terça-feira, 24 de novembro de 2015

Resenha do texto "O pensamento como ato moral: dimensões éticas do trabalho de campo antropológico nos países novos"



GEERTZ, Clifford. "O pensamento como ato moral: dimensões éticas do trabalho de campo antropológico nos países novos". In: ______. Nova Luz sobre a Antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 30-46.

Felipe Silva Araujo
(bobsonda@hotmail.com)
A Antropologia Social é uma disciplina fascinante para qualquer interessado por métodos científicos e estudos epistemológicos. Talvez isso se dê, em parte, em virtude de um forte apelo à constante reinvenção de suas práticas de campo, algo que pode soar bastante comum para estudantes familiarizados com as ciências humanas, e ao mesmo tempo como algo academicamente "imoral" para aqueles familiarizados com as chamadas ciências duras. Para um estudante e pesquisador de ciências sociais, um antropólogo, por exemplo, como será que soa tal singularidade?

A experiência da etnografia suscita no pesquisador dilemas comuns de áreas que estudam pessoas para além de um olhar biológico, físico ou matemático, que estudam com os homens, em vez de neles. Numa leitura fria da prática etnográfica, o ser humano é muito mais complexo do que qualquer variável naturalista. Não se trata de anular o aspecto natural em função do social, mas em grande medida os etnógrafos estão preocupados em complementar ou confrontar diferentes paradigmas teóricos em função do registro da experiência corpo a corpo enquanto experiência do objeto em contexto, do significado compartilhado localmente, numa espécie de microfísica da cultura.

Para Clifford Geertz, a etnografia envolve este exame vermeeriano da experiência de pesquisa. Tal prática levanta questões de ordem ética que, não obstante diversas vezes ignoradas, compõem o universo de toda e qualquer investigação de questões e fatos sociais sujeitos a análises detalhistas de aspectos das sociedades e da cultura. Em Nova Luz sobre a Antropologia, o autor e antropólogo norte-americano encontra espaço para propor o debate sobre questões relacionadas com a disciplina antropológica no que diz respeito a uma suposta moralidade do pensar. Para ele, ao passo que "essas ciências se desenvolveram tecnicamente, sua situação moral tornou-se uma questão cada vez mais premente" (p. 30).

O texto focaliza suas experiências de campo no Marrocos e na Indonésia. O autor indaga a questão da modernização de sociedades tradicionais, como acontece nos dois "novos países" pesquisados, avaliando a partir disso a "pesquisa social como forma de conduta" e procurando "contribuir para que o debate sobre a situação moral das ciências sociais se faça em solo mais firme" (p. 32).

Em síntese de suas observações mais pontuais, o autor destaca o papel pouco eficaz da pesquisa social, diante dos problemas "diagnosticados" em tais países, no sentido de prover soluções. Parafraseando Bacon, ele reflete que o conhecimento "nem sempre resulta em grande coisa em matéria de poder" (p.33). Encontrar e tratar do problema estariam, segundo Geertz, em posições diferentes de alcance, o que desperta no pesquisador um dilema, uma dada "situação moral" (ainda que em caráter profissional).

Afirma ainda que os diversos tipos de questões morais colocadas pela prática da etnografia muitas vezes se assentam em uma espécie de "assimetria radical de opiniões" entre o informante e o pesquisador, o que por sua vez "dá ao trabalho de campo esse colorido moral muito especial que considero irônico".

[...] o antropólogo é um mostruário de bens que, apesar da semelhança superficial com produtos locais, não estão efetivamente disponíveis no mercado interno. (p. 38)

Diante de tamanhas diferenças entre os interesses de antropólogo e informante, como pode o pesquisador esperar um retorno voluntarioso por parte dos pesquisados? Como evitar uma autovalorização da pessoa do pesquisador diante de contextos por vezes marcados pela miséria? Até que ponto a empatia entre ambos é real, necessária e sincera, e não apenas uma possível saída para o dilema? Segundo Geertz, existe, por conseguinte, esta

enorme pressão tanto sobre o pesquisador quanto sobre seus pesquisados para encararem essas metas como próximas, quando, na verdade, são distantes; como certas, quando meramente desejadas; e como alcançadas, quando, no máximo, houve uma aproximação delas. Essa pressão deriva da assimetria moral inerente à situação de trabalho de campo. (p. 40)

Institui-se assim entre antropólogo e pesquisado este edifício de "ficções parciais que são mais ou menos percebidas", o trabalho de campo vai se desdobrando quase como uma "experiência educativa" ao tato nos relacionamentos, diante muitas vezes do ambíguo e do implícito nas atitudes e pensamentos das figuras envolvidas, dos pesquisadores envolvidos, esses como partes, inclusive, da cultura estudada.

Em tom de conclusão à reflexão sobre tal dificuldade i) de apresentar o problema e possuir o poder para sua resolução, e ii) sobre a tensão moral existente entre pesquisador e pesquisado, Geertz chama a atenção para que a necessidade analítica da investigação social não anule a necessidade de o pesquisador considerar-se moralmente comprometido com a atividade que desempenha. Se há qualquer tipo de "fuga" pelo cientificismo ou subjetivismo na prática, o autor conclui que é porque a tensão se torna insuportável, em detrimento da própria consciência da humanidade do pesquisador ou da racionalidade do projeto. Caberia então a todo estudante de ciências sociais buscar abarcar fatos e valores dentro de uma mesma experiência, apostando que, antes de se anularem, possam ser equilibrados, ainda que dentro de uma abordagem racional. Ao invés de uma saída à francesa, propõe-se um espaço para a honestidade junto à "descrição densa" da cultura enfocada, revelando assim os contornos mais tênues que estão implicados na experiência da etnografia, para além de um formalismo inteiramente deslocado da realidade pesquisada e vivida.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

RESENHA DE O IMPACTO DO CONCEITO DE CULTURA SOBRE O CONCEITO DE CULTURA DE HOMEM

GEERTZ, Clifford. O impacto do conceito de Cultura sobre o conceito de Homem. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

ELISEU RAMOS DOS SANTOS¹
(eliseu_ciso@hotmail.com)

            Uma das principais ideias presentes no livro “A interpretação das culturas” de Clifford Geertz, é a de que a cultura é composta por teias de significados, cabendo a ciência não uma busca por leis e padronizações, e sim uma postura interpretativa desses significados (p.14). Dessa forma, o autor rejeita a concepção estruturalista que buscava alinhavar todas as sociedades a partir de regularidades culturais pré-determinadas. 

O capítulo a ser discutido aqui, é um desdobramento dessa rejeição. Para mostrar a cultura como teia de significados, Geertz busca primeiro desmistificar a ideia de Homem como uma categoria universal, sustentada por características que desconsideram as particularidades locais e estão presentes em qualquer indivíduo. Essa busca pela universalidade, chamada no texto de concepção “estratigráfica”, era alimentada pela noção da estratificação do homem, na qual todo indivíduo era composto por camadas sobrepostas equivalentes a fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais, que caso retiradas, revelariam o Homem (com “H” maiúsculo) atomizado, no qual, despido de suas especificidades, eram encontradas as “regularidades estruturais e funcionais da organização social” (p.49).

Geertz vê o estudo da cultura como uma ferramenta ordenadora da complexidade, e tal definição universalista de Homem parece demasiado simplista para ele, tão simplista que o mesmo não a considera uma possibilidade científica, pois uma modelagem estrutural do Homem equivale somente a correlações intuitivas de diferentes características presentes nas mais variadas sociedades. Outra questão levantada por ele, nos parece também legítima: Geertz critica a ideia de que um hipotético denominador comum, resultante de uma fração mínima da composição do homem, possa se tornar um ponto de partida para uma reflexão do que realmente somos. O autor, aliás, rebate essa problemática afirmando que é justamente através dos fenômenos mais particulares encontrados nas sociedades que podemos nos debruçar sobre uma concepção de homem, e que essa concepção não teria uma proposta fechada, mas um aspecto de incompletude de disposições conceituais, no qual era papel da Antropologia auxiliar na investigação dessas facetas da humanidade.

Com que postura a Antropologia adentraria no assunto? Em uma aproximação com o pensamento de Nietzsche, o qual dizia que junto à existência humana nasceu a necessidade de obediência como consciência formal e naturalizada², Geertz nos diz que para apreendermos minimamente uma imagem generalista do homem era preciso a) pensar a cultura como conjunto de mecanismos de controle para governar o comportamento e b) pensar o homem como animal dependente desses mecanismos de controle para ordenar seu comportamento. A partir desses pressupostos, ele tenta desviar o foco da definição do homem que enfatiza “as banalidades empíricas do seu comportamento” para uma discussão sobre “os mecanismos através de cujo agenciamento a amplitude e a indeterminação de suas capacidades inerentes são reduzidas a estreiteza e especificidade de suas reais realizações” (p. 57). Ou seja, a resposta para Geertz se encontra na própria condição do homem, que é limitada através da cultura.

Ao mesmo tempo em que cultura aparece para Geertz como mecanismo de controle, ela figura como aspecto essencial no quadro evolutivo da espécie, sendo não somente um ornamento da existência humana, mas uma condição essencial para ela – a principal base de sua especificidade (p. 58). Dentro dessa formação, o homem aparece como variado e multifacetado pela cultura; é nessas bases que se torna possível construir um conceito da natureza humana, que deveria estar em paralelo a diversidade dos modos de vida, com suas peculiaridades e detalhes compondo o caráter de cada cultura e também dos vários tipos de indivíduos dentro delas (p. 65).

¹ Mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe.

² NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal. Petrópolis – RJ: Vozes, 2012.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

RESENHA DE PESSOA, TEMPO E CONDUTA EM BALI

Élida Damasceno Braga [1] 
(elidabraga74@gmail.com)



GEERTZ, Clifford. Pessoa, Tempo e Conduta em Bali. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.


Ao afirmar que o pensamento humano é uma atividade social essencial, Clifford Geertz apresenta suas preocupações em relação a isso já alertando, inicialmente, para a incompletude da temática. O autor se debruça sobre o povo de Bali para observar como as ideias se definem em torno do aparato cultural, como este povo percebe e reage e, por conseguinte, o que pensam, trazendo, assim, elementos para uma análise da cultura. Desse modo, as conexões que se mostram dão sentido para compreender não apenas a sociedade local, mas a humana como um todo.
Geertz (1978) traz os conceitos de cultura e estrutura social em seu texto, abordando-os de forma independente, ou seja, no sentido de que “é preciso compreender tanto a organização da atividade social, suas formas institucionais e os sistemas de ideias que as animam, como a natureza das relações existentes entre elas” (p. 227). O autor informa também a dificuldade de se trabalhar cientificamente o conceito de cultura, haja vista a indefinição do objeto de estudo.
No entanto, o pensamento visto como objetos em experiência com a impressão de significados através de símbolos significantes coloca a cultura no patamar de ciência como outra qualquer. O sentido para estes símbolos significantes é encontrado através dos acontecimentos vividos pelo homem com padrões, que se acumulam culturalmente. Vale salientar que, alguns desses padrões são inerentes à pessoa humana e por isso aparecem em diversas sociedades. Daí que vem a proposição do autor para que se lance um olhar mais atento para as singularidades a fim de que se compreenda a problemática subjacente.
Geertz (1978) destaca ainda a importância da caracterização humana individual. A perspectiva individual, por categorias, perfaz  “o mundo cotidiano no qual se movem os membros de qualquer comunidade, (...) habitado por homens personalizados, classes concretas de pessoas, positivamente caracterizadas e adequadamente  rotuladas” (p.229). Contudo, Geertz (1978) adverte para a não redução da análise cultural apenas à caracterização individual. Isso ocorre devido à falta de um método para analisar a estrutura significativa da experiência. Embora se tenham registradas algumas tentativas de análise cultural no sentido de uma fenomenologia da cultura, uma das que se destacam, segundo Geertz, é a de Alfred Schutz, com tópicos abordados sobre a “realidade principal da experiência humana: o mundo da vida cotidiana enfrentado pelo homem, no qual ele atua e vive”. Esses estudos deram suporte ao autor no sentido de orientá-lo em suas pesquisas.
Em Bali, Geertz (1978) observa uma série de padrões culturais, nos quais a atuação humana pode se dar em termos de ordem temporal, estilo comportamental e identidade pessoal, bastante diversas, mas nem sempre muito claras para os padrões empíricos. O autor descreve os tipos de rótulos aplicados aos indivíduos ali, um tipo de ordem simbólica a ser descrita em: nomes de pessoas, nomes na ordem de nascimento, termo de parentesco, tecnônimos, status e títulos públicos. Para se ter uma ideia, o nome pessoal não possui muita importância social em Bali, pois são raramente usados. Aos demais vão se acrescentando importância, afetando a condição humana com tal estrutura.
Outra questão que aparece no texto de Geertz é a maneira como as pessoas veem o tempo dentro do percurso biológico e também natural na sociedade balinesa. Além da condição pessoal, da definição de pessoa, desde “os nomes ocultos até os títulos ostentados” (p.255), o tempo em Bali é marcado, no geral, de modo qualitativo, no que se manifesta como experiência humana. "Ele é usado para distinguir e classificar partículas de tempo (...) os ciclos são intermináveis e sem um clímax, pois sua ordem não tem significação. (...) Eles não acumulam, não constroem (...) Eles não lhe dizem que o tempo é agora, eles apenas informam que espécie de tempo é" (p.260). 
Sobre a conduta, Geertz (1978) observou que a vida social em Bali é construída em torno do cerimonial, algo próximo à teatralização. Tudo nessa esfera é muito exterior, calculado, pomposo, uma sociabilidade polida e bastante estética. Nesse contexto, termos como a vergonha e o fracasso assumem características marcantes na vida afetiva do povo balinês, tanto no plano interpessoal como no plano coletivo. Contudo, a vergonha para os balineses, está no medo de não cumprir com os papéis sociais propostos, tratando-se de um verdadeiro terror a simples suposição de não atuarem em conformidade com o desempenho público desejado.
Desse modo, a análise cultural lida com formas cheias de significados. Significados estes que não estão diretamente nas coisas, nos objetos, mas lhe são impostos pelos homens que vivem em sociedade. A natureza da integração, da mudança e do conflito cultural deve ser procurada nas experiências dos indivíduos e dos grupos que sentem, percebem, agem e julgam estas simbolicamente, sem esquecer, no entanto, que essas sensações são apreendias e interpretadas. Logo, as estruturas simbólicas que definem pessoas, caracterizam o tempo e ordenam comportamentos. Essas são produto da interação, de como se desenvolvem, bem como o impacto que causam um ao outro (GEERTZ, 1978, p.272).
Portanto, o autor faz uma observação inquietante quando aponta a possibilidade de mudanças culturais na sociedade balinesa. Pensar em um tempo mais dinâmico, um estilo de interação social menos formal e uma condição de pessoa que saísse do quase anonimato, produziriam, assim, mudanças significativas no modo de vida, haja vista esses três possuírem papéis fundantes na estrutura social balinesa: a pessoa, o tempo e a conduta.
Por fim, as questões levantadas nesse texto, tantos modos de vida repletos de valores e significados, são vistos como elementos de controle social. Assim, a cultura ou elementos dessas culturas, contribuem significativamente, com as formas de controle e como definidores de comportamentos sociais. Trata-se, pois, de um estudo de percepção dos indivíduos dentro de suas culturas no sentido de analisar e descrever a estrutura de significados dessas.


[1] Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

RESENHA DE A IDEOLOGIA COMO SISTEMA CULTURAL



Ivan Paulo Silveira Santos[1]
(ivanpaulo73@yahoo.com.br)

GEERTZ, Clifford. A ideologia como Sistema Cultural. In: A interpretação das culturas. 1.ª ed. 13.ª reimpr. Rio de Janeiro: LTC, 2008. pp. 107-34.


Segundo Clifford Geertz, há uma espécie de “senso comum” [grifo meu] na compreensão do significado da expressão Ideologia. Esse conceito, em geral, é entendido como uma série de ideias e princípios falsos. Eles são assim compreendidos, porque objetivam a elaboração ou afirmação de privilégios de grupo sobre uma massa de indivíduos. Em outras palavras, a Ideologia seria uma série de assertivas que buscam induzir a erro um conjunto social maior, para garantir os interesses de uma minoria. Essa compreensão não seria em si incorreta, mas incompleta. Afinal, a Ideologia pode sim servir à criação e manutenção de privilégios. Porém, segundo Geertz (2008, p. 107), não unicamente.

A expansão dos possíveis significados para Ideologia depende da compreensão da organização das sociedades. Elas estabelecem um conjunto de regras de convívio entre seus membros. Essas regras determinam o que é certo ou errado, apropriado ou não, enfim, o que é socialmente aceito ou não. A organização das sociedades cria todo um conjunto arbitrário de regras a serem obedecidas pelos seus respectivos membros. Segundo Geertz, esse tal conjunto de regras, que podemos chamar de cultura, nada mais é do que um arcabouço ideológico. Afinal, no que há uma instituição de princípios a serem seguidos, eles são um conjunto de ideias, para serem obedecidas e preservarem determinados interesses. Em um primeiro momento, pareceria a confirmação daquele sentido meio que “senso comum” da Ideologia. Porém, segundo Geertz, justamente o contrário. Ele leva em consideração a seguinte linha de pensamento: ainda que arbitrária, uma norma socialmente aceita representa a forma como aquela sociedade em particular resolveu ou organizou um determinado fato social concreto. Assim sendo, aquela conotação de indução de erro deve ser compreendida como uma forma particular, em que uma determinada sociedade deu a solução de um fato concreto. Por isso, entende Geertz (2008, p. 112) que as singulares culturas, na verdade, representam igualmente singulares ideologias. Elas não são um falseamento, mas uma forma de organização das sociedades.

A distinção entre o “senso comum” e demais sentidos da Ideologia caberia à exploração realizada pelas Ciências Sociais. Ou seja, na análise que a ciência faz de algum fato social concreto. No entanto, Geertz chama atenção ao fato de que ao fazê-lo, as Ciências Sociais podem ser também altamente ideológicas se “supersimplificar” (GEERTZ, 2008, p. 118) suas análises, reproduzindo emoções e preconceitos. Isso pode ocorrer por razões diversas. Em geral, a afirmação de que as Ciências Sociais é uma ciência jovem é razão mais assinalada. Essa característica não permitiria à ciência a “solidez institucional necessária” (GEERTZ, 2008, p. 108) às suas explorações analíticas. O ainda breve tempo de surgimento das Ciências Sociais é uma explicação? Sim. Porém, não completamente, já que a ciência dispõe de meios para evitar este aspecto mais ideológico de suas análises. No entanto, para que isso seja possível, é necessário que seus especialistas se armem de um arcabouço teórico-metodológico mais elaborado e sofisticado. Afinal, aquela “supersimplificação”, que reproduz emoções e preconceitos, ocorre por uma distorção ou incompetência nas análises. Constituir ferramentas de análise próprias – as teorias – que deem conta das regularidades da organização social é, portanto, o elemento chave para se evitar as assertivas mais ideologizadas por parte da ciência.

Entre o “senso comum” e a produção acadêmica, às vezes, a distância pode ser pequena. É o que se pode perceber na análise elaborada por Clifford Geertz em relação ao conceito Ideologia. Em geral, entendido como um conjunto negativo, já que sua própria proposição seria a indução dos indivíduos ao erro. No entanto, afirma o autor, em uma compreensão mais ampla, de certa maneira, somos cercados por distintas ideologias. Essa perspectiva ocorreria à proporção que estamos inseridos em algum coletivo social, que invariavelmente produz sua cultura, portanto, sua própria ideologia. Caberia às Ciências Sociais, em certa medida, separar o conceito do seu “senso comum”. Embora ela própria corra o risco de realizar um papel ideologizante, em razões diversas, por ser ciência recente. Fato a ser evitado através da constituição de teorias conceituais mais elaboradas.

[1] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Resenha do texto “A Ideologia como Sistema Cultural”

Resenha do texto “A Ideologia como Sistema Cultural”

Referência bibliográfica

GEERTZ, Clifford. A Ideologia como Sistema Cultural. In: A Interpretação das Culturas. 1.ed. [Reimpr.]. Rio de Janeiro: LTC, p. 107 – 134, 2011.

Mateus Antonio de Almeida Neto (GERTS)


Antropólogo estadunidense, Clifford Geertz(1926-2006) destacou-se na cena acadêmica nos anos sessenta do século XX ao focar sua atenção na então ignorada “antropologia simbólica” ou “antropologia interpretativa”, na qual os símbolos são vistos como veículos de cultura. Autor de diversos ensaios, artigos e livros, sua obra “A Interpretação das Culturas (1973)” é uma das mais conhecidas pelo público brasileiro e referência em diversos campos das Ciências Sociais.A cultura, para o antropólogo, deve ser vista como um texto socialmente elaborado e, como contexto, no qual os comportamentos adquirem inteligibilidade.Além disso, a análise literária e textual é uma constate em seus trabalhos, como o universo das questões microscópicas em relação às explicações marco e totalizantes,comum no período entre e pós-guerra. 

Em “A Ideologia como Sistema Cultural”, Geertz destaca que uma das ironias da história intelectual moderna é o fato de o termo “ideologia” ter se tornado totalmente ideológico. Anteriormente significava uma coleção de propostas políticas, um tanto intelectualizadas e impraticáveis; mas tornou-se um conceito com afirmações, teorias e objetivos integrados que constituem um programa político-social com uma implicação de propaganda convencional, a exemplo do fascismo, que foi alterado na Alemanha para servir à ideologia nazista, entre outrosque circundou e invadiu a vida pública nos países ocidentais durante os séculos XIX e XX, ameaçando alcançar a dominação universal. 

No texto, o autor indaga o que o conceito de ideologia, mesmo com tantas contribuições no campo científico, está fazendo entre as ferramentas analíticas de uma ciência social que, à base de uma alegação de objetividade, avança suas interpretações teóricas como visões da realidade social, se o poder crítico das ciências se origina de seu desprendimento, portanto, esse poder não estaria comprometido quando a análise do pensamento político é governada pelo mesmo?Sobre tal prisma, aprofundou a discussão a partir de algumas questões, entre elas, se a absorção de um referente próprio, ideológico, propõe a destruição sobre a utilidade científica do conceito? Outra,se pode continuar a ser um conceito analítico, já que propõe uma concepção de ideias enraizadas na sociedade?

Dessa forma, Geertz enveredou através da formação do homem acadêmico: a adesão disciplinada a processos impessoais de pesquisa, o isolamento institucional, o compromisso vocacional com a neutralidade, o conhecimento cultivado e corrigido dos próprios preconceitos em vista das discussões para o autoconhecimento, o que ainda gera discussão dentro da própria ciência social.

O autor também destaca que a teoria da “ação simbólica” praticamente foi intocada pela ciência social, a questão de como símbolos enraizados na sociedade são significados e funcionam no sentido da análise como uma forma de apreender, formular e comunicar realidades sociais que podem esquivar-se à linguagem da ciência e formar padrões socioculturais, assim como o uso de metáforas no sentido de fazer analogias. 

Em suas pesquisas, ao lidar com a ideologia como uma entidade em si mesma, Clifford a trabalhou como um sistema ordenado de símbolos culturais, traduzidos diante dos distintos contextos social e psicológico. Para o antropólogo, o cientista social deve analisar sua corporificação de símbolos como suas limitações e traduzi-los em forma de texto, como pensamento ordenado; o contrario poderia trazer implicações equivocadas ou ideológicas, deformada ou viciada por preconceitos e emoções pessoais- o que parece ser uma crítica aos estruturalistas que buscavam explicações macro e generalizantes. Dessa forma,afina seu caleidoscópio para as superestruturas. 

Com a contribuição das ciências sociais percebeu que,as ideologias são conduzidas por um conjunto de crenças coerentes e abrangentes.Dualista, opõe o nós contra o eles.Alienante, trabalha no sentido de articular, atacar e destruir instituições políticas estabelecidas.Doutrinária, reclama a posse completa e exclusiva da verdade política e abomina o diálogo.Totalista objetiva ordenar a vida social e cultural a partir de seus ideais.Futurista, diz trabalhar por um fim visto como utópico, como demonstra a análise científica.

No texto, Geertz destaca duas abordagens principais aos estudos dos determinantes sociais da ideologia: a “teoria do interesse” e a “teoria da tensão”. A primeira, cunhada por uma espécie de tradição marxista,parece constituir o equipamento intelectual-político padrão do homem de rua, no qual o enraizamento das ideias-sistemas culturais dar-se no terreno da estrutura social, através dos que professam e dependem de tal sistema, e volta-se para a luta dita de classe.Denota que as ideias políticas são armas, uma forma de institucionalizar uma visão particular da realidade – a do grupo, classe ou partido – e assim apossar-se do poder político e reforçá-lo na busca por vantagens, o que é comum observar nas repúblicas mais jovens, no embate dito entre esquerda e direita.

Já a “teoria da tensão”, parte do sentido da análise contextual mais sistemática, na relação entre o eu e o outro, no sentido em que nenhum arranjo é ou pode ser bem-sucedido com os problemas funcionais que enfrentam, haja vista as descontinuidades e discrepâncias entre os diferentes setores da sociedade: a economia, a comunidade política, a família, entre outros. É através da experiência do ator social que as imperfeições e as contradições sociais se exacerbam.

Na Indonésia da segunda metade do século XX era comum essa observação, pois o processo político estava associado a símbolos ideológicos na tentativa de desembaraçar o catálogo da República e dar um sentido e um propósito à comunidade politica.O conceito de governo desenvolvido na Indonésia, por exemplo, fora elaborado de forma tradicional, como os Estados clássicos fora hinduizados nos séculos IV a XV, depois revistos e enfraquecidos pós terem sido primeiro islamizados e, depois, substituídos pelo regime colonial holandês.O crescimento constante, associado ao controle administrativo holandês em meados do século XIX e principio do XX, como a diversidade étnica, geográfica, religiosa e de símbolos restringiu mais a tradição.De outro lado, o crescimento do papel político do exército, desde a presidência e o serviço civil, até os partidos e a imprensa, forneceu a outra metade ameaçadora do quadro tradicional.

Nesse sentido, Geertz enfatiza que as diferenças entre ciência e ideologia, como sistemas culturais, devem ser analisadas entre as estratégias simbólicas que englobam situações que elas representam. A ciência nomeia a estrutura das situações de tal forma que revela, no conteúdo de sua atitude, seu desinteresse. Seu estilo é contido, analítico e procura maximizar a clareza intelectual. A ideologia, porém, nomeia a estrutura das situações de maneira tal que revela em sua atitude um compromisso com elas. Seu estilo é ornamental, deliberadamente sugestivo e procura motivar a ação. Ambas se preocupam com a definição de uma situação problemática e constituem resposta a uma falta sentida de informações. “Enquanto a ciência é a dimensão de diagnóstico, de critica da cultura, a ideologia é a dimensão justificadora, apologética – refere-se à parcela da cultura que se preocupa ativamente com o estabelecimento e a defesa dos padrões de crença e valor” (GEERTZ, 2011, p. 133).

No texto “Ideologia como Sistema Cultural”, o autor destaca que a teoria da “ação simbólica” fornece mecanismos no sentido de analisar a sociedade segundo modelos ou padrões nativos, através de um conjunto de símbolos que consiste na construção de um modelo ou imagem dos aspectos culturais relevantes de uma determinada sociedade, o que Geertz denominou de “teoria extrínseca”. Portanto,é através da construção de ideologias, de padrões esquemáticos da ordem social, que o homem pode fazer de si mesmo, um animal político.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Documentário Índios no Imaginário Sergipano

                                        
                                Vídeo realizado por Diogo Monteiro, Joelma Dias e Kléber Rodrigues

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Antirracismo


Artigo Antirracismo, publicado na Revista de Estudos de Cultura (REVEC). Faz uma reflexão sobre o uso e os sentidos do vocábulo antirracismo, principalmente nos países de Língua Portuguesa. A proposta é perceber em que contextos o mesmo é e foi utilizado em oposição às noções de racismo, dando centralidade aos seus usos no Brasil, mas também analisando-os nos países africanos de Língua Portuguesa e em Portugal. Neste sentido, é importante relacionar tal reflexão às conexões históricas com o colonialismo, experimentadas pelos países em questão, que implicam dimensões reflexivas sobre os sentidos de raça, discriminação, preconceitos e possíveis ambiguidades.

http://www.seer.ufs.br/index.php/revec/article/view/4248

domingo, 13 de setembro de 2015

Resenha do texto "The integrative revolution" de Geertz



Referência bibliográfica
GEERTZ, Clifford. The integrative revolution: primordial sentiments and civil politics in the new states. In:_____. Old societies and new estates: the quest for modernity in Asia and Africa. New York/N.Y./USA: The Free Press of Glencoe, 1963, p. 105-157.

Diogo Francisco Cruz Monteiro (Faculdade Pio Décimo/GERTS)

Clifford Geertz (1926-2006) foi um antropólogo estadunidense, professor da Universidade de Princeton, em Nova Jersey. Foi o fundador da Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa, que floresceu a partir dos anos 1950, representando um divisor de águas na teoria antropológica contemporânea.
A epistemologia de Geertz se desenvolveu como um contraponto ao modelo estrutural Levi-straussiano. Para o estruturalismo, o conhecimento deveria originar-se da elaboração de conceitos abstratos que explicariam, de modo homogêneo, os diversos contextos empíricos observados pelo analista. Já o viés interpretativo, propagado por Geertz, baseava-se na ideia de que a compreensão dos fenômenos sociais deveria partir dos casos concretos - da empiria - através dos quais a elaboração de teorias amplas seria possível.
Estudioso dos temas sobre religião, Geertz realizou pesquisas de campo na Indonésia e no Marrocos. Dentre as suas obras publicadas, destacamos: Islam Observed (1968), A Interpretação das Culturas (1973), Negara. The theatre-state in Bali (1980), O Saber Local (1983), Obras e vidas (1988), After the fact (1995) e Nova Luz Sobre a Antropologia (2000).
Em The integrative revolution: primordial sentiments and civil politics in the new states, Geertz pretende introduzir o conceito de “primordial attachments” (apego ao primordial), fenômeno por ele observado como obstáculo para a formação da unidade nacional na Ásia e África pós-coloniais.
Geertz propõe que os povos dos novos estados pós-coloniais são movidos por duas entidades dominantes opostas: a necessidade de serem aceitos como indivíduos com desejos particulares e a intenção de constituir um moderno estado unificado.
Dessa forma, o autor parece indagar: “até que ponto é possível alcançar a homogeneidade sócio-cultural no seio das sociedades pós-coloniais, caracterizadas por um caleidoscópio de culturas, costumes e tradições? Seria viável assegurar, nesses novos estados, a coexistência pacífica entre grupos sociais tão diversos?”.      
Nesse sentido, o autor aponta que as tentativas de construção da nacionalidade nos novos estados, por meio do viés “primordialista” – homogeneizador - ocasionam uma série de tensões, em decorrência da diversidade das culturas dos povos que os compõem.
Dessa forma, Geertz considera que os desafetos entre os povos nos novos estados se originam do “primordial attachments” – apego ao primordial – entendido como uma “dádiva”, entidade que tem o poder de conceder a existência social aos indivíduos. Essa “dádiva” da existência social pode estar relacionada às similaridades imediatas, relações de parentesco, pertencimento às comunidades e culturas particulares. (GEERTZ, 1963, p. 107).
Geertz destaca ainda que, no contexto dos nacionalismos nos estados pós-coloniais, há uma menor referência às sociedades plurais ou múltiplas. Isso, segundo o autor, gera problemas de separatismo, “paroquialismo” ou “comunalismo”, descontentamentos baseados nos traços sanguíneos, concepções de raça, língua, região, religião, costumes e tradições.
Ao refletir sobre a perspectiva primordialista como fonte de tensões sociais nos países asiáticos e africanos, envolvidos em “revoluções integradoras” no período pós-independência, Geertz demonstra que há, dependendo do contexto social focalizado, uma diversidade tanto nos padrões de postura primordial quanto nas respostas políticas a eles direcionadas.  
Nesse particular, o autor descreve os diferentes conflitos envolvendo segmentos sociais diversos em países como a Indonésia, Malásia, Birmânia, Índia, Líbano, Marrocos e Nigéria. Para cada situação observada, indicam-se as fontes primordialistas das tensões sociais: regionalismo (Indonésia), raça (Malásia), língua (Índia), religião (Líbano), costume (Marrocos) e parentesco (Nigéria). 
            Assim, Geertz informa, para o caso da Índia, sobre a fundação do Congresso Nacional Indiano, partido que adotava uma postura cosmopolita e etnicamente neutra, com o fim de angariar a aliança dos grupos políticos locais.  O autor destaca, ainda, as dificuldades enfrentadas pelo partido, no sentido de lidar com o descontentamento primordial dos diversos grupos sociais indianos.

... o Congresso é [...] um partido nacional e se tornou a mais importante força centralizadora, não se compondo nem como uma confederação primordial de subpartidos nem como agência de assimilacionismo do grupo majoritário. [...] o Congresso tornou-se etnicamente neutro [...] tal como uma força cosmopolitana em nível nacional ao mesmo tempo em que construiu uma multiplicidade de máquinas partidárias paroquiais, separadas, independentes. Desse modo, nas eleições de 1957 [...] o Congresso se envolveu numa guerra em várias frentes, lutando em diferentes batalhas eleitorais em vários estados, contra diferentes tipos de oponentes capitalizando sobre diferentes tipos de descontentamentos – contra os comunistas em Kerala, Bengal e Andhra, contra partidos religiosos comunais em Punjab, Uttar e Madhya Pradesh, contra uniões tribais em Assam e Bihar, contra frentes etno-linguísticas em Madras, Maharashtra e Gujerat... (GEERTZ, 1963, p. 122-123, tradução nossa).

Portanto, Geertz conclui suas reflexões admitindo que a ideia de nação, nos novos estados, baseia-se na difusão dos sentimentos primordiais, que segregam ou assimilam – através de um “etnocentrismo moderno” - a diversidade dos povos. Isso pode ser considerado o motivo das tensões em regiões historicamente caracterizadas pelas diferenças culturais.        
            Em The integrative Revolution, por meio da sua teoria sobre “o apego ao primordial”, Geertz transmite uma compreensão aprofundada acerca das complexidades políticas e identitárias que permeiam a construção das nacionalidades nos estados pós-coloniais. Portanto, a leitura desse artigo é necessária para um melhor entendimento das relações entre identidades, pertencimentos e nação no contexto contemporâneo.



segunda-feira, 3 de agosto de 2015