segunda-feira, 29 de abril de 2013

Resenha do Texto Grupos Étnicos e suas Fronteiras


Por  Mayara Oliveira de Jesus
No texto “Grupos Étnicos e suas Fronteiras”, o autor Fredrik Barth analisa o fenômeno dos grupos étnicos e suas persistências. Em tal perspectiva, o autor faz uma crítica aos estudos que negligenciaram as fronteiras sociais e os estudos empíricos sobre os grupos étnicos.
Barth se posiciona contra a ideia de que o isolamento geográfico e social sejam fatores que sustentam ou produzam a diversidade cultural. Ele aponta para a ideia de que é na interação em um dado sistema social que ocorre a manifestação da etnicidade.
Neste caso, para que se possa entender melhor o étnico, o referido autor nos mostra que é preciso compreender que tais grupos são categorias de atribuição e identificação realizadas pelos próprios atores, ou seja, existe uma característica de interação e afinidade entre as pessoas pertencentes a um dado grupo.
Barth chama atenção sobre a necessidade analítica de busca pelos diferentes processos que se apresentam como formas de manutenção do grupo étnico, bem como sobre a ênfase na observação dos processos de constituição das fronteiras étnicas e suas manutenções.
Fredrik Barth define grupos étnicos como aqueles que compartilham valores culturais fundamentais, formados por membros que se identificam e são identificados por outros como tal. O autor reforça a ideia de que o quê define um grupo é a fronteira étnica e não a matéria ou conteúdo cultural que possamos encontrar, sendo que essas fronteiras, ao qual o autor relaciona os grupos, são fronteiras sociais e seus fundamentos são uma ideia que os grupos elaboram sobre uma origem ou cultura em comum.
Enfim, o autor propõe que as fronteiras são construídas e mantidas pelas unidades étnicas e por isso é possível percebermos a persistência dessas unidades. Porém, é importante destacar que para Barth, a cultura relacionada a um grupo étnico não está restrita pela fronteira. Desse modo, ela pode também variar sem ter relação com a sua manutenção.

sábado, 20 de abril de 2013

Cinema, memória e ditadura

Lista de filmes sobre a ditadura civil-militar brasileira.

Comente sobre os filmes abaixo e indique mais títulos:

O desafio (Paulo Cesar Saraceni, 1964);

Terra em transe (Glauber Rocha, 1967);

A opinião pública (Arnaldo Jabor, 1967);

Liberdade de imprensa (Curta-metragem - João Batista de Andrade, 1968);

Você também pode virar um presunto legal (Sérgio Muniz, 1971/2006);

Brazil: a report on torture (Saul Landau & Haskell Wexler, 1971);

Estado de sítio (Costa-Gravas, 1972);

Blablablá (Andrea Tonacci, 1975);

O Bom burguês (Oswaldo Caldeira, 1979);

Pra frente, Brasil (Roberto Faria, 1982);

Frei Tito (Curta-metragem - Marlene França, 1983);

Jango (Silvio Tendler, 1984);

Em nome da segurança nacional (Roberto Carminati, 1984);

Cabra marcado pra morrer (Eduardo Coutinho, 1985);

Feliz ano velho (Marcelo Rubens Paiva, 1985);

Nada será como antes. Nada? (Renato Tapajós, 1985);

Que bom te ver viva (Lúcia Murat, 1989);

Muito além do Cidadão Kane (Simon Hartog, 1993);

Lamarca (Sérgio Rezende, 1994);

O que é isso, companheiro? (Bruno Barreto, 1997);

Ação entre amigos (Beto Brant, 1998);

Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro (Silvio Tendler, 1999);

Dois córregos (Carlos Reichenbach, 1999);

Golpe de 64: a procissão está nas ruas (Mauro Lima, 2000);

Barra 68 - Sem perder a ternura (Vladimir Carvalho, 2001);

Araguaya - a conspiração do silêncio (Ronaldo Duque, 2004);

Cabra-cega (Toni Ventura, 2004);

Quase dois irmãos (Lúcia Murat, 2004);

Tempo de resistência (Andre Ristum, 2004);

Olga (Jayme Monjardim, 2004);

Vlado: 30 anos depois (João Batista de Andrade, 2005);

Contos da resistência (Getsemane Silva, Glória Varela, Marcya Reis, André Carvalheira, Guilherme Bacalhao, 2005);

O Quintal Dos Guerrilheiros (João Massarolo, 2005);

Hércules 56 (Silvio Da-Rim, 2006);

Zuzu Angel (Sérgio Rezende, 2006);

1972 (José Emilio Rondeau, 2006);

O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006);

Sonhos e Desejos (Marcelo Santiago, 2006);

Dzi Croquetes (Erika Bauer, 2006);

Batismo de Sangue (Helvécio Ratton, 2007);

Caparaó (Flávio Frederico, 2007);

Condor (Roberto Mader, 2007);

Corpo (Rossana Foglia, Rubens Rewald, 2007);

O profeta das águas (Leopoldo Nunes, 2007);

Tira os óculos e recolhe o homem (André Sampaio, 2008);

Cidadão Boilesen (Chaim Litewski, 2009);

Em teu nome (Paulo Nascimento, 2010);

O dia que durou 21 anos (Camilo Tavares, 2011);

Marighella (Isa Grinspum Ferraz, 2011);

Uma longa viagem  (Lúcia Murat, 2011);

Hoje  (Tata Amaral, 2011).

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O filme Hoje, com direção de Tata Amaral, estreia nos cinemas na próxima sexta, 19. Vencedor do Festival de Cinema de Brasília, o longa conta a história de Vera (Denise Fraga), uma ex-militante política que recebe uma indenização do governo em decorrência do desaparecimento do marido (Cesar Troncoso), vítima da repressão provocada pela ditadura civil-militar. Com o dinheiro, ela consegue comprar um apartamento, além de enfim poder ser reconhecida como viúva. Só que, quando está prestes a se mudar, recebe uma visita que altera sua vida. O filme traz uma nova perspectiva sobre o tema, já que se desenrola no “presente” sobre o “passado”. A memória e os fantasmas desse período, tanto de Vera, como da sociedade, parecem ser um dos temas fundamentais tratados pelo filme.

Assista ao trailer do filme:



segunda-feira, 8 de abril de 2013

Cinema da África e sobre a África

Comente sobre os filmes abaixo e indique links

A Guerra do Kuduro (Henrique Narciso Dito - 2009)
Ficção sobre o kuduro, com atores músicos e encenado em Luanda.

É Dreda Ser Angolano (Rádio Fazuma – 2010) 65min.
Documentário sobre juventude em Luanda, música e cotidiano.

Luanda, a Fábrica da Música (Kiluange Liberdade e Inês Gonçalves -2009) 57min.
Documentário sobre o kuduro em Luanda, modos de fazer, dinâmicas, músicos e público.

Mãe Ju (Kiluange Liberdade e inês Gonçalves) 55min.
Documentário sobre a discoteca da Mãe Ju, em Luanda.

Na Terra Como no Céu (Inês onçalves)
Documentário com temática religiosa, em São Tomé e Príncipe.

Nu Bai, o Rap Negro de Lisboa (Otavio Raposo, 2006) 67min.
Documentário sobre o rap nos bairros de Lisboa. A diferença é de dez anos na realização para outro filme acima sobre o rap em Lisboa.

O Rap é uma Arma (Kiluange Liberdade, 1996) 35 min.
Documentário sobre o rap nos bairros de Lisboa.
Realização para outro filme acima sobre o rap em Lisboa.

Oxalá Cresçam Pitangas (Ondjaki e Kiluange Liberdade, 2008) 63min
Documentário sobre Luanda pós guerra civil, juventude, cotidiano e expectativas.

Tchioli (Kuluange Liberdade e Inês Gonçalves, 2009) 51min
Documentário sobre práticas tradicionais em São Tomé e Príncipe.

Outros Bairros (Kiluanje Liberdade, Inês Gonçalves e Vasco Pimentael) 54min
Documentário sobrtre bairros periféricos em Lisboa, juventude negra.

A Guerra Colonial (Joaquim Furtado, 2007)
Documentário em vários episódios, em média 60min cada, sobre a guerra colonial portuguesa em Angola.

Atlântico Negro: na Rota dos Orixás (Renato Barbieri,  1998)
Documentário sobre religião dos orixás entre Brasil e África.

Quilombos da Bahia (Antonio Olavo) 98 min.
Documentário sobre os quilombos do estado da Bahia.

Nhá Fala (Flora Gomes, 2002)
Ficção sobre jovem cantora em Bissau. Trata da transgressão simbólica A tragédia, augúrio ditado pela negra condição africana, é contornada por um poder maior, que a tradição substima, reprimida pelo colonialismo : a força da vida.

Cafundó (Paulo Betti e Clovis Bueno) 98 min.
Ficção biográfica sobre a vida de João de Camargo, Preto Velho milagreiro nas primeiras décadas do século XX.

terça-feira, 2 de abril de 2013

RAP E JUVENTUDE EM CRIOULO


Car@s,

Saiu num recente e interessante número da revista REALIS, da UFPE, um artigo de nossos colaboradores Miguel Barros (Guiné Bissau) e Redy Wilson Lima (Cabo Verde), cito o resumo publicado na revista:

"RAP KRIOL(U) O PAN-AFRICANISMO DE CABRAL NA MÚSICA DE INTERVENÇÃO JUVENIL NA GUINÉ-BISSAU E EM CABO-VERDE"



Resumo: nos anos de 1990, com a vaga de democratização na Guiné-Bissau e em Cabo-Verde, quer o PAIGC quer o PAICV, partidos tidos como “força, luz e guia do povo”, perdem esse estatuto, pondo fim simultaneamente à cadeia de domesticação dos espíritos, precipitando assim uma descoletivização social das organizações juvenis sob o prisma comunista. Isto fez com que os jovens reinventassem formas de sociabilidades no seio dos grupos de pares, num contexto marcado pela globalização e afro-americanização do mundo, em que a cultura hip-hop, através do seu elemento oral, o rap, aparece como veículo da liberdade de expressão e de protesto dos grupos urbanos em situação de maior precariedade. Este artigo pretende analisar de que forma os jovens guineenses e cabo-verdianos recontextualizaram através do rap, na nova conjuntura dos dois países, o discurso pan-africanista e nacionalista de Amílcar Cabral, tendo em conta o risco de branqueamento da memória coletiva e histórica; a suposta traição dos seus ideais pelos atuais políticos dirigentes; a necessidade de o resgatar enquanto guia do povo; e de representá-lo como
um MC (mensageiro da verdade)."
Na íntegra: http://www.nucleodecidadania.org/revista/index.php/realis/article/view/60/55

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Cinema e memória: 49 anos depois do golpe civil-militar

Por Danielle Noronha

No dia 31 de março de 1964 era instaurada a ditadura civil-militar, que governou o país por 21 anos. Hoje, 49 anos depois do início do golpe, em meio a revoltas e comemorações, a tensão pela memória sobre esse período está cada vez mais aparente. A construção da memória coletiva nacional relativa à ditadura está numa constante disputa entre as diferentes interpretações sobre esses anos, pelo fato de haver versões hegemônicas e outras versões menos evidenciadas, que reivindicam o direito de falar a “verdade” sobre esse passado. A criação da Comissão Nacional da Verdade, instalada oficialmente em 16 de maio de 2012, ampliou o espaço oficial para a difusão destas diferentes memórias e ainda mais o embate entre as versões. Porém, mesmo antes da instituição da comissão, outros meios eram utilizados como forma de dar visibilidade às memórias “silenciadas”, que não encontravam espaço nos documentos ou em outros meios oficiais de veiculação, e a arte se tornou um campo importante para a manifestação destas diferentes representações.

O cinema se destaca como uma das principais formas de arte no que diz respeito a construções idealizadas do que foi a ditadura. Primeiro, pela relação que a imagem cinematográfica, através de sua projeção, pode criar com o espectador, já que os filmes são altamente regulados pelo “efeito de real”, ideia que Barthes (2004) desenvolveu para a literatura, mas que também está presente nos filmes, que pode criar, reforçar ou modificar o imaginário nacional sobre o período, além de reformular o discurso sobre a nação. Para Barthes, o “efeito de real” consiste nas estratégias utilizadas nas narrativas realistas para descrever ao leitor o ambiente proposto, que representam o “real” a partir de sentidos conotados e denotados, de tal modo que sejam apagados os resquícios da artificialidade e criada uma relação entre leitor e texto, a partir das referências do que o leitor entende por “realidade”. Em segundo lugar, o cinema remete à relação entre arte e vida, já que os filmes podem ser entendidos como artefatos culturais que “falam” muito da cultura da qual fazem parte.

A construção da memória social sobre a ditadura civil-militar, então, em constante movimento e negociação, é compreendida por distintos agentes sociais de variadas formas. O cinema é apenas mais um lugar social em que se reivindica espaço para veiculação sobre pontos de vista deste período, em que é possível ter contato com novas versões, que no geral, evidenciam memórias que de alguma forma foram silenciadas. Neste sentido, optar por tematizar a ditadura significa fazer parte da tensão que busca (re)significá-la para um público presente. A rememoração também é um ato político.

Desta forma, por trás da representação cinematográfica e das disputas pela memória do período estão conceitos que fazem parte de todo esse cenário tenso, em que há uma briga pelos significados das palavras verdade e silenciamento. É a forma como as pessoas da nação compreendem o significado dessas palavras que está em disputa, pois esses temas estão atrelados à grande parte dos discursos sobre a ditadura e já fazem parte do imaginário sobre o período. O que se busca é indicar o modo como a sociedade entende e compartilha o passado, a partir da relação entre imaginário e memória. Esta questão está muito atrelada à ideia de reconciliação, em que o perdão ainda está sendo negociado, e a conciliação social ainda está em curso. Quando se trata de trazer questões relacionadas à memória da ditadura civil-militar são conotados sentimentos que envolvem silenciamento, além de esquecimento, ressentimento e perdão, que estão também relacionados com a forma com a qual o país passou do governo autoritário para o “democrático”, sem punições, e com a imposição de versões que minimizaram as atrocidades e as diversas violências que foram cometidas nesse período. Assim, o testemunho apresentado no cinema é utilizado como uma forma de “representação do passado por narrativas, artifícios retóricos, colocação em imagens” (RICOUER, 2007, p. 170), que ativa uma memória com o objetivo de não esquecer, de não silenciar.

A produção cinematográfica nacional acumulou um grande número de obras que trabalham com representações acerca deste tema. Os filmes trazem para o presente diferentes releituras sobre o passado, cada qual balizado por determinados aspectos do período, mas que de algum modo dialogam entre si, mesmo que no embate por ressignificações. Dentre os filmes, é possível encontrar distintos gêneros, que geralmente tiveram seus argumentos pautados em biografias, fatos políticos e/ou sociais marcantes ou até mesmo em experiências vivenciadas pelos autores das obras.

Principalmente a partir da “retomada do cinema brasileiro”, mesmo não sendo possível classificá-los como uma corrente estética única, é possível determinar diferentes momentos e estilos de trabalho, em que existem, por exemplo, filmes com caráter de denúncia, filmes de ação, filmes biográficos e, mais atualmente, filmes que buscam fazer uma releitura do passado a partir do presente, quando são trabalhados temas como os traumas, a vingança e a memória, como Corpo (Rossana Foglia, Rubens Rewald, 2007) e Hoje (Tata Amaral, 2012). As histórias podem ser baseadas em personagens reais, como Lamarca (Sérgio Rezende, 1994), Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro (Silvio Tendler, 1999) e Zuzu Angel (Sérgio Rezende, 2006); em acontecimentos reais, como Araguaya - a conspiração do silêncio (Ronaldo Duque, 2004), Hércules 56 (Silvio Da-Rim, 2006), Batismo de Sangue (Helvécio Ratton, 2007) e Condor (Roberto Mader, 2007) ou em histórias ficcionais formuladas sobre um “período” real a partir da forma como o autor entende o passado, como Ação entre amigos (Beto Brant, 1998) e O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006). Portanto, é possível unificá-los, ao menos, como filmes políticos, pelas características que estão presentes em seus discursos.

Nesse aniversário de 49 anos do golpe ainda há muitas dúvidas e lacunas sobre o período. Novas histórias estão encontrando espaço e muitas outras versões ainda precisam aparecer para que a sociedade possa (re)formular sua memória social sobre a ditadura, sem ressentimentos. Enquanto isso, é possível buscarmos filmes que foram produzidos – e conseguiram driblar a censura – desde 1964 até os dias de hoje, e neles encontrarmos algumas novas possibilidades de ver, interpretar e compreender esse passado.

Referências bibliográficas
BARTHES, Roland.  O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
NORONHA, Danielle Parfentieff de. Cinema, memória e ditadura civil-militar: representações sobre as juventudes em O que é isso, companheiro? e Batismo de Sangue. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2013.
RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Culturas Juvenis

Resenha de PAIS, Machado José. Notas Preambulares; Parte I. in Culturas Juvenis. 2.ed. Lisboa, 2003.

Por Lucas Carvalho

Culturas juvenis, nome que intitula o livro de José Machado Pais, é referência quando se fala em uma sociologia da juventude, a passo que a obra possibilita um novo olhar sobre o tema (a partir da perspectiva analítica sobre o cotidiano). No texto que se segue serão apontados alguns dos principais argumentos referentes às “notas preambulares” e a “primeira parte” do livro. Será discutido o processo de maturação da pesquisa de Pais, os dilemas, as escolhas de caminhos e métodos de investigação e consequentemente o desenvolvimento de uma problemática sociológica referente a juventude portuguesa.

Nas breves notas introdutórias, Machado Pais afirma que nesse momento não iria fornecer nenhuma resposta sobre seu objeto de pesquisa. O que se segue é uma reflexão mais do ponto de vista metodológico, onde ele afirma sobre a dificuldade de oferecer respostas aos questionamentos suscitados sobre objeto pesquisado (no caso a juventude portuguesa). É a partir dessa dificuldade de oferecer respostas que surgem as teorias, classificadas por ele, como estruturas de pensamento capazes de orientar os passos investigatórios. Junto com as teorias, nasce uma tradição sociológica,  que se pauta na idéia de que para cada problemática construída é necessário uma vertente teórica para guiar a investigação e dar legitimidade a esse processo.

Apesar de parecer um caminho fácil, o autor fala da sua própria experiência, onde retrata que quanto mais mergulhava na investigação das culturas juvenis, mais buscava esse aparato teórico para dar sustentação a pesquisa, mais dúvidas surgiam, tornando o processo investigatório mais complexo. Porém, é no meio dessas dúvidas, que Pais começa sentir a necessidade de entender cada vez mais o cotidiano da vida dos jovens para conseguir compreender como funcionava a lógica da relação entre as transformações sociais, tanto no âmbito socioeconômico, quanto no âmbito individual, social e familiar, vendo os jovens no centro desse processo.

A partir do momento em que Machado Pais escolhe o estudo da vida cotidiana das juventudes como base analítica, ele sente a necessidade de colocar em evidência o uso do tempo pela juventude, relacionado com o ordenamento social, onde o autor revela que a partir daí será possível compreender a realidade destes jovens, a partir do consumo desse tempo, das suas experiências e vivências, possibilitando também o surgimento de formas específicas de sociabilidades. Pais também revela que mesmo com todo um aparato teórico, as vezes é preciso experienciar esse cotidiano juvenil, e  também dar voz a ele, para que certos símbolos, linguagens, relações de sociabilidade, sejam entendidas de fato e não de forma arbitrária.

Na primeira parte do livro, o autor retrata a necessidade de romper com o fato de analisar a juventude sobre o âmbito de um grupo unitário, homogêneo. É preciso segundo José Machado Pais, analisar não somente as similitudes desse grupo, mas também suas diferenças, tendo em vista de que o fato dos indivíduos compartilharem certos sentimentos em comum, não significa dizer que todos sejam iguais, tenham as mesmas trajetórias, as mesmas experiências, inclusive sobre a própria noção de juventude.

Sobre as formas de analisar a juventude, o autor abre uma discussão entorno de duas correntes teóricas. A primeira corrente ele denomina de teoria geracional. Esta teoria enxerga a juventude sob o ponto de vista etário, ou seja, a juventude é concebida como fazendo parte das fases da vida. Enfatiza-se dessa maneira os aspectos unitários da juventude. Essa corrente crê que em uma sociedade existe uma diversidade de culturas desenvolvidas com um conjunto de valores dominantes. Dessa forma, a questão essencial dessa corrente são as continuidades e descontinuidades dos valores e relações intergeracionais, que são discutidos tanto do ponto de vista das teorias da socialização, quanto da teoria das gerações. Uma das críticas que se faz a essa corrente é, justamente, a sua tendência a tratar a juventude de forma homogênea dentro de uma fase etária determinada, não representando de forma adequada o grupo a partir dos seus próprios entendimentos.

A segunda corrente recebe o nome de teoria classista. Enquanto a corrente geracionista via a questão da reprodução social a partir das análises das relações e conteúdos das relações intergeracionais, a corrente classista enxerga essa reprodução a partir das questões de gênero, etnia, raça, ou seja, a partir da perspectiva das classes sociais. Pela forma de pensar a juventude através do foco nas classes sociais e analisar o processo de transição para a vida a adulta sobre a ideia das desigualdades sociais é que a corrente classista se mostra crítica aos conceitos de juventudes pautados na ideia de fases da vida. Porém, o autor revela que os processos sociais vividos pelos jovens, não podem ser pautados somente a partir da perspectiva do antagonismo de classe social, mas também a partir das relações sociais, das trajetórias individuais, das experiências de vida que eles carregam e que fazem com que o transito para a vida adulta, que parecia ser algo já pré-estabelecido, possa ser modificado.

Para finalizar, a partir da análise do cotidiano e do curso de vida da juventude, das suas trajetórias, suas similaridades e diversidades, Pais mostra que as culturas juvenis se mostram muito mais complexas do que se pode imaginar. Podendo conter no interior delas tanto aspectos, etários, classistas e geracionais, constituindo-se um verdadeiro paradoxo. Dessa forma, o uso isolado, seja da teoria geracionista ou da classista, não seria capaz de dar conta da complexidade da análise sobre as juventudes, podendo gerar certos reducionismos sobre o tema. Dessa maneira, o autor justifica optar por articular as duas correntes, na tentativa de compreender a juventude de uma forma mais dinâmica, real e concreta.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Stuart Hall e as Identidades Descentradas

Por Liana Matos

Resenha do livro: 
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 6a. Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 

Stuart Hall é um autor jamaicano que viveu e estudou na Inglaterra na década de 50. Seus estudos recaem sobre a análise das identidades culturais e dos meios de comunicação.  No âmbito da identidade cultural, Hall escreve um ensaio que se torna um pequeno livro intitulado “A Identidade Cultural na pós-modernidade”. Neste texto ele busca analisar o que seriam as identidades na modernidade tardia.

Para tanto esquematiza o livro da seguinte forma: primeiro faz uma análise sobre os processos de mudanças no conceito de identidade e de sujeito durante a modernidade. Desta forma, apresenta a evidência de três concepções de sujeito: do iluminismo, o sociológico e o pós-moderno.

O sujeito do iluminismo seria o que está ligado a centro de individuação. Um eu centrado, em que a pessoa adquire desde seu nascimento até sua morte a ideia de particularidade. Ou seja, no sujeito do iluminismo a identidade é uma espécie de essência do próprio sujeito. Já o sujeito sociológico, avança na ideia de sujeito do iluminismo ao trazer o complemento de que o sujeito e constituído também por suas relações sociais. Este sujeito é formado pela interação do “eu” com a sociedade, evidenciando-se a existência de pertencimento a grupos sociais. A centralidade agora está assentada no grupo a que ele pertence. Sobre o sujeito pós-moderno, ele diz que o sujeito deixou de ser unificado e passou a ser pensado como formado por facetas de suas relações, se tornando incompleto, cindido, ambíguo. Para Hall, este sujeito emerge da crise do sujeito moderno.

Hall passa a discutir o que seria então a modernidade/globalização e o seu impacto sobre a identidade cultural. Para tanto lista alguns autores e seus respectivos conceitos sobre a modernidade. Ele apresenta vários conceitos sobre descontinuidade, fragmentação, ruptura e deslocamento, como características do que denomina por modernidade tardia.

Já na discussão sobre as identidades culturais, o autor demonstra que as identidades nacionais não vêm com o nascimento das pessoas, mas são construídas socialmente por meio de representações culturais. Aborda a ideia de nação como uma forma que distingue a sociedade moderna e sua importância na fomentação de um sistema de representações simbólicas em que o sujeito passa a adquirir uma ideia de pertencimento, de identificação.  

Com tudo isso, o que Hall quer levantar é um questionamento sobre ideias fixas de identidade, como a nacional, que se apresentam aparentemente coesas. O que interessa é entendermos como funciona o sistema de representações e o deslocamento das identidades nacionais pelo processo de globalização.

O que Hall questiona é o seguinte: independentemente da diferença (classe, etnia, gênero) o que a identidade nacional parece buscas é uma ideia de unificação. Mas até que ponto essa unificação anula e subordina a diferença cultural? O que estaria descentrando o sujeito? O que estaria deslocando as identidades culturais nacionais na contemporaneidade? Dentre esses questionamentos, Hall aponta a globalização como responsável por algumas destas transformações. Assim, o que estaria acontecendo, segundo Hall, seriam consequências paradoxais da globalização: por um lado a forte pressão de homogeneização cultural e por outro lado a produção de novas identidades, particularizadas.

É perceptível que Hall abre um leque de discussões no meio acadêmico sobre a identidade cultural na modernidade tardia. E assim ele conclui sua discussão enfatizando as contradições globalização. Com os exemplos mencionados pelo autor, parecia que Hall apontaria para a ideia de que a globalização promove o esquecimento de narrativas locais, pelo fortalecimento de identidades universalistas. Porém, ao final, ele lembra que a globalização não está atuando em nenhum dos lados do pêndulo universal/particular, mas estaria provocando o que Hall sustenta desde o princípio do livro: um descentramento do sujeito na contemporaneidade.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

De Mudanças e Metáforas (Resenha)


 Das mudanças das metáforas, às novas metáforas e mudanças na teoria critica dos nossos tempos. É nesse empreendimento que Stuart Hall elabora uma analise das representações metafóricas das transformações culturais (e de certa forma, uma homenagem a Allon White). Para tanto, se vale da obra que este elabora com Peter Stallbryass: Política e a poética da transgressão.
Sugere Stuart Hall uma analise das “metáforas de transformação” para pensar analiticamente a relação entre o social e o simbólico no processo de transformação. Cita Marx e sua perspectiva de reduzir as idéias operantes em toda sociedade, às idéias da classe dominante (p. 206). Nessa direção a transformação corresponde à substituição. Ou seja, “o mundo de cabeça para baixo”, a metáfora que exprime inversão.
Essa concepção é superada, tendo a idéia de que as categorias “alto” e “baixo” propostas por Allon Mhite e Peter Stallbryass, que entendem, em uma perspectiva “carnavalesca” a relação do social com o simbólico. Nesse sentido Hall sugere se ater nas “afinidades eletivas” dos autores com as idéias bakhtinianas.
Em suma trata-se de perceber as interligações hierárquicas no campo do social e simbólico, que elaboram e reelaboram arcabouços culturais que se relacionam. Essa inter-relação entre as classes sociais sugere outras possibilidades de entender a “transgressão”. O carnaval é a metáfora do “mundo as avessas”, onde o plebeu se torna príncipe; o escravo manda no senhor; onde o corpo torna-se o algoz subversivo.
A ênfase apresentada por Hall, e o que insiste em chamar atenção por via da metáfora do carnaval é uma “interdependência”, onde nenhuma forma ou idéia é hegemônica, ao passo que um se constrói na relação com o outro. A hierarquia torna-se, assim, um espaço de negociação e contradição.
Como fica assim a transgressão? Enquanto categoria de analise de metáforas, se constitui em “... algo sintomático de uma transição maior em nossa vida política e cultural, bem como no trabalho teórico das últimas décadas.” (p.212). Demonstra essa constatação por via dos Estudos Culturais.
Partindo de Raymond Williams chama atenção para o “popular” como elemento transgressor das “fronteiras da classificação cultural” (p. 213). Essa é a fonte do dilema binário. O “relacionamente”.
Chegando a 1975 trata da 2ª fase do “Centro”: as “subculturas jovens”. Nessa o caráter da “resistência” se caracteriza enquanto frente à “ordem dominante”. A representação simbólica é visualizada por via de “rituais”. Expressões diferentes – e pouco entendidas – dos cânones clássicos de transformação sócia. A base dessa postura é a idéia de “equilíbrio nas relações de força” proposta por Gramsci na analise da luta hegemônica. Substituindo a analise das relações sociais que entende a “luta de classes”, essa por sua vez não foge do esquema binário em dilema.
No terceiro momento apresenta a questão do “discurso ideológico” sugerindo repensar conceitos, mecanismos e mapeamentos. É com esse esforço que Hall entende que o caráter interdisciplinar – segundo Schulman (1999:169): “Os Estudos Culturais foram concebidos desde o inicio, como empreendimento interdisciplinar.” - dos Estudos Culturais possibilita ampliar o olhar acerca do fenômeno da ideologia para além de um marxismo recorrente.
A continuidade é a tentativa de aproximar a ideologia ao simbólico. Colocando o significado assim como flutuante e não como estabelecido, tendo em vista que o “signo ideológico” é “plurivalente” (Volochinov apud Hall 2009:216). Dentre outras concepções de relacional o ideológico ao signo (Freud).
Percebe-se ainda assim, que a idéia de classes não é abandonada. Seja em lados opostos ou se relacionando de formas diferentes, mas existem. Mas não seria possível pensar ideologia sem classes? Ou ela só se funda nessa distinção, dicotomia...?
Essas reflexões que partem do texto têm a apresentação analítica que Hall faz de Marxismo e filosofia da linguagem como impulso. E nesta obra destaco quando o(s) autor(es)1 afirma(m) categoricamente: “Todo fenômeno que funciona como signo ideológico tem uma encarnação material, seja como som, como massa física, como cor, como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer.” (Bakhtin, Volochinov: 1990:33).
Hall segue apresentando a influencia de Bakhtin nos Estudos Culturais. Entendo como afirma Schulman que posição teórica dos estudiosos dos EC desde os princípios, se explica e se afirma pela sua posição social. Logo, o fato de politicamente o contexto influenciar Bakhtin, suas reflexões mostram uma perspectiva dialógica na vida do autor. O dialogismo presente em sua obra põe em debate a questão da autoria, o que também pode ser compreendida na direção das representações.
E dessa reflexão acerca das metáforas de transgressão que Hall considera fortuita a relação analítica entre a “dialógica da plurivalência” e a “dialética do antagonismo de classe”. A tentativa é mostrar a contribuição que uma lógica atribui à outra, é como se uma preenchesse a lacuna - limite? - da outra (p.220). Para tanto argumenta com Gramsci partindo dos “fundamentos paradoxais que captam o relacionamento dialógico entre forças antagônicas...” (p.221). Consiste num aprimoramento teórico presente nos Estudos Culturais.
O conteúdo crítico de Stallybrass e White, na direção das estruturas “binárias-e-inversões das metáforas clássicas”, pode ser vista em McCabe, também recorrendo a Gramsci, quando se volta para a cultura popular com base no “nacional popular”, entendida como uma força de ruptura com o alto e baixo. A horizontalidade proposta leva as metáforas na direção de não considerar a cultura popular uma mera forma de resistência.
Dessa forma - dialogando com Derridá - isso não significa o abandono da posição clássica, mas “colocá-la ´sob rasura`”. É sim considerá-la fundamental na constituição de identidades dentro da cultura européia (Stallybrass e White). Ressaltando assim o “princípio hierárquico da cultura”, no procedimento de deslocamento.
Por fim apresenta uma longa citação dos autores onde estes se valem de Jameson para defender a dialética que forma o inconsciente político quando procura alcançar a singularidade da identidade, e nessa busca, o inconsciente torna-se heterogêneo.

BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e filosófica da linguagem. São Paulo: HUCITEC, 1981.
HALL, Stuart. Para Allon White: metáforas de transformação. HALL, Stuart. Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais. Beljo Horizonte: Ed UFMG/Humanitas,, 2009.
SHULMAN, Norma. O Centre for Contemporary Cultural Studiesda Univrsidade de Birmingham: uma historia intelectual. SILVA, Tomaz Tadeu da (org.) O que é, afinal, Estudos Culturais? Belo Horizonte: Autêntica, 1999.


1 Sem querer entrar no debate sobre autoria - mas é difícil definir entre Volochinov e Bakhtin - como alerta Roman Jacobson no Prefácio da obra; bem como Hall (2009:218). Vou usar os dois.

Texto de Wellington Bomfim