segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Estudos pós-coloniais em reflexão*

Grafitti Barrio Callao - Lima - Peru 2019  - Fotografia do Autor


Frank Marcon


* Texto avulso escrito orginalmente em 2005 como sistematização das leituras que realizava sobre o tema. Foi disponibilizado para acesso livre no site do NUER-UFSC (Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas), em 2007. 

O campo das reflexões e estudos pós-coloniais se constitui como tal no fim dos anos 80, início dos 90, do século vinte. São estudos em diversas áreas disciplinares, marcados fortemente pela teoria literária e em seguida absorvidos pela história e pela antropologia. A principal proposta disciplinar no campo das reflexões pós-coloniais é o seu caráter transversal, que perpassa a teoria literária, a psicanálise, a filosofia, a antropologia, a história e a política. Esta característica marca a sua forte presença entre os Cultural Studies (HALL, 2003) e as influências desta sobre as reflexões do pós-colonial. No entanto, esta não é uma área que apresenta consensos em torno de categorias ou do que significa a própria definição de pós-colonial, bem como no que diz respeito a outros tantos conceitos e categorias utilizados.

O que se pode dizer é que as referências ao termo e suas problematizações surgiram primeiramente entre os teóricos anglo-saxônicos (nos EUA, Inglaterra, Austrália, bem como nas antigas colônias inglesas) e multiplicaram-se também entre os intelectuais da diáspora do colonialismo francês, neerlandês e mais recentemente do português e espanhol.

Tornou-se polêmico o número significativo de estudos que passam a utilizar-se da designação de “estudos pós-coloniais”. Apesar de alguns autores proclamarem o surgimento de uma “área de estudos” ou de uma “teoria pós-colonial”, na disputa por um determinado espaço acadêmico, outros teóricos se tornam críticos deste tipo de postura, mesmo estando envolvidos com o campo das problemáticas contemporâneas suscitadas pelas experiências de ordem global do que fora o colonialismo.

Na perspectiva de sistematizar o contexto destes embates proponho uma breve digressão sobre o “pós-colonial”, enquanto conceito e enquanto campo de estudos. Aponto as principais categorias e conceitos trabalhados neste campo, os autores envolvidos com a temática em diferentes perspectivas e os principais referenciais teóricos utilizados pelos mesmos.

O termo adjetivo “pós-colonial” ou o substantivo “pós-colonialismo”, geralmente tem sido situado pelos estudiosos do assunto por três diferentes ênfases não necessariamente contraditórias entre si. São elas: as que distinguem o pós-colonial como uma teoria; aquelas que o definem como uma situação global contemporânea; e aquelas que denominam a condição política dos Estados nacionais após a independência ou a experiência colonial.

Para o antropólogo Miguel Vale de Almeida (2000), sobre o “pós-colonial”, devemos levar em consideração que:

“1) o termo deverá ser aplicado ao período posterior ao colonialismo, mas também posterior ao fracasso dos projetos nacionalistas e anti-colonialistas aplicados logo após as independências; 2) o termo deverá aplicar-se aos complexos de relações transnacionais entre ex-colônias e ex-centro colonizadores; 3) tudo o resto, como globalização, settler societies, neocolonialismo, colonialismo interno, devem ser tratados nos seus próprios termos (ALMEIDA, 2000, p. 231).

Mesmo assim, as sociedades não são todas pós-coloniais da mesma forma (HALL, 2003) Sintetizando alguns destes pontos, o “pós-colonial” como conceito só é útil na medida em que possa nos ajudar a pensar, dialogar ou descrever interpretativamente as mudanças nas relações globais que marcam as transições desiguais da era dos impérios para a era pós-independências. Por um lado, este é um conceito universal, na medida em que sociedades colonizadas e colonizadoras foram ambas afetadas pelo processo colonial. Por outro, o termo “pós” não pode ser meramente descritivo disto ou aquilo, do antes ou do agora. Ele deverá reler a colonização como parte de um processo essencialmente transnacional e transcultural global, produzindo uma reescrita descentrada, diaspórica ou global de anteriores grandes narrativas centradas em nações. Neste sentido o pós-colonial não é meramente uma periodização baseada em estágios. (ALMEIDA, 2000)

Este não é apenas um “pós” de superação de etapas, mas é um “pós” do gesto de “abrir espaços”, por ser posterior a algo, mas também por rejeitar os aspectos “de” algo.

Não significa que uniformemente as sociedades coloniais ou tradicionais ultrapassaram o “colonialismo”. Significa que esta é uma condição de posturas intelectuais, estéticas, políticas e econômicas marcadas pela deslegitimação da autoridade, poder e significados produzidos pelos impérios ocidentais. (APPIAH, p. 213) É um “pós” que contesta narrativas anteriores, legitimadoras de dominação e poder, como, por exemplo: de raça, gênero, classe, nação e etnia. Nesta perspectiva, o entendimento do “pós-colonialismo” como substantivo propõe a idéia de uma condição universal do pós-colonial. Condição global que emerge na literatura, na filosofia, na estética e na política fruto da mútua experiência colonial na metrópole e nas colônias.

Em outras palavras “as perspectivas pós-coloniais emergem do testemunho colonial dos países do Terceiro Mundo e dos discursos das ‘minorias’ dentro das divisões geopolíticas de Leste, Oeste, Norte e Sul” (BHABHA, 1998). Para alguns, o “pós-colonial” marca uma condição latente da contemporaneidade e torna-se também um projeto literário, político e teórico. Na afirmação de Miguel Vale de Almeida (2000), o pós-colonialismo acabou por se constituir numa corrente. Uma corrente teórica e crítica que estaria procurando desfazer ou desconstruir o eurocentrismo, com a consciência de que a pós-colonialidade não nasce e não cresce numa distância panóptica em relação à história. Estes estudos estariam propondo um “depois de ter sido trabalhado” pelo colonialismo (ALMEIDA, 2000, p. 228). Noutros termos, seria uma teoria do “discurso pós-colonial” ou a “crítica pós-colonial”.

Para Hall (2003), “uma das contribuições do termo “pós-colonial” tem sido dirigir nossa atenção para o fato de que a colonização nunca foi algo externo à sociedades das metrópoles imperiais” (p.108). O termo não se restringe a descrever uma dada sociedade ou época. “Ele relê a colonização como parte de um processo global essencialmente transnacional e transcultural – e produz uma reescrita descentrada, diaspórica, ou global, das grandes narrativas imperiais do passado, centradas na nação.”(HALL, 2003, p. 109). O pós–colonial não é, portanto, uma forma de periodização de estágios epocais. As lutas e os processos de descolonização seriam apenas um momento distinto que reverte fundamentalmente à configuração política do estado e do poder.

O “pós-colonial” seria um “discurso” epistêmico e cronológico, que não se trata apenas de posterior, mas de ira além do colonial. (HALL, 2003, p. 118) Um discurso que opera sob rasura, no limite de uma episteme em formação, não como um paradigma convencional, (HALL, 2003, p.121) mas como episteme que opera entre uma lógica racional sucessiva e uma desconstrutora. Uma resposta à necessidade de superar a crise de compreensão produzida pela incapacidade das velhas categorias de explicar o mundo (HALL, 2003, p. 124)

Numa perspectiva crítica ao uso do indiscriminado do termo “pós-colonial” e mesmo de uma teoria que se proclame como tal, McClintock (1995) diz que o termo pós-colonialismo é ao mesmo tempo celebratório e ofuscador. Isto significa dizer que enquanto alguns países podem ser pós-coloniais, em relação aos antigos domínios metropolitanos, eles podem não ser pós-coloniais, em relação aos seus novos vizinhos colonizadores, se pensarmos na re-estruturação geopolítica mundial das últimas décadas (McCLINTOCK, 1995, p. 13). Também o “neocolonialismo” universal não seria uma repetição da performance do colonialismo? Na visão de McClintock (1995), esta distinção entre “colonial” e “pós” pode ser prejudicial por deixar de estar atenta à continuidade das relações de poder colonialista no mundo contemporâneo. Mesmo assim, a autora diz que admite trabalhar com muitos dos conceitos daquilo que está sendo posto como teoria pós-colonial. Uma das características, do uso de conceitos, teorias e da noção de pós-colonial, é que ela é perpassada pelas discussões sobre o pós-modernismo e a globalização de mercado, o que implica estarmos também atentos a estes debates.

Para Don ROBOTHAM (1997), “o desmoronamento do comunismo e a passagem ao capitalismo pela Europa Oriental e a Ásia Central, o desaparecimento do movimento de países não alinhados, a crise da África, as dificuldades econômicas, sociais e políticas da União Européia, a ascensão na Ásia, da China e do Japão, as dificuldades dos EUA conservar sua posição única e superpotência, a revolução eletrônica e a mundialização das finanças e das comunicações, trouxeram novos desafios às ciências sociais”. (p. 296). Pensando o “pós-colonialismo” e sua relação com a Antropologia, Robotham (1997) diz que a disciplina entra num período contemporâneo sem precedentes, mas é necessário rever seus próprios conceitos de ocidentalização, modernização e pós-colonialidade. Eu diria que a Antropologia pós-colonial seria aquela que rejeitaria em absoluto um projeto racionalista Iluminista. Para muitos estudiosos, os representantes desta antropologia seriam alguns dos mesmos antropólogos considerados como “pós-modernos”, como: James Clifford, George Marcus, Cushman & Fischer. Por exemplo, a obra considerada como fundadora da antropologia pós-colonial é o livro Writring Culture, de Clifford e Marcus (1986).

Finalmente, inspirador das discussões sobre “pós-colonialismo”, Edward Said (1990) não trabalha com a noção de pós-colonial na sua obra emblemática: “Orientalismo”. Said (1990) trabalha com o conceito abrangente de “imperialismo”, e o define como forças políticas que, muitas vezes, fazem alguns países deterem uma determinada hegemonia cultural e econômica predominante sobre outros. Este imperialismo que representa a legitimidade dos valores ocidentais num plano universal e constrói sua visão hegemônica sobre o Oriente enquanto unidade geográfica e colonial. O mesmo ocorrendo com outras categorias, como: raça, nação, colônia, terceiro mundo, América Latina e África, que se tornaram noções generalistas, estereotipadas, abrangentes e sistemáticas que perduram e são atualizadas a partir de referentes já constituídos do pensamento racionalista ocidental. Said (1990) problematiza a perspectiva imperialista para dizer que “a tarefa mais importante de todas seria o estudo das alternativas contemporâneas para o orientalismo, que investigue como se podem estudar outras culturas e outros povos desde uma perspectiva libertária, ou não-repressiva e não-manipuladora” (SAID, 1990, p. 35). Isto constituiria, talvez, o projeto ou a proposta maior de uma “teoria pós-colonial”.

Bibliografia Geral:

ALVA, J. Jorge Klor. The postcolonization of the (Latin) American, experience: A reconsideration of “Colonialism”, “Postcolonialism”, and “Mestizaje”. In: PRAKASH, Gyan (Ed.). After colonialism: imperial histories and poscolonial displacements. Princeton: Princeton University Press, 1995. p. 241-271.

ALMEIDA, Miguel Vale de. Um mar da cor da terra. Raça, cultura e política da identidade. Oeiras: Ed. Celta, 2000.

APPADURAI, Arjun. Soberania sem territorialidade: notas para uma geografia pós-nacional. Novos Estudos Cebrap. n. 49, novembro 1997. pp 7-32.

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BAUMANN, Zygmut. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

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CARVALHO, Clara e PEREZ, Rosa. Introduction. In: Mirrors or the empire. Etnográfica: Revista Semestral de Antropologia do Centro de Estudos de Antropologia Social (ISCTE). Lisboa: Ed. Celta. Vol. VI – n. 01, maio 2002.

CHATTERJEE, Partha. Colonialismo, modernidade e política. Salvador: EDUFBA, CEAO, 2004.

CLIFFORD, James. A Experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.

CLIFFORD, James; MARCUS, George (Ed). Writing culture: the poetics and politics of ethnography. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, 1986.

CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Reflexões sobre biopoder e pós-colonialismo: relendo Fanon e Foucault. Mana. 8(1), 2002. p. 149-163.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Porto: Paisagem, 1975

FIDDIAN, Robin (ed.). Postcolonial perspectives: on the cultures of Latin America and Lusophone Africa. Liverpool University Press, 2000.

FINK, Bruce. O sujeito lacaniano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

GEERTZ, Clifford. Obras e vidas: o antropólogo como autor. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2002.

GILROY, Paul. O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: UCAM, 2001.

GINSBERG, Elaune K. (org.). Passing and the Fictions of Identity. North Carolina, Duke University Press, 1996.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

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L’ETOILE, Benoîte; NEIBURG, Federico; SIGAUD, Ligia. (org.) Antropologia, impérios e estados nacionais. Rio de Janeiro: Relumé Dumará: FAPERJ, 2002.

LEITE, Ana Mafalda . Literaturas Africanas e formulações pós-coloniais. Lisboa: Colibri, 2003

LO, Jacqueline. Miscegenation’s ‘dusky human consequences’. Postcolonial Studies. v. 5, n. 3, p. 297-307, 2002.

MARCON, Frank Nilton. Leituras transatlânticas: diálogos sobre identidade e o romance de Pepetela. Tese de Doutorado em Antropologia Social, UFSC, 2005.

MARCUS, George. Identidades passadas, presentes e emergentes: requisitos para etnografias sobre a modernidade no final do século XX ao nível mundial. Revista de Antropologia. São Paulo, USP, n. 34, p. 197-221, 1991.

McCLINTOCK, Anne; MUFTI, Amir; and SHOAT, Ella. Dangers Liaisons: gender, nation and postcolonial perspectives. University of Minesota Press: London, Minessota, 1997.

McCLINTOCK, Anne. Imperial leather: race, gender and sexuality in the colonial contest. New York and London: Routledge, 1995.

MEDEIROS, Paulo. Post-colonial Identities. In: BUESCU, Helena Carvalhão e SANCHES, Manuela Ribeiro (Coord.). ACT 3. Narrativas da modernidade: a construção do outro. Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Unversidade de Letras de Lisboa e Edições Colibri: Lisboa, 2001. (Colecção Alteridades, cruzamentos, transferências).

MIGNOLO, Walter D. Histórias Locais / Projetos Globais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

PRAKASH, Gyan (Ed.). After colonialism: imperial histories and postcolonial displaciments. Princeton University Press, 1995.

PRATT, Mary Louise. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: EDUSC, 1999.

PRATT, Mary Louise. Pós-colonialidade: projeto incompleto ou irrelevante? In: VÉSCIO, Luiz Eugênio e SANTOS, Pedro Brum (Org.).Literatura & História: perspectivas e convergências. Bauru: Edusc, 1999. p. 17-54.

ROBOTHAM, Don. Postcolonialités: le défi des nouvelles modernités. In: Revue Internationalle des Sciences Sociales. n. 153, 1997. pp 393-408.

SAID, Edward. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1990.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Entre Prospero e Caliban: Colonialismo, pós-colonialismo e inter-identidade. In: RAMALHO, Ma. Irene e RIBEIRO, Antônio Sousa. Entre ser e estar: raízes, percursos e discursos da identidade. Porto: Afrontamento, 2001. (Vol 08 de A sociedade portuguesa perante os desafios da globalização).

SMITH, Anthony D. A identidade nacional. Lisboa: Gradiva, 1997.

STOLER, Ann Laura. Race and the education of desire: foucault’s history of sexuality and the colonial order of things. London: Duke University Press, 1995.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Do colonial ao pós-colonial, do arquivo ao campo: “luso”, “franco” e outras fonias. Seminário temático ‘A Antropologia e seus métodos: o arquivo, o campo, os problemas’. XXV Encontro anual da ANPOCS. Caxambu, 16 a 20 outubro de 2001.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Ecos do Atlântico Sul: representações sobre o terceiro império português. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Fapesp, 2002.

YOUNG, Robert J. C. Colonial desire: hybridity in theory, culture and race. London and New York: Routledge, 1995.

domingo, 18 de julho de 2021

LIVRO



Juventudes e Desigualdades Sociais em Tempos de Crise e Radicalização Política


Organizado por Frank Marcon 

e Danielle Parfentieff de Noronha



Colaboradores e Capítulos

Que política e política para quem? Juventude e engajamento político em Moçambique

Alcinda Honwana

 

Por-venires en tiempos distópicos (o acerca de juventudes, desigualdades, pandemia,

utopías, Estados, la vida, la muerte, y… ¿algo más?)

Mariana Chaves

 

Situação da juventude e desafios pós-pandemia

Carles Feixa

 

Juventude, raça e gênero: um olhar socioantropológico acerca do sistema socioeducativo em Aracaju/SE

Élida Damasceno Braga e Lucas Vieira Santos Silva

 

Representações sobre gênero e juventudes em Meu nome é Bagdá

Danielle Parfentieff de Noronha

 

Graffiti e hip-hop: resistências urbanas e as agências estetizadas das mulheres na cidade

Erna Barros e Raissa Freitas

 

Entre o protagonismo e a invisibilidade: dinâmicas reivindicatórias das políticas públicas de juventudes em Sergipe

João Víctor Pinto Santana, Adrielle da Silva de Oliveira, Letícia Oliveira Feijão Galvão e Frank Marcon

 

O coletivo Fora do Eixo, a comunicação e a política em tempos de ativismo em rede

Wener da Silva Brasil

 

Cultura escolar, sociabilidades juvenis e os desafios na implantação da Lei 10.639/03

Saionara Serafim Andrade dos Passos

 

Experiências juvenis e políticas de drogas

Anatil Maux

 

Geração como problema e achado empírico nos estudos sobre juventudes

Frank Marcon e Mateus Antonio de Almeida Neto


domingo, 2 de maio de 2021

IV Semana de Antropologia da UFS exibe Mostra Elas por Trás das Câmeras - Sergipe

 



A IV Semana de Antropologia da UFS contará com uma edição especial da Mostra Elas por Trás das Câmeras com foco em realizadoras sergipanas. Entre os dias 4 e 6 de maio, no canal do YouTube do evento, estarão disponíveis 10 curtas dirigidos ou codirigidos por mulheres que passaram pela Universidade Federal de Sergipe. A curadoria foi realizada pelas professoras Danielle de Noronha e Maíra Ezequiel e tem o objetivo de visibilizar e fomentar o cinema produzido e protagonizado por mulheres em Sergipe. Para assistir, acesse: https://bit.ly/elasportrasdascameras-sergipe

Conheça a programação:

A Água Não Flui Para Trás (Dir: Dominique Mangueira)

Sinopse: Pequenas encenações, performances, imagens de arquivo, fragmentos narrativos, reflexivos e poéticos acerca da infância, da maternidade e do isolamento social, abordados a partir do olhar subjetivo da diretora.

A Viagem de Bruna Bola (Dir. Milena Araújo e Vivian Oliveira)

Sinopse: Bruna é uma bolinha vermelha astronauta prestes a embarcar em sua primeira viagem espacial. Cumprimentando o presidente com uma leve inclinação para frente, que é como as bolas se cumprimentam no planeta Bolar, Bruna se despede do seu mundo, enquanto caminha mais perto de seu sonho intergalático, viajando através das estrelas e se aventurando em sua imaginação. A viagem de Bruna Bola é resultado do trabalho final da matéria de Animação I, do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe, finalizado em março de 2020.

Abjetas 288 (Dir. Julia da Costa e Renata Mourão)

Sinopse: Em um futuro distópico, Joana e Valenza fazem uma jornada à deriva por uma cidade nordestina. Através da música eletrônica e trilha ruidosa, as personagens nas andanças pelas ruas, performam o que sentem enquanto vivem nessa sociedade tentando entendê-la. Abjetas 288 trata sobre territorialidades, identidades e meritocracia, tudo com um tom irônico e se utilizando de elementos alegóricos que dialogam com a história popular de Aracaju.

Babá Eletrônica (Dir. Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo)

Sinopse: O curta mostra como as crianças estão à mercê da vigilância social para seguirem padrões que foram historicamente construídos na sociedade.

Em Concha (Dir: Clecia Borges)

Sinopse: Sob o olhar voltado para o isolamento social, transcreve-se através de imagens e uma narrativa poética as “frestas” que aparecem como ponto de fuga e de criação nesse momento.

Mariana (Dir. Milena Araújo)

Sinopse: Após Rita, mãe de Mariana, fugir de casa sem deixar explicações, a moça, de apenas 16 anos, se torna a única mulher a trabalhar na casa e no bar de seu pai, espaço sufocante e masculino. Assume também a função de escrivã de cartas e encomendas para as pessoas da comunidade onde mora, tarefa antes prestada a bom gosto por sua mãe. É através deste espaço entre as cartas e o bar que Mariana entra em contato com as diferentes razões da fuga de Rita, e começa a traçar também o seu próprio destino.

Não é Sobre Beleza (Dir. Amanda Nascimento, Céu Lima, Fannie Guimarães, Michael Roan e Matheus Souza)

Sinopse: É um projeto documental que propõe uma análise sobre o que é belo e explana a disparidade entre o caos do centro urbano e os profissionais de estética neste meio.

Ocupe a cidade (Dir. Thais Ramos e Kaippe Reis)

Sinopse: Sinopse: O documentário aborda as ocupações culturais em Aracaju tendo como base o evento Ensaio Aberto, que aconteceu entre 2015 e 2016.

Pattaki (Dir. Everlane Moraes)

Sinopse: Na noite densa, quando a lua sobe a maré, os seres presos no cotidiano da escassez de água, são hipnotizados pelos poderes de Yemaya, a deusa do mar.

Proibido pisar na grama (Dir. Letícia Lima de Almeida)

Sinopse: “Proibido pisar na grama” é um curta documentário que aborda as questões e posições que o racismo estrutural e institucional impõe à população negra brasileira, como o condicionamento ao trabalho braçal, a criminalidade e a falta de acesso a educação, é também uma mensagem de resistência.

Para mais informações sobre a Semana de Antropologia da UFS, acesse: https://semantufs.wordpress.com/

terça-feira, 27 de abril de 2021

Escola, Pandemia e Relações Étnico-Raciais

 

Fonte da imagem: https://medium.com/@gregoriogrisa/reorganiza


Adrielle da Silva Oliveira – Graduanda em Ciências Sociais/UFS

Bruno Edwin Santana Alves de Melo – Graduado em Ciências Sociais/UFS

Débora Rejane Viana Sobral – Mestranda em Antropologia/UFS

Gil Marcos do Santos Carvalho – Mestrando em Antropologia/UFS

Laise Maria da Silva -  Mestra em Sociologia/UFS

 

A autoestima do aluno implica diretamente no seu desempenho escolar, e um dos principais aliados da construção da autoestima é a representatividade que, mesmo nos dias de hoje, é exceção na grade escolar ainda eurocêntrica. Os negros e negras até hoje têm a escravidão como sua principal característica a ser ressaltada na academia, apesar de toda sua diversidade étnica, história e de resistência.

No ano de 1996 com intuito de reverter essa situação, a Constituição Federal institui a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), nº 9.394/ 96, que validou juridicamente a importância das ações transdisciplinares, afim de resgatar a cultura popular e à valorização da pluralidade cultural. Contudo, não havia especificação do que seria essa pluralidade. Sendo, assim, a lacuna no ensino da cultura afro-brasileira continuava apesar da lei instituída.

Somente sete anos depois, em 9 de janeiro em 2003, entra em vigor a lei Nº 10.639, que tornou obrigatório que as instituições escolares no Brasil adequassem a grade curricular fazendo a complementação aos estudos sobre África. Sendo esse o primeiro passo para construção de uma memória positiva e que gradativamente possa ressignificar a imagem que a academia transmite sobre a participação do negro na história.

Após 18 anos da implantação da lei 10.639, o ensino de temas afro-brasileiros ainda sofrem uma grande desvalorização dentro das instituições de ensino, que apesar de ser obrigatório na grade curricular, ainda é encarado como algo opcional. De acordo com Moraes (2013) uma pesquisa realizada na prefeitura de São Paulo, no ano de 2013, mostra que “mais da metade das escolas trabalham o tema. Mas na maior parte dos casos, é geralmente iniciativa isolada de um professor que gosta do tema. E há o problema da descontinuidade. Se o professor deixa a escola, muitas vezes o assunto deixa de ser abordado. ” (MORAES, 2013).

Logo, apesar da criação da lei, percebeu-se que em São Paulo as discussões sobre as relações étnico raciais nas escolas muitas vezes não passam de ações pontuais, que surgiram como iniciativa de alguns professores e não como algo obrigatório em sua grade escolar.

 Tal realidade não difere muito do resto do Brasil, e reflete mais uma vez no quanto ainda estamos atrasados com relação aos debates sobre as relações étnico raciais no ambiente escolar. Tendo isto em vista, acredita-se que tais discussões tendem a se tornar ainda menos presentes durante a pandemia.

Em tempo de conter a propagação do coronavírus, depois de um ano pandêmico, os desafios de manter a educação viva e se adaptando a um mundo virtualizado e distanciado, esbarra no separatismo social.

Segundo Palhares (2020) uma pesquisa feita pelo IBGE mostra que entre os jovens de 14 a 29 anos que abandonaram a escola no Brasil, sem ter completado a educação básica, 71,7% são negros. De acordo com a pesquisa, o motivo da evasão dado pela maioria é a necessidade de trabalhar. Levando em consideração que a pesquisa realizada foi feita antes da pandemia, a tendência é que esse número cresça devido a necessidade de aulas remotas por conta do coronavírus e a falta de condições de muitos alunos acompanharem essa nova forma de ensino é ainda maior. Acarretando em um impacto significativo em estudantes negros e negras e afetando ainda mais o debate sobre relações étnico raciais nas escolas.

Pode-se observar que a escola herda da sociedade o racismo estrutural, e a partir do momento que a mesma trata as discussões étnico raciais como algo optativo, acaba contribuindo para os atrasos nessas discussões. Mesmo com a obrigatoriedade do ensino afro-brasileiro nas escolas, durante a pandemia ficou ainda pior sua implementação, devido a desistência de negros e negras e por muitas vezes a temática ser deixada de lado em detrimento aos demais assuntos.

A aplicação dos conteúdos referentes a história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas sempre foi feita de forma superficial e pontual, sem a transversalidade necessária para o enraizamento desses temas no currículo escolar e para uma compreensão efetiva das desigualdades e opressões raciais que marcam a história do país e o cotidiano dos alunos e alunas negros e negras.

Com a virtualização do ensino e a consequente redução dos conteúdos escolares, comprimidos para caber nas vídeo aulas, principalmente na rede pública, que passou por uma ainda maior uniformização dos materiais de ensino, a “temática afro brasileira” ficou ainda mais invisibilizada, insuficiente talvez seja a palavra certa, diante de um contexto de aumento exorbitante da vulnerabilidade das populações negras, e em que a reflexão sobre o racismo e as desigualdades geradas por ele, poderiam ser, mais do que nunca, um instrumento para compreender e lidar com a realidade.

Cresce a pobreza e também as correntes que mantém as populações negras nos grupos subalternizados. Longe da escola, devido aos altíssimos índices de evasão, e de sua história, o caminho para a construção da equidade social e racial vai ficando cada vez mais longo. Por isso, se torna mais urgente a aplicação efetiva da lei 10.639, e para isso faz-se necessário produções que se adaptem a essa nova realidade das escolas.

Diante desse cenário caótico é possível ver algumas alternativas para lutar contra mais esse entrave nas discussões sobre as relações étnico raciais no ambiente escolar. Uma alternativa que pode ser apontada é a iniciativa de projetos, como o do Grupo de Estudos e Pesquisas em Relações Étnico-Raciais, ErêYá, da Universidade Federal do Paraná, que produz e divulga materiais sobre a cultura afro em tempos de pandemia, e pode servir como referência para que professores trabalhem a temática em aulas remotas.

É claro que para obtermos um avanço e não regredimos ainda mais no debate étnico racial no ambiente escolar, é preciso encarar a temática como algo obrigatório e não optativo, fazendo com que mesmo em tempos de pandemia a discussão não seja ainda mais esquecida.

Referências

Moraes, Maurício. Ensino da cultura negra ainda sofre resistência nas escolas. BBC News/ Brasil, 2013. Disponível em:

<https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/11/131118_educacao_negro_mm>

Palhares, Isabela. Negros são 71,7% dos jovens que abandonam a escola no Brasil. Folha de São Paulo, 2020. Disponível em:

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/06/negros-sao-717-dos-jovens-que-abandonam-a-escola-no-brasil.shtml

Grupo ErêYá - https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/grupo-de-estudos-de-relacoes-etnico-raciais-produz-conteudo-digital-como-alternativa-a-pandemia/

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), nº 9.394/ 96 - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

Lei Nº 10.639 - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm



JUVENTUDES E PANDEMIA DO COVID-19

 REFLEXÕES DO GRUPO DE ESTUDOS DE JUVENTUDES NO SEMESTRE 2020.2


 Anatil Maux de Souza

João Víctor Pinto Santana

Mateus Antonio de Almeida Neto 


Em meio a uma pandemia viral de contágio por vias de transmissão aérea, o Brasil passa, no ano de 2021, pelo décimo terceiro mês de calamidade sanitária em toda a sua extensão territorial. A generalização não é universalizadora aqui. É o próprio caos que se dissemina em variantes num embate cuja resistência consiste em apontar para a vacina como solução. A experiência no Sudeste brasileiro é diferente da experiência no Nordeste, que É diferente nos contextos de classes médias e nos contextos baixa-renda e zonas periféricas.

Neste momento atual – mesmo com todos os decretos dos governos estaduais/municipais e o empenho para conter a pandemia, tanto através de auxílios, lockdown, hospitais de campanha e da corrida europeia e asiática para a confecção de uma vacina eficaz – o Brasil apresenta o maior número de casos e mortes durante toda a pandemia.

Não restam dúvidas, portanto, que é preciso olhar para o que se tem como ideal utópico da quarentena e o que efetivamente é possível realizar dela em termos práticos e distópicos. A pandemia é um acometimento global, mas não é um fenômeno universal.

Os dados mundiais, relacionados ao ranking de vítimas da covid-19, demonstram que o Brasil está atrás apenas dos Estados Unidos da América - que em janeiro de 2021 elegeu o democrata Joe Biden como novo presidente (o que pode ser traduzido como uma grande insatisfação do povo norte-americano com a política do republicano Donald Trump). O presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, era totalmente afinado com a política de Trump, um tipo de neoliberalismo com características nacionalista e conservadora. Esta realidade pode demonstrar que as esferas políticas do Brasil não se afinaram de forma objetiva para conter o avanço da Covid-19.

Paralelamente, no Brasil, fatos jurídicos e sociais (decisões judiciais; escândalos de corrupção; requerimentos de impeachment, protestos, panelaços, negacionismos etc...) reacendem as chamas da polarização político-partidária (delimitada, basicamente, entre esquerda/direita), que em nada contribuem para um direcionamento efetivo da crise humanitária e sanitária que envolve a realidade brasileira, que já possui variantes específicas do covid-19. 

Enquanto a pandemia do covid-19 exacerba e revela cenários problemáticos de uma trajetória nacional nos níveis estruturais verticais (política nacional ou política “global”) e horizontais (grupos de risco e populações vulneráveis), o isolamento social se torna um privilégio para populações com empregos estáveis e para quem tenha uma seguridade e que garanta o regime de emprego sem afetar a subsistência.

A juventude assume um protagonismo social e moral em toda essa discussão, visto que, por um lado, se apresenta como o principal grupo social etário responsável por amenizar/evitar um colapso financeiro/econômico no país em um futuro próximo, entretanto, por outro lado, os jovens assumem uma excessiva responsabilização pela transmissão do coronavírus, pelo fato de não terem condições de parar as suas atividades laborais (é o caso, por exemplo, dos trabalhadorxs em serviço de delivery) e/ou, eventualmente, estarem buscando manter seus espaços de sociabilidade como forma de resistência.

Ao que parece, a discussão da juventude como “problema” volta à tona nas ciências sociais. Desta vez, com uma roupagem diferente, pois a juventude passa a ser compreendida, ao mesmo tempo, como “salvadora” e/ou “vilã” da pandemia no Brasil.

Assim, nota-se que os jovens têm se articulado pelas redes sociais, divulgando festas e encontros movidos à música, dança, bebidas e drogas em geral. Estes momentos fortuitos, para esta população, são formas de dinamizar o lazer maquinofaturado, trabalho e renda diante dos impactos causados pela Covid-19, ao mesmo tempo em que negligenciam os impactos causados pela pandemia.

Dentro desse contexto de instabilidade e insegurança sanitária-político-social, os jovens, diante da denominada “segunda onda” da Covid-19, têm sido descritos pelas mídias e os profissionais da área da saúde como um dos principais vetores de infecção e da propagação do vírus neste momento.

Entendemos por “juventudes” um recorte geracional complexo, que vai desde aqueles indivíduos nascidos pós-queda do Muro de Berlim (1989), que vivenciaram a emergência das transformações tecnológicas do modelo analógico para o digital, como os que são considerados nativos da revolução digital, imersos numa cultura de trocas, trabalho e socializações diante das redes sociais digitais. As juventudes do tempo presente podem ser consideradas herdeiras de uma cultura de consumo e estética correlacionada a uma dinâmica do capitalismo de “rede de fluxos”, que tem demonstrado uma necessidade crescente por reformas trabalhistas, que paulatinamente tem precarizado as formas de autonomia desta população, principalmente das classes baixas, que associam o tempo da juventude entre a escolarização, o trabalho, o lazer e a constituição de família.

No contexto atual, o uso de aparelhagem tecnológica, a exemplo de computadores, notebooks, tabletes e celulares modelos smartphones conectados a internet, tem contribuído e fissurado os bloqueios da indústria cultura e do espetáculo, dinamizando toda uma cultura e estética que, provavelmente, até o final do século passado, eram restritas a determinado territórios, a exemplo de uma cultura que emergia e circulava apenas em contextos vistos como periféricos, que passou a se movimentar por outros lugares, a exemplo de espaços considerados mais elitizados. São as novas “agências estetizadas”, um fenômeno que tem impactado indústria burguesa que se apropria da estética como meio de produção e formam estilos de vida e nichos de mercado em escala transnacional. Portanto, é crucial refletir sobre as “juventudes” e a noção de “agências estetizadas” no cenário de pandemia no Brasil.

Nesta toada, as universidades brasileiras assumem o papel social de resistência e reforçam a função das infraestruturas que funcionam como produtoras de ciência e de conhecimento, e atuam no âmbito da formação de recursos humanos. Afinal, a quem serve o aparato das técnicas nos avanços tecnológicos e científicos? De fato, atualmente não estão no Ministério da Saúde, nem muito menos inseridos em reflexões e embasamentos de políticas públicas. Diante dessas condições estruturais, existe uma experiência distinta dos indivíduos nas suas experiências de vida em relação ao pertencimento desse projeto de saúde coletiva. Universitários docentes e discentes com o isolamento social ficaram impossibilitados (fisicamente) de ocuparem as salas de aula de fato, assim como também muitas pesquisas se viram estagnadas diante desses agravantes. O fazer científico assumiu outras formas e passa a existir (e resistir!) na modalidade remota.

Exatamente dentro desse contexto que o “Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas” (GERTS), através do Grupo de Trabalho intitulado: “Juventudes”, sob a supervisão de Prof. Dr. Frank Marcon, no ano de 2020, entre os meses de Agosto e Dezembro, realizou atividades mensais, por meio de encontros remotos através do aplicativo googlemeet, com o intuito de manter em circulação o conhecimento acerca da temática “juventudes” como uma faixa-etária geracional interessante para pensar processos históricos no país, especialmente no atual contexto de pandemia do covid-19.

As sessões contaram com a presença de pesquisadores e pesquisadoras de diversas universidades brasileiras (a exemplo da: Unb, UFAL, UFRN e UFS), em diferentes níveis (doutores; doutorandxs; mestres e mestrandxs; graduadxs e graduandxs) e foram divididas entre debates e compartilhamentos teóricos sobre os textos e troca de experiências dos pesquisadorxs durante o contexto da pandemia. Os encontros do grupo de estudos foram divididos em quatro sessões temáticas, que trataram de: (a) práticas e representações juvenis em suas nuances desde corporeidades e estetizações à formas de comunicar; (b) geração propriamente dita na literatura clássica da sociologia da juventude; (c) a temática da precariedade na construção de ser e estar nas relações e, por fim, (d) a discussão sobre juventudes e políticas públicas com o enfoque na modulação teórica das relações das juventudes com o sistema democrático e os modelos convencionais de participação política que inscreve alguns fatores que são melhores entendidos quando olhamos para as gerações de juventudes em termos comparativos em meio a seu meio sócio político vigente a época.

Ao debatermos sobre o tema “Práticas e representações juvenis”, analisamos as agências estetizadas que se verificam nas novas formas de protagonismo juvenil, como é o caso dos ativismos e protestos sociais que partem de um processo de socialização no universo digital. Portanto, entendemos como as formas de acionamento, estetização, mobilização, sentidos de resistência e reivindicação se tornam essenciais nesse contexto. A grande questão que se levanta dessa discussão parece ser a seguinte: e no contexto de pandemia, onde o isolamento social é a melhor medida de prevenção ao contágio, como é possível analisar este fenômeno? Formas de protagonismo virtual também foram discutidas e problematizadas.

Considerando a necessidade de compreender o conceito de geração nas teorias sobre juventudes, bem como debater sobre o problema da juventude na sociedade moderna, a sessão 2, sob o  título: “Geração nas teorias sobre juventudes”, partiu da premissa de que é necessário um aprofundamento acerca da teorização sobre os estudos geracionais na sociologia das juventudes.

Na sessão 3, tendo o objetivo de refletir sobre as diversas formas de precarização, nas esferas: simbólica, econômica e social, que envolvem a juventude contemporânea foi fundamental dimensionar as facetas do fenômeno social denominado de: “juvenicídio moral”, bem como suas causas e efeitos na realidade prática e no estilo de vida dos jovens. Nesse sentido, percebe-se que a juventude vem se tornando a categoria social que arcará com o ônus (não somente econômico, mas também social, político e ideológico) oriundo da pandemia do coronavírus e das omissões dos representantes institucionais para combate deste vírus.

E, por fim, tendo como premissa o entendimento de que a relação entre juventude e políticas públicas é um pilar fundamental na compreensão sociológica das juventudes, a sessão 4 visou debater sobre as concepções sociológicas de juventude com a perspectiva de problematizar o alcance e efetividade de políticas de/para/com a(s) juventude(s), assim como a questionar a visão “romantizada” e, ao mesmo tempo, pejorativa, da relação entre juventude e política. Nesse sentido, temas como: a (in)efetividade da Lei Aldir Blanc; e operacionalização do auxílio emergencial foram trazidos à baila nas discussões.

*Este breve texto faz parte de um conjunto de reflexões do Grupo de Estudos de Juventudes durante o semestre letivo de 2020.2. Desde já, agradecemos o espaço de interlocução que foi criado entre os pesquisadores participantes e, aproveitando a oportunidade, registramos a nossa expectativa de que este debate tenha continuidade nos próximos semestres, motivo pelo qual, em breve, estaremos divulgando um novo cronograma de atividades para o semestre de 2021.1. Contamos com a sua participação e colaboração!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 AUGUSTO, Nuno Miguel. A juventude e a(s) política(s): Desinstitucionalização e individualização. Revista Crítica de Ciências Sociais, 81, 2012, Disponível em: <http://journals.openedition.org/rccs/658>.

 CLARKE, John. Estilo. In: HALL, Stuart; Jefferson , Tony (Eds.). Rituales de resistencia: subcultruas juveniles en la Gran Bretaña de postguerra. Primeira edición de Traficantes de Sueños. Traducción: A. Nicolás Miranda; Rodrigo O. Ottonello; Fernando Palazzolo. Madrid: Gráfica Lizara, 2014. pp. 271-291. 

 

FEIXA, Carles; LECCARDI, Carmem. O conceito de geração nas teorias sobre juventude. In: Revista Sociedade e Estadovolume 25, número 2 Maio / Agosto, 2010.  


GROPPO, L. A. Juventudes e políticas públicas: comentários sobre as concepções sociológicas de juventude. Desidades: Revista eletrônica de divulgação científica da infância e juventude, Rio de Janeiro, N. 14. ano 5. Mar. 2017. Disponivel em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/desidades/article/view/9574>. Acesso em: 15 Jun 2018.


MANNHEIM, Karl. O problema da juventude na sociedade moderna. In: Org. BRITO de, Sulamita. Sociologia da juventude, 1: da Europa de Marx à América Latina de hoje. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.  

 

MARCON, F. Agências Estetizadas, Geração Digital, Ativismos e Protestos no Brasil. In: PONTO URBE, v. 23, p. 1-19, 2018. 

 

MARCON, F. Juventudes, precariedades e estetização: mobilidades, formas de trabalho e estilos de vida. In: MARCON, F.; NORONHA, D. P. D. Juventudes & Movimentos. Aracaju: Criação, 2018. p. 335-353

 

STRECKER, T.; BALLESTÉ, E.; FEIXA, C. El juvenicídio moral en España: antecedentes del concepto causas y efectos. In: CABASÉS, M. À.; PARDELL, A.; FEIXA, C. Jóvenes, trabajo y futuro. Valencia: Tirant Lo Blanch, 2018. p. 430-460.

sábado, 17 de abril de 2021

Gênero e trabalho no contexto do isolamento: relatos sobre rodas de conversas

 



Ana Paula Oliveira Barros (PPGCOM/UFF)
Danielle Parfentieff de Noronha (DCOS/UFS)
Erna Barros (PPGS/UFS)
Letícia Oliveira Feijão Galvão (PPGS/UFS)
Lídia de Oliveira Matos (SEC/BA)
Maria Teresa Ruas Coelho (PPGS/UFS)


Durante cinco terças-feiras, de 11 de agosto a 8 de setembro de 2020, o GT Estudos de Gênero, vinculado ao Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas (GERTs), da Universidade Federal de Sergipe (UFS), realizou o evento “Rodas de Conversa: Gênero e trabalho no contexto do isolamento - Problemáticas e Alternativas”, que contou com os temas Trabalho Docente, Maternidade, Raça e Comunidades Tradicionais, Trabalhadoras Domésticas e Mulheres Trans e diversas convidadas.

Em junho de 2020 ainda estávamos, como a grande maioria da população, tentando entender o contexto pandêmico, que inclui, entre outras coisas, o isolamento, o medo, a morte, as dúvidas e o governo Bolsonaro e sua política de morte. Em 20 de junho desse ano, quando o Brasil chegava a 50 mil mortos, o presidente fazia “apelo por reabertura” e falava “em 'exagero' no enfrentamento da pandemia”[1] (um pouco menos de um ano depois, em abril de 2021, o apelo pela reabertura e o exagero no enfrentamento da gripezinha levaram o Brasil a ser o líder de mortes diárias pela Covid-19)[2]. Atualmente estamos quase atingindo 370 mil mortes pelo coronavírus.

Nossas reuniões, naquele momento, transcenderam os objetivos de um grupo de trabalho e passaram a ser encontros também de intensa troca de afetos, quando discutíamos nossas vivências na pandemia, principalmente a partir das experiências que nos perpassavam como mulheres. Um dos principais temas que estava presente em nossas falas era a forma como o trabalho havia se transformado. Como pesquisadoras, estávamos vivenciando ao mesmo tempo em que tentávamos entender as especificidades dessa intersecção entre gênero e trabalho (que vinha acompanhada de outras intersecções como classe, raça, geração, etc.).

Além das nossas experiências particulares, começamos a pensar em outras realidades e como as distintas relações de poder pautadas nas diferenças entre os gêneros estavam ganhando novas dinâmicas durante a pandemia. Com isso, nasceu o desejo de ampliar a experiência de nossas reuniões para outras mulheres e de discutir essas distintas realidades através de um evento online que pudesse ser mais do que um encontro acadêmico, mas um momento de trocas e diálogos diversos. Neste texto, escrito em várias mãos, nos propomos a fazer uma etnografia das rodas de conversa, na qual buscaremos inserir nossos relatos sobre os encontros tanto como pesquisadoras e organizadoras quanto como mulheres participantes. 

 

Da produção à realização das rodas de conversa

De modo coletivo, iniciamos a organização do evento e discutimos sobre a estrutura, os temas principais - que dialogavam com as nossas vivências, preocupações e pesquisas -, as mulheres que seriam convidadas, e as funções que cada uma iria assumir para o seu desenvolvimento. Decidimos que seriam cinco temas, mas que as rodas aconteceriam apenas uma vez por semana, por entender que outra periodicidade poderia ser cansativa devido ao grande número de lives que estavam acontecendo naquele momento. Pelo mesmo motivo, limitamos o tempo de duração do evento em duas horas.

Optamos por iniciar as rodas em agosto para termos tempo de divulgação e organização. A divulgação ocorreu principalmente pelo WhatsApp, mas também por e-mail e outras redes sociais como o Instagram [3]. As inscrições foram realizadas pelo Google Forms e o link do evento era enviado no dia às pessoas inscritas devido ao medo que estávamos dos novos ataques virtuais[4] a eventos, mais uma das “novidades” que a pandemia trouxe para as nossas realidades. Além disso, fizemos algumas parcerias: com o Observatório da Democracia da UFS e com o Grupo de Estudos Decoloniais da Universidade Tiradentes (Unit).

Uma questão muito importante para nós era que o evento fosse aberto para que todas as pessoas participantes pudessem falar e, por esse motivo, optamos por uma roda de conversas, apesar de ainda não termos certeza como poderia funcionar esse formato de modo virtual. O evento foi realizado no Zoom e, com o intuito de transformar cada roda em um podcast[5], optamos em gravar apenas as falas das convidadas - entendidas como as pessoas responsáveis por iniciar a conversa - para que todas as presentes pudessem se sentir à vontade para falar a abrir as suas câmeras.

A arte de divulgação das Rodas de Conversa foi realizada por nossa integrante Erna Barros. Ela foi construída a partir de um conceito que tinha a proposta de apresentar em imagens aquilo que pretendíamos vivenciar de forma coletiva: discutir gênero e construir elos em meio ao distanciamento social que era rotina em nosso dia a dia. Buscamos chamar atenção para esses elos através de uma imagem vinda das ruas: um graffiti fotografado na cidade de Aracaju (SE).

 A imagem fora fotografada por Erna meses antes, quando as restrições sanitárias, o “fique em casa” e as demais implicações advindas da pandemia ainda eram impensáveis. O graffiti foi transformado em uma imagem vetorizada que fez parte do cartaz de divulgação das rodas de conversa e continha a imagem desconstruída da pintora mexicana Frida Kahlo, símbolo de força e superação, e um arco-íris unindo partes de sua cabeça (ou mesmo brotando ou se expandindo a partir dela).

 

Arte de divulgação das Rodas de Conversas Gênero e Trabalho

 

As diversas cores foram elementos importantes da nossa proposta imagética pois buscavam ativar no público o interesse pelo tema, a partir do reconhecimento de uma personagem já conhecida por sua história de resistência. Diante do estado de inquietação em que nós e toda a sociedade se encontravam durante os primeiros meses de pandemia, a arte de divulgação propunha um apelo à esfera do que é lúdico e abstrato, pois buscávamos também um espaço no qual o gênero pudesse ser o fio condutor de trocas e de acolhimento.

Era a leveza em meio ao caos, unindo em uma roda de conversa feita por e para mulheres, histórias, memórias, experiências e desabafos a partir de várias perspectivas. “Ampliar o laço de união entre as mulheres” foi uma das formas de apresentar o evento na redação ao cartaz, buscando resgatar o sentimento de sororidade, levando em consideração as dinâmicas realidades vivenciadas pelas mulheres, tão necessário naqueles momentos iniciais do isolamento.

A imagem de Frida, trazida das ruas ao ambiente virtual, apresentava-se como um rompimento, tal qual era o sentimento da quarentena naquele momento. Tínhamos, todas nós mulheres, sofrido um rompimento abrupto do fluxo de nossas relações, no trabalho, no ambiente familiar, no ambiente doméstico de forma bastante intensa. E precisávamos falar sobre isso. Nessa fala coletiva, reconstruíamo-nos e resistíamos a partir da união de diferentes mulheres, que, ao abrir espaço para diferentes realidades, mesmo separadas, continuavam juntas.


Diálogos em 'rodas' virtuais

A roda de conversa de abertura teve como tema “Trabalho docente”, debate crucial para o momento de pandemia já que todos os lugares que podiam aglomerar pessoas foram fechados. No Brasil, as escolas, universidades e outros espaços educacionais foram fechados durante o mês de março de 2020, assim, se tornou pauta constante dos noticiários e espaços de debate os impactos do fechamento das escolas, os prejuízos ao processo educacional em curso e as possibilidades de ensino em um contexto de emergência sanitária.

Essa roda, que ocorreu no dia 11 de agosto de 2020, foi mediada pela professora de sociologia Lídia Matos, docente no ensino médio em uma escola pública no interior bahiano, e foram convidadas professoras dos vários níveis de ensino com o objetivo de discutir como o contexto da pandemia estava afetando a prática docente, a subjetividade, e quais eram os principais conflitos e dilemas enfrentados pelas mulheres professoras. Para iniciar a conversa contamos com as professoras: Fernanda Xavier Maia, docente da rede pública no estado de Minas Gerais, Mayara Silva Nascimento, docente no Centro universitário UNIAGES/BA e a Mara Raissa Santos Silva e Freitas, professora na educação básica na rede privada no estado de Sergipe.

A mediadora Lídia Matos iniciou a sua fala trazendo dados que mostravam a desigualdade de gênero no contexto da educação brasileira, como a diminuição da presença de mulheres ocupando o cargo de professoras à medida que se eleva o modalidade de ensino[6] e os impactos da Covid-19 na educação mundial e brasileira[7]. As questões que mais se destacaram nas falas das convidadas foram: a oferta de um ensino remoto mediado por tecnologia, que tem como um dos maiores empecilhos a falta de acesso a dispositivos e à internet por parte das e dos estudantes e professoras e professores; a falta de formação em educação e tecnologia; e a visível inoperância do Ministério da Educação e da esfera Federal brasileira, (des)governada pelo presidente Jair Bolsonaro, em apresentar um plano de fato eficiente que possibilitasse um processo educacional possível e que se estendesse por todo território nacional.

 As convidadas apontaram também as suas dificuldades e dilemas enfrentados na sua prática docente, destacando as suas realidades específicas. Foram enfatizadas as diferentes atitudes tomadas nas redes particular e pública de ensino e como variam os planos de retomada das atividades educacionais, já que esses ficaram a cargo das esferas estaduais e municipais. Outro ponto levantado foram as estratégias usadas para se adaptar ao ensino remoto mediado por tecnologia, ficou explícito que não estávamos treinadas e preparadas para essa modalidade de ensino e tivemos que buscar por conta própria as soluções possíveis; questões emocionais e físicas também foram apontadas: o cansaço, desgaste, tristeza, medo e a insegurança foram mencionadas como fatores que impactam diretamente na prática docente.

Após a fala das convidadas, foi aberto o debate e houve a participação de outras pessoas que trouxeram novas questões, como o desafio que era para as mães, pais e responsáveis acompanharem esse ensino remoto com as crianças e jovens, além dos pontos que já haviam sido mencionado pelas convidadas e foram endossados pela fala de outras professoras que estavam participando da roda. Finalizamos o nosso encontro com palavras de estímulo e incentivo, reforçando a crença que a educação é uma importante chave de mudança da nossa sociedade e é necessário continuar lutando para que ela seja universal e de qualidade.

Na sequência, 18 de agosto, aconteceu a roda sobre maternidade mediada por Danielle de Noronha, mãe de Camilo, que contou com a presença das cineastas Luciana Oliveira, mãe de Malaika, e Manoela Veloso, mãe de Olga, e da professora Mélanie Létocart, mãe de Ian, Luan, e Anna Eva. O tema foi incentivado pelas novas dinâmicas que foram incluídas na rotina das integrante do GT que eram mães ou conviviam com crianças. Num primeiro momento – e talvez ainda estejamos nos adaptando a isso – foi difícil medir a quantidade de trabalho e o tempo em frente às telas, que já não era pouco e se ampliou ainda mais. Essa nova realidade de família em casa, existente para as pessoas que têm esse privilégio de poder desenvolver todas as atividades de modo remoto, inclui as dinâmicas específicas das crianças: mais interação familiar, mas também mais telas, aulas online e, a mais preocupante delas, a falta de convívio presencial com outras crianças.

A mediadora trouxe alguns dados para iniciar o debate: a sobrecarga do trabalho doméstico, a diminuição do rendimento no trabalho, que no caso das mulheres pesquisadoras teve um reflexo direto no número de artigos enviados para publicação, a complexidade das vivências de mães solo, além do aumento de casos de violência contra as mulheres. A partir daí, cada uma das convidadas a iniciar a roda trouxe as particularidades de suas experiências. Mélanie, que começou a pesquisar sobre feminismos, maternidade e literatura, trouxe em sua fala suas vivências como mãe, mas também como filha – e como as experiências como filha refletem na prática da maternagem. Além disso, nessa relação entre maternidade e trabalho, percebeu logo no início as dificuldades que são impostas pelas estruturas e como isso pode se complexificar na pandemia – vivida com filhos e filha de diferentes idades. No caso do ambiente acadêmico, tanto das professoras como das alunas, ela reflete como é um espaço constituído de lógicas masculinizadas, que não são pensadas para acolher as mães.

Luciana Oliveira, que ficou grávida durante o mestrado, também compartilha dessa dificuldade que o ambiente acadêmico impõe às mulheres mães. Além de pesquisadora, sua trajetória inclui a vivência como produtora audiovisual, outra área bastante machista e sexista que também coloca dificuldades às mulheres, e em espacial àquelas que são mães – e nos aponta que são muitos os espaços nos quais as mulheres encontram empecilhos e que ainda há muita desigualdade de gênero nos ambientes universitários e de trabalho. Como exemplo, em 2007, as mulheres ocupavam 40,8% das vagas do mercado formal e em 2016 representavam 44%, demonstrando um leve aumento no período, conforme reportagem divulgada pelo Portal Brasil. Além disso, uma pesquisa realizada pela Catho, em 2018, mostra que as mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos, sendo que em algumas áreas, como idiomas, a diferença pode chegar a mais de 110%.

Luciana falou também sobre suas vivências como mulher, mãe e preta, além de questões sobre o puerpério e as possibilidades de cura. Junto com Manuela, a última convidada a falar, Luciana estava produzindo um documentário sobre a maternidade[8], e encontrou no audiovisual parte desse processo de cura. Em sua fala, Manoela complementou contando sobre o poder terapêutico que o desenvolvimento do filme proporcionou, no qual puderam ouvir outras mulheres e outras experiências – apontando para a importância do diálogo entre as mulheres como forma de fortalecimento e resistência.

Manoela se tornou mãe em 2016 e conta “que redescobriu na pele as opressões sobre a mulher, e assume por ela e por Olga sua parte nesse processo de redesenhar o passado e o futuro através do presente”. Iniciou sua fala dizendo que logo que sua filha nasceu percebeu que as responsabilidades não eram divididas da mesma forma entre ela e o pai, o que descontruiu a ideia que tinha sobre como seria a criação da filha. Por fim, após ouvirmos as falas das três, outras mulheres compartilharam suas experiências. Ainda vale ressaltar que as crianças fizeram participações especiais nas falas de todas as convidadas.

No dia 25 de agosto, aconteceu a terceira roda sobre raça e comunidades tradicionais. Com mediação de Ana Nobre, a conversa iniciou com as falas da quilombola Claudeane Bisco, do quilombo Brejão dos Negros em Sergipe, de Karine Santos, da comunidade indígena Kairi-Xocó, e da pesquisadora Yérsia de Assis, que faz parte do Samba de Aboio/Aguada/Sergipe e é Ekédjí no Ilê Axé Omin Mafé. A roda ainda iria contar com as presenças de Elienaide Flores, educadora popular, catadora de mangaba, militante e marisqueira, que teve problemas particulares e não pôde comparecer, e de Geonísia Dias, marisqueira e integrante do Movimento de Marisqueiras de Sergipe, que teve problemas na conexão – mais uma realidade desses ambientes virtuais que tivemos que aprender a conviver.

Incentivada pela roda anterior, sobre maternidade, Ana convidou sua mãe para participar do evento e pediu licença a ela e as mulheres presentes para mediar o evento. Iniciou a roda apresentando as convidadas e ressaltando a tentativa de simularmos uma roda de conversas presencial. A primeira a falar foi Karine, que compartilhou um pouco sobre as vivências de sua comunidade, em especial nesse contexto da pandemia, mas também pontuando questões que se repetem em outras comunidades indígenas. Como mãe, comentou sobre as mudanças nas rotinas das crianças, que normalmente são muito pautadas nas trocas coletivas.

Na seguida, Claudeane falou sobre a experiência de sua comunidade. Contou que no início ainda não sabiam muito como lidar com a Covid-19, inclusive pela falta de informações que havia naquele momento, mas que com o aumento dos casos decidiram não deixar pessoas de fora entrar na comunidade, com o intuito de buscar proteger, em especial, as idosas, os idosos e as crianças, e mesmo assim houve alguns casos da doença, felizmente sem muita gravidade. Para ela, um dos principais impactos na comunidade foi a necessidade de pausar as atividades que estavam realizando, como oficinas e reuniões. Entretanto, pontuou que com o passar do tempo, elas e eles foram criando novas estratégias para manutenção da comunidade e encontram na internet a possibilidade de dar seguimento aos seus trabalhos.

Por fim, Yérsia iniciou sua fala refletindo sobre as mudanças nas rotinas de sua família, uma realidade que deve ter se repetido nas rotinas de muitas outras famílias. Suas avós, que são mães de muitos filhos e filhas e estavam acostumadas aos grandes encontros, de repente se encontraram num contexto de isolamento. O que, num primeiro momento, pode ter sido mais fácil compreender, com o passar do tempo foi se tornando mais insuportável. A necessidade do distanciamento as fez pensar que estavam sendo abandonadas e os cuidados se ampliaram ainda mais pela morte de um avô pela doença, o que ainda inclui a situação de poderem viver o luto coletivamente. Sua fala remeteu às frustrações das idosas e dos idosos nesse processo, que muitas vezes são entendidas e entendidos como pessoas sem agenda e programações, mas que na verdade possuem muitos planos, que também foram impossibilitados pelo contexto pandêmico. Além disso, por se tratar de pessoas que vivem no interior, essas questões ainda têm a ver com a agenda própria de suas comunidades, isto é, não é apenas uma tristeza individual, mas também coletiva, já que a própria comunidade está chateada por suas realidades e rotinas terem sido alteradas.  

A quarta roda de conversas, centrada nas discussões sobre o trabalho doméstico no contexto pandêmico, ocorreu no dia 01 de setembro. Mediada por Maria Teresa Ruas Coelho, doutoranda de sociologia na UFS, a roda contou com a participação de Fernanda Amorim Accorsi, professora do departamento de Educação na UFS; de Quitéria Santos, vice-presidenta do Sindicato das Trabalhadoras e Trabalhadores Domésticos do estado de Sergipe; e, finalmente, de Maria Vera de Almeida Nunes, mãe de 5 filhos e filhas e trabalhadora doméstica há mais de 20 anos.

A importância da temática foi evidenciada por três eventos que suscitaram o choque e a revolta no debate público brasileiro: o primeiro registro de morte por Covid-19 no Rio de Janeiro foi de uma trabalhadora doméstica, que contraiu o vírus de sua patroa que havia viajado para a Itália ainda no início da crise sanitária; a morte do menino Miguel que caiu do nono andar de um prédio em Recife onde sua mãe, Mirtes Renata de Souza Santana, trabalhava como doméstica e havia deixado o filho aos cuidados da patroa enquanto exercia suas funções; e, finalmente, da mulher que foi submetida por quase 40 anos a trabalho como doméstica análogo à escravidão em Elísio Medrado, no Recôncavo Baiano[9]  

Como nas demais rodas de conversa, as desigualdades interseccionais entre gênero, raça e classe foram centrais durante todo o debate. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), realizada durante a crise sanitária do Covid-19 e citada como introdução à conversa do dia, apontava fato já consolidado: o trabalho doméstico é realizado predominantemente por mulheres negras, com baixa escolaridade e baixa renda. Contando quase 6 milhões de mulheres, o trabalho doméstico representa mais de 14% da população de mulheres ocupadas no Brasil, dentre as quais somente 28% possuem carteira assinada.

primeira a falar foi Vera, que compartilhou a sua vivência enquanto trabalhadora doméstica dentro e fora do contexto pandêmico. Relatou o início da trajetória como doméstica como a alternativa disponível para a garantia de seu sustento e dos filhos após a separação do marido; a experiência de trabalhar com carteira assinada somente em duas ocasiões; e a preferência em trabalhar como diarista. Durante a pandemia, Vera estabeleceu com a empregadora, para quem trabalha há 15 anos, que permaneceria trabalhando na condição de que a buscassem e retornassem à sua casa de carro, de modo que ela pudesse evitar circular no transporte público. Mas contou que preferiu deixar o trabalho na casa de um médico, por medo do contato com a doença.

A próxima a falar foi a Fernanda, que trouxe uma visão mais acadêmica de mulheres trabalhadoras e da corporalidade feminina. A professora pontuou a importância de se conferir centralidade à divisão racial que estrutura desigualdades também entre as mulheres e citou Suely Carneiro na afirmação de que a pobreza possui gênero e raça. Ressaltou, ainda, a necessidade de desvelar esse contexto privado e dissociado de sua expressão real que é a casa, o doméstico, o lar. Esse espaço, geralmente construído como de afeto, de harmonia e descanso, compreende essencialmente tensões, desigualdades, o exercício do trabalho do cuidado e mesmo violências simbólicas e materiais. Na distribuição desigual desses encargos e violências, as trabalhadoras domésticas ocupam a posição de maior vulnerabilidade.

Por fim, Quitéria relatou a sua experiência enquanto trabalhadora doméstica e também como militante política. Contou como também começou a trabalhar como doméstica ao se separar do marido, enquanto alternativa disponível para a sua subsistência e de seus filhos. Narrando sua trajetória enquanto trabalhadora e militante, Quitéria relatou alguns dos problemas enfrentados pelas trabalhadoras domésticas na pandemia d Covid-19 que chegaram ao sindicato e às organizações que as representam. Um deles refere-se à grande quantidade de trabalhadoras domésticas que foram dispensadas por seus patrões e tiveram seus direitos negados. Na sua fala surge a importância de movimentos e organizações políticas - sobretudo neste momento crítico - como espaços onde essas mulheres encontram uma rede de apoio e buscam orientação para a compreensão e defesa dos seus direitos.

A quinta e última roda aconteceu no dia 08 de setembro e tratou sobre a questão das mulheres trans no contexto de isolamento. A roda foi mediada por Ana Paula O. Barros, doutoranda em Comunicação, e contou com a presença de Linda Brasil, mestra em Educação e militante feminista, LGBTQIA+ e transfeminista, e Adriana Lohanna, ativista LGBTQIA+, mestra em Educação, professora e pesquisadora. As discussões trazidas trataram, principalmente, sobre o impacto da pandemia dA Covid-19 no aumento das desigualdades em termos de classe, raça e gênero.

Primeiramente, foram trazidos dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, que constataram que, desde que o isolamento social começou a ser adotado, houve uma alta no número de mortes de mulheres trans. Outro ponto abordado é que o processo de exclusão social, que sempre impactou diretamente a vida das mulheres trans, foi intensificado mais ainda no período de isolamento e pandemia. Foi destacado que esse reflexo da exclusão foi sentido fortemente no mercado de trabalho. Segundo a ANTRA, com raras oportunidades de emprego, cerca de 90% das pessoas trans no Brasil acabam recorrendo à prostituição e, mesmo com a pandemia, as trabalhadoras sexuais continuaram nas ruas, pois essa costuma ser sua principal fonte de sustento. Aliado a isso ainda surgiram e se intensificaram os impactos psicológicos provocados pelo distanciamento social. Entre eles, a solidão, o abandono, a LGBTfobia no ceio familiar e a ansiedade diante de um cenário de incertezas.

Por fim, foi pontuado que no contexto de pandemia é importante trazer essa reflexão sobre a gravidade do isolamento social no dia a dia das travestis e transexuais que se encontram em situação completamente vulnerável, e que sofrem com o desamparo da sociedade, de modo geral.

Considerações finais

Finalizamos o evento e realizamos uma reunião para discutir quais foram os resultados e concluímos que a experiência foi bastante positiva. Tivemos mais de 150 inscrições, de todo o país, e uma média de 25 participantes por roda. Todas ainda estamos aprendendo como lidar com esses ambientes online, mas, apesar disso, buscamos criar encontros que fossem acolhedores, ao mesmo tempo que pudéssemos refletir sobre as diferentes realidades de mulheres no contexto da pandemia da Covid-19.

Como já era esperado, alguns problemas técnicos foram encontrados, como pessoas que não conseguiram se conectar, pessoas inscritas que não receberam o e-mail com o link da sala para alguma roda, áudios baixos ou com ruídos, mas todos foram superados e não foram capazes de comprometer os encontros. Apesar de cada roda ter um tema específico, todos os temas – e outros mais – dialogavam e estiveram presentes de diferentes formas durante todo o evento. Pudemos constatar a partir das falas como a pandemia, apesar de apresentar questões comuns a todas, se manifesta de diferentes formas a depender do modo como se intersecionam os marcadores sociais da diferença como gênero, raça, classe, sexualidade, etc.  Foram encontros intensos, de muita escuta, diálogos e aprendizados. Em um outro momento, podemos ainda discutir outras questões que a experiência nos trouxe, como a intimidade que se expõe nas interações online, os limites dos encontros mediados por telas, a participação, entre outros temas que se apresentaram para além das discussões que estávamos propondo.

Após a realização das rodas de conversa, a programação das atividades do GT se pautou em reuniões mensais nas quais discutimos textos de diversas teóricas feministas, utilizando como referência o livro Pensamento feminista: conceitos fundamentais, organizado pela pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda. Os textos estudados dialogavam com áreas como antropologia, sociologia, ciencia política e história, e discutiam uma série de conceitos-chave necessários para a compreensão do desenvolvimento das teorias feministas - a exemplo dos textos  Gênero: uma categoria útil para análise histórica, de Joan Scott, A tecnologia de gênero”, de Teresa de Lauretis, e A instabilidade das categorias analíticas na teoria feminista, de Sandra Harding. O livro mencionado também comporta uma série de textos voltados a correntes teóricas como o pós-colonialismo, a decolonialidade e a teoria queer, que serão discutidos em reuniões futuras.

Tanto as discussões realizadas durante o evento sobre gênero e trabalho quanto os debates teóricos feitos a partir da literatura utilizada nas reuniões do GT nos fizeram refletir sobre as diversas posições que ocupamos enquanto mulheres mães e filhas, professoras e alunas, profissionais e/ou chefes do lar. Em um contexto como a pandemia de Covid-19, faz-se necessário estarmos atentas às dinâmicas sociais que nos rodeiam, que por vezes são mediadas por relações de poder. Os questionamentos levantados nas rodas de conversa e na leitura dos textos das teóricas feministas passaram, portanto, a ser pontos de apoio de grande importância neste momento.

As rodas de conversas estão disponíveis no canal de podcast do GERTs: https://anchor.fm/gerts-ufs

Referências bibliográficas

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (org). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. 440 p. 



[3] Neste link https://www.instagram.com/p/CDfD9klgcmd/?igshid=18ptdhfuxrj9s você pode conferir como foi feita a divulgação das rodas de conversa no Instagram.

[4] Os ataques virtuais são caracterizados pelo acesso à reunião por pessoas e grupos que tinham por objetivo atrapalhar ou impedir a realização de eventos onlines com ações como: colocar músicas e sons, impedindo que a fala das pessoas participantes e palestrantes fossem ouvidas, disparar ofensas contra as presentes, compartilhar imagens pornográficas, violentas e outras, além do encerramento inesperado de salas virtuais.

[5] Os podcasts são arquivos de áudio que são disponibilizados em plataformas de transmissão de conteúdos online, acessíveis a qualquer pessoa que tenha cadastro em uma dessas.

[6] O Portal do Ministério da Educação disponibiliza o censo do professor que está disponível neste link: http://portal.mec.gov.br/plano-nacional-de-formacao-de-professores/censo-do-professor

[7] O report produzido pela Hotmart, uma plataforma de comercialização e distribuição de produtos digitais, sobre o futuro da educação online, mostrou que, por conta da pandemia da Covid-19, 1,30 bilhão de crianças e adolescentes parou de ir a escola em todo mundo (p. 9), Confira esse e outros dados no link: https://blog.hotmart.com/blog/2020/07/report_futuro-educacao-online_hotmart_2020.pdf

[8] O documentário poderá ser conferido na programação da Mostra Maternidade Real da Rolimã Filmes. Para mais informações: https://www.instagram.com/rolimafilmes