos corpos infectados 
                (eco à dor) 

Como leitor de hoje, não há como se deparar com este livro sem perceber o mundo pela conjunção das lentes do trágico e do satírico, do político e do afetivo; da desigualdade e da resiliência; não há como não se sentir incomodado, angustiado, ou às vezes esboçar um sorriso irônico, sarcástico, casual, ou noutras sentir-se como sujeito empoderado, embora na dor e no odor da morte dos outros - e da nossa humanidade. Estas são mensagens contidas neste livro, sobre o presente e sobre como ele nos faz sentir, pensar e resistir a partir do cotidiano, da estética e da política. 

Frank Marcon Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe.

Acesso ao livro na íntegra: https://editoracriacao.com.br/wp-content/uploads/2021/03/livro-final-site-1.pdf


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Estudos pós-coloniais em reflexão*

Grafitti Barrio Callao - Lima - Peru 2019  - Fotografia do Autor


Frank Marcon


* Texto avulso escrito orginalmente em 2005 como sistematização das leituras que realizava sobre o tema. Foi disponibilizado para acesso livre no site do NUER-UFSC (Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas), em 2007. 

O campo das reflexões e estudos pós-coloniais se constitui como tal no fim dos anos 80, início dos 90, do século vinte. São estudos em diversas áreas disciplinares, marcados fortemente pela teoria literária e em seguida absorvidos pela história e pela antropologia. A principal proposta disciplinar no campo das reflexões pós-coloniais é o seu caráter transversal, que perpassa a teoria literária, a psicanálise, a filosofia, a antropologia, a história e a política. Esta característica marca a sua forte presença entre os Cultural Studies (HALL, 2003) e as influências desta sobre as reflexões do pós-colonial. No entanto, esta não é uma área que apresenta consensos em torno de categorias ou do que significa a própria definição de pós-colonial, bem como no que diz respeito a outros tantos conceitos e categorias utilizados.

O que se pode dizer é que as referências ao termo e suas problematizações surgiram primeiramente entre os teóricos anglo-saxônicos (nos EUA, Inglaterra, Austrália, bem como nas antigas colônias inglesas) e multiplicaram-se também entre os intelectuais da diáspora do colonialismo francês, neerlandês e mais recentemente do português e espanhol.

Tornou-se polêmico o número significativo de estudos que passam a utilizar-se da designação de “estudos pós-coloniais”. Apesar de alguns autores proclamarem o surgimento de uma “área de estudos” ou de uma “teoria pós-colonial”, na disputa por um determinado espaço acadêmico, outros teóricos se tornam críticos deste tipo de postura, mesmo estando envolvidos com o campo das problemáticas contemporâneas suscitadas pelas experiências de ordem global do que fora o colonialismo.

Na perspectiva de sistematizar o contexto destes embates proponho uma breve digressão sobre o “pós-colonial”, enquanto conceito e enquanto campo de estudos. Aponto as principais categorias e conceitos trabalhados neste campo, os autores envolvidos com a temática em diferentes perspectivas e os principais referenciais teóricos utilizados pelos mesmos.

O termo adjetivo “pós-colonial” ou o substantivo “pós-colonialismo”, geralmente tem sido situado pelos estudiosos do assunto por três diferentes ênfases não necessariamente contraditórias entre si. São elas: as que distinguem o pós-colonial como uma teoria; aquelas que o definem como uma situação global contemporânea; e aquelas que denominam a condição política dos Estados nacionais após a independência ou a experiência colonial.

Para o antropólogo Miguel Vale de Almeida (2000), sobre o “pós-colonial”, devemos levar em consideração que:

“1) o termo deverá ser aplicado ao período posterior ao colonialismo, mas também posterior ao fracasso dos projetos nacionalistas e anti-colonialistas aplicados logo após as independências; 2) o termo deverá aplicar-se aos complexos de relações transnacionais entre ex-colônias e ex-centro colonizadores; 3) tudo o resto, como globalização, settler societies, neocolonialismo, colonialismo interno, devem ser tratados nos seus próprios termos (ALMEIDA, 2000, p. 231).

Mesmo assim, as sociedades não são todas pós-coloniais da mesma forma (HALL, 2003) Sintetizando alguns destes pontos, o “pós-colonial” como conceito só é útil na medida em que possa nos ajudar a pensar, dialogar ou descrever interpretativamente as mudanças nas relações globais que marcam as transições desiguais da era dos impérios para a era pós-independências. Por um lado, este é um conceito universal, na medida em que sociedades colonizadas e colonizadoras foram ambas afetadas pelo processo colonial. Por outro, o termo “pós” não pode ser meramente descritivo disto ou aquilo, do antes ou do agora. Ele deverá reler a colonização como parte de um processo essencialmente transnacional e transcultural global, produzindo uma reescrita descentrada, diaspórica ou global de anteriores grandes narrativas centradas em nações. Neste sentido o pós-colonial não é meramente uma periodização baseada em estágios. (ALMEIDA, 2000)

Este não é apenas um “pós” de superação de etapas, mas é um “pós” do gesto de “abrir espaços”, por ser posterior a algo, mas também por rejeitar os aspectos “de” algo.

Não significa que uniformemente as sociedades coloniais ou tradicionais ultrapassaram o “colonialismo”. Significa que esta é uma condição de posturas intelectuais, estéticas, políticas e econômicas marcadas pela deslegitimação da autoridade, poder e significados produzidos pelos impérios ocidentais. (APPIAH, p. 213) É um “pós” que contesta narrativas anteriores, legitimadoras de dominação e poder, como, por exemplo: de raça, gênero, classe, nação e etnia. Nesta perspectiva, o entendimento do “pós-colonialismo” como substantivo propõe a idéia de uma condição universal do pós-colonial. Condição global que emerge na literatura, na filosofia, na estética e na política fruto da mútua experiência colonial na metrópole e nas colônias.

Em outras palavras “as perspectivas pós-coloniais emergem do testemunho colonial dos países do Terceiro Mundo e dos discursos das ‘minorias’ dentro das divisões geopolíticas de Leste, Oeste, Norte e Sul” (BHABHA, 1998). Para alguns, o “pós-colonial” marca uma condição latente da contemporaneidade e torna-se também um projeto literário, político e teórico. Na afirmação de Miguel Vale de Almeida (2000), o pós-colonialismo acabou por se constituir numa corrente. Uma corrente teórica e crítica que estaria procurando desfazer ou desconstruir o eurocentrismo, com a consciência de que a pós-colonialidade não nasce e não cresce numa distância panóptica em relação à história. Estes estudos estariam propondo um “depois de ter sido trabalhado” pelo colonialismo (ALMEIDA, 2000, p. 228). Noutros termos, seria uma teoria do “discurso pós-colonial” ou a “crítica pós-colonial”.

Para Hall (2003), “uma das contribuições do termo “pós-colonial” tem sido dirigir nossa atenção para o fato de que a colonização nunca foi algo externo à sociedades das metrópoles imperiais” (p.108). O termo não se restringe a descrever uma dada sociedade ou época. “Ele relê a colonização como parte de um processo global essencialmente transnacional e transcultural – e produz uma reescrita descentrada, diaspórica, ou global, das grandes narrativas imperiais do passado, centradas na nação.”(HALL, 2003, p. 109). O pós–colonial não é, portanto, uma forma de periodização de estágios epocais. As lutas e os processos de descolonização seriam apenas um momento distinto que reverte fundamentalmente à configuração política do estado e do poder.

O “pós-colonial” seria um “discurso” epistêmico e cronológico, que não se trata apenas de posterior, mas de ira além do colonial. (HALL, 2003, p. 118) Um discurso que opera sob rasura, no limite de uma episteme em formação, não como um paradigma convencional, (HALL, 2003, p.121) mas como episteme que opera entre uma lógica racional sucessiva e uma desconstrutora. Uma resposta à necessidade de superar a crise de compreensão produzida pela incapacidade das velhas categorias de explicar o mundo (HALL, 2003, p. 124)

Numa perspectiva crítica ao uso do indiscriminado do termo “pós-colonial” e mesmo de uma teoria que se proclame como tal, McClintock (1995) diz que o termo pós-colonialismo é ao mesmo tempo celebratório e ofuscador. Isto significa dizer que enquanto alguns países podem ser pós-coloniais, em relação aos antigos domínios metropolitanos, eles podem não ser pós-coloniais, em relação aos seus novos vizinhos colonizadores, se pensarmos na re-estruturação geopolítica mundial das últimas décadas (McCLINTOCK, 1995, p. 13). Também o “neocolonialismo” universal não seria uma repetição da performance do colonialismo? Na visão de McClintock (1995), esta distinção entre “colonial” e “pós” pode ser prejudicial por deixar de estar atenta à continuidade das relações de poder colonialista no mundo contemporâneo. Mesmo assim, a autora diz que admite trabalhar com muitos dos conceitos daquilo que está sendo posto como teoria pós-colonial. Uma das características, do uso de conceitos, teorias e da noção de pós-colonial, é que ela é perpassada pelas discussões sobre o pós-modernismo e a globalização de mercado, o que implica estarmos também atentos a estes debates.

Para Don ROBOTHAM (1997), “o desmoronamento do comunismo e a passagem ao capitalismo pela Europa Oriental e a Ásia Central, o desaparecimento do movimento de países não alinhados, a crise da África, as dificuldades econômicas, sociais e políticas da União Européia, a ascensão na Ásia, da China e do Japão, as dificuldades dos EUA conservar sua posição única e superpotência, a revolução eletrônica e a mundialização das finanças e das comunicações, trouxeram novos desafios às ciências sociais”. (p. 296). Pensando o “pós-colonialismo” e sua relação com a Antropologia, Robotham (1997) diz que a disciplina entra num período contemporâneo sem precedentes, mas é necessário rever seus próprios conceitos de ocidentalização, modernização e pós-colonialidade. Eu diria que a Antropologia pós-colonial seria aquela que rejeitaria em absoluto um projeto racionalista Iluminista. Para muitos estudiosos, os representantes desta antropologia seriam alguns dos mesmos antropólogos considerados como “pós-modernos”, como: James Clifford, George Marcus, Cushman & Fischer. Por exemplo, a obra considerada como fundadora da antropologia pós-colonial é o livro Writring Culture, de Clifford e Marcus (1986).

Finalmente, inspirador das discussões sobre “pós-colonialismo”, Edward Said (1990) não trabalha com a noção de pós-colonial na sua obra emblemática: “Orientalismo”. Said (1990) trabalha com o conceito abrangente de “imperialismo”, e o define como forças políticas que, muitas vezes, fazem alguns países deterem uma determinada hegemonia cultural e econômica predominante sobre outros. Este imperialismo que representa a legitimidade dos valores ocidentais num plano universal e constrói sua visão hegemônica sobre o Oriente enquanto unidade geográfica e colonial. O mesmo ocorrendo com outras categorias, como: raça, nação, colônia, terceiro mundo, América Latina e África, que se tornaram noções generalistas, estereotipadas, abrangentes e sistemáticas que perduram e são atualizadas a partir de referentes já constituídos do pensamento racionalista ocidental. Said (1990) problematiza a perspectiva imperialista para dizer que “a tarefa mais importante de todas seria o estudo das alternativas contemporâneas para o orientalismo, que investigue como se podem estudar outras culturas e outros povos desde uma perspectiva libertária, ou não-repressiva e não-manipuladora” (SAID, 1990, p. 35). Isto constituiria, talvez, o projeto ou a proposta maior de uma “teoria pós-colonial”.

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PRATT, Mary Louise. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: EDUSC, 1999.

PRATT, Mary Louise. Pós-colonialidade: projeto incompleto ou irrelevante? In: VÉSCIO, Luiz Eugênio e SANTOS, Pedro Brum (Org.).Literatura & História: perspectivas e convergências. Bauru: Edusc, 1999. p. 17-54.

ROBOTHAM, Don. Postcolonialités: le défi des nouvelles modernités. In: Revue Internationalle des Sciences Sociales. n. 153, 1997. pp 393-408.

SAID, Edward. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1990.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Entre Prospero e Caliban: Colonialismo, pós-colonialismo e inter-identidade. In: RAMALHO, Ma. Irene e RIBEIRO, Antônio Sousa. Entre ser e estar: raízes, percursos e discursos da identidade. Porto: Afrontamento, 2001. (Vol 08 de A sociedade portuguesa perante os desafios da globalização).

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STOLER, Ann Laura. Race and the education of desire: foucault’s history of sexuality and the colonial order of things. London: Duke University Press, 1995.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Do colonial ao pós-colonial, do arquivo ao campo: “luso”, “franco” e outras fonias. Seminário temático ‘A Antropologia e seus métodos: o arquivo, o campo, os problemas’. XXV Encontro anual da ANPOCS. Caxambu, 16 a 20 outubro de 2001.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Ecos do Atlântico Sul: representações sobre o terceiro império português. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Fapesp, 2002.

YOUNG, Robert J. C. Colonial desire: hybridity in theory, culture and race. London and New York: Routledge, 1995.

domingo, 18 de julho de 2021

LIVRO



Juventudes e Desigualdades Sociais em Tempos de Crise e Radicalização Política


Organizado por Frank Marcon 

e Danielle Parfentieff de Noronha



Colaboradores e Capítulos

Que política e política para quem? Juventude e engajamento político em Moçambique

Alcinda Honwana

 

Por-venires en tiempos distópicos (o acerca de juventudes, desigualdades, pandemia,

utopías, Estados, la vida, la muerte, y… ¿algo más?)

Mariana Chaves

 

Situação da juventude e desafios pós-pandemia

Carles Feixa

 

Juventude, raça e gênero: um olhar socioantropológico acerca do sistema socioeducativo em Aracaju/SE

Élida Damasceno Braga e Lucas Vieira Santos Silva

 

Representações sobre gênero e juventudes em Meu nome é Bagdá

Danielle Parfentieff de Noronha

 

Graffiti e hip-hop: resistências urbanas e as agências estetizadas das mulheres na cidade

Erna Barros e Raissa Freitas

 

Entre o protagonismo e a invisibilidade: dinâmicas reivindicatórias das políticas públicas de juventudes em Sergipe

João Víctor Pinto Santana, Adrielle da Silva de Oliveira, Letícia Oliveira Feijão Galvão e Frank Marcon

 

O coletivo Fora do Eixo, a comunicação e a política em tempos de ativismo em rede

Wener da Silva Brasil

 

Cultura escolar, sociabilidades juvenis e os desafios na implantação da Lei 10.639/03

Saionara Serafim Andrade dos Passos

 

Experiências juvenis e políticas de drogas

Anatil Maux

 

Geração como problema e achado empírico nos estudos sobre juventudes

Frank Marcon e Mateus Antonio de Almeida Neto