terça-feira, 4 de agosto de 2020

Rodas de Conversa: “Gênero e trabalho no contexto do isolamento - Problemáticas e Alternativas”



O evento ‘Gênero e trabalho no contexto do isolamento’ é uma iniciativa do GT Estudos de Gênero, vinculado ao Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas - GERTs, da Universidade Federal de Sergipe. Este evento nasceu a partir de nossas próprias experiências vivenciadas com o início do isolamento causado pela pandemia do Covid-19, e se desenvolveu nos diálogos que traçamos em nossos encontros virtuais nos últimos meses. Ao mesmo tempo que busca somar-se aos esforços que estão sendo realizados em diferentes âmbitos sociais para visibilizar as dificuldades que envolvem esta relação entre gênero e trabalho no contexto da quarentena, também visa compartilhar e ampliar o laço de união entre as mulheres, abrindo espaço para diferentes realidades e atentas às interseccionalidades com marcadores sociais como raça, classe e sexualidade que vão se traduzir de formas distintas nas vidas práticas de cada mulher.


Datas: Terças (11, 18, 25 de agosto, 1 e 8 de setembro) 


Horário: 16h às 18h


Inscrições: https://bit.ly/inscricao_generoetrabalho


Apoio: Observatório da Democracia (UFS) e Grupo Estudos Decolonais (UNIT).


Para dúvidas, entre em contato através do e-mail: gtestudosdegenero@gmail.com


Programação:


11 de agosto - Roda de Conversa sobre Trabalho Docente
Mediadora: Lídia Matos
Participantes: Fernanda Xavier Maia, Mara Raissa Santos Silva e Freitas, Mayara Nascimento e Mayra Ébano


18 de agosto - Roda de Conversa sobre Maternidade
Mediadora: Danielle de Noronha

Participantes: Luciana Oliveira, Manoela Veloso e Mélanie Létocart


25 de agosto - Roda de Conversa sobre Raça e Comunidades Tradicionais

Mediadora: Ana Nobre
Participantes: Claudeane Bispo, Elienaide Flores, Geonísia Dias, Karine Santos e Yérsia de Assis


01 de setembro - Roda de Conversa sobre Trabalhadoras Domésticas
Mediadora: Maria Teresa
Participantes: Fernanda Amorim Accorsi, Quitéria Santos e Maria Vera de Almeida Nunes


08 de setembro - Roda de Conversa sobre Mulheres Trans

Mediadora: Ana Paula
Participantes: Adriana Lohanna, Jessica Taylor e Linda Brasil 


Sobre as participantes das rodas:


Roda de Conversa sobre Trabalho Docente Lídia Matos, mestra em Antropologia, professora de Sociologia, produtora de conteúdo digital. (@vidadeeducadora). Fernanda Xavier Maia possui licenciatura em Letras Português (Unimontes) e mestrado em Estudos Literários (PPGEL- Unimontes); Atualmente é professora de Língua Portuguesa na educação básica na zona rural de Diamantina- MG da rede pública; também desenvolve projetos com ilustração, cinema e literatura. Mayara Silva Nascimento, cientista social, mestra e doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Socióloga pelo Ministério Público do Trabalho. Participante do Laboratório de Estudos do Poder e da Política - UFS. Docente no Centro Universitário UNIAGES. Mayra Ébano, professora de Filosofia, especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior e em Gestão Escolar e militante da Unegro Sergipe. Mara Raissa Santos Silva e Freitas possui graduação em Ciências Sociais (UFS) e mestrado em Sociologia (PPGS- UFS). Atualmente é professora na educação básica na rede privada de ensino. Faz parte do Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas (GERTs/ UFS). Roda de Conversa sobre Maternidade Danielle de Noronha é mãe de Camilo, jornalista, antropóloga e professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe. É doutora em Mídia, Comunicação e Cultura e mestra em Antropologia. Entre seus temas de pesquisas estão cinema, imagem, gênero, feminismo e decolonialidade. Desenvolveu uma pesquisa sobre maternidades nas rodas de conversa do projeto Parir - Parto Domiciliar Planejado no Vale do Capão (BA). Luciana Oliveira é mãe e cineasta e acredita na construção de um mundo melhor através do cinema, construindo imagens que possa ser um espelho mais representativo para sua filha e os filhos dos outros no futuro. Ver o cinema de forma circular e coletiva, em que a escuta e o respeito é presente no diálogo entre diretores e demais funções da equipe, em que todos são autores alí trabalhando como em uma orquestra, regida por uma direção que nutre a escuta e a liderança. É mestra em Cinema e Narrativa Sociais pela Universidade Federal de Sergipe, pesquisa o Cinema Negro no Feminino e as políticas da coletividade nesses filmes. É co-idealizadora da EGBE - Mostra de Cinema Negro de Sergipe. Cineclubista no Cineclube Itinerante Candeeiro e sócia na Rolimã Filmes. Manoela Veloso se tornou mãe em 2016 e desde antes trabalha em diversas funções do audiovisual (direção, produção, edição), e mesmo em áreas diferentes, tais como cinema e publicidade. Hoje é sócia na produtora Rolimã Filmes e acredita em construção de um mundo novo com uma democratização dos meios de produção de imagens e significados. Com a maternidade redescobriu na pele as opressões sobre a mulher, e assume por ela e por Olga sua parte nesse processo de redesenhar o passado e o futuro através do presente. Mélanie Létocart, mãe de três filhos, professora da UFS, tem doutorado em Estudos literários (EZLN-Literatura indigenista mexicana) e é membro dos grupos de pesquisa: CELLAM (Universidade de Rennes 2) e Dinterlin (UFS). Temas atuais de pesquisa: literatura hispano-americana, feminismos, maternidades, Gioconda Belli. Roda de Conversa sobre Raça e Comunidades Tradicionais Erna Barros é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e graduada em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Faz parte do Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas - GERTs (UFS).


Claudeane Bispo, quilombola do quilombo Brejão dos Negros/SE e sócia na associação Santa Cruz. Esta à caminho da formação em pedagogia. Integrante regional da Diocese de Propriá (Caritas). Catequista, militante, artesã, professora agricultora, agente de turismo de base comunitária, integrante do grupo de dança Batuqê Dance Aye e super dotada na culinária. Elienaide Flores é educadora popular, catadora de mangaba, militante e marisqueira desde sempre. Geonísia Dias é mulher, mãe, avó, marisqueira, do Movimento de Marisqueiras de Sergipe, conselheira do Peac e membra do Conselho Municipal de Saúde de Estância.


Karine Santos foi presidenta da Associação de Mulheres da comunidade por dois mandatos, fez parte do projeto GATI (Gestão Ambiental Territorial Indígena) e fez o curso da PNGATI o qual abriu sua a mente para o movimento indígena. Yérsia de Assis faz parte do Samba de Aboio/Aguada/Sergipe; Ekédjí no Ilê Axé Omin Mafé. Doutoranda em Antropologia pela UFSC/PPGAS/NUER. Participa da Rede Kadila - culturas e ambientes/Brasil e Angola; Integrante da Ong Casa de Mar/Sergipe e do Coletivo de Estudantes Negras e Negros Beatriz Nascimento/UFS. Vinculada ao NEABÍ/UFS; GERTS/UFS. Integra a Sociedade Omolaàiyé/Sergipe. Roda de Conversa sobre Trabalhadoras Domésticas Maria Teresa Ruas é mestra em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e doutoranda pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Fernanda Amorim Accorsi é professora do Departamento de Educação (DEDI), do Campus Alberto Carvalho, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenadora do Grupo de Pesquisas e Estudos em Práticas Educativas, Corpo e Ambiente (PEPECA). Doutora e mestra em Educação. Especialista em Comunicação e Educação. Jornalista e Pedagoga. Quitéria Santos, vice-presidenta do Sindicato das Trabalhadoras e Trabalhadores Domésticos do Estado de Sergipe, faz parte da direção da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas e da direção da Cut, militante da Marcha Mundial das Mulheres e do PT. Maria Vera de Almeida Nunes, conhecida como Dona Vera, é trabalhadora doméstica. Roda de Conversa sobre Mulheres Trans Ana Paula O. Barros é professora de Artes da rede estadual de Sergipe, mestre em Antropologia e doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense. Entre seus temas de pesquisa estão, corpo, imagem, sexualidade e gênero. Adriana Lohanna dos Santos é ativista LGBTQI+, mestra em Educação (PPGED/UFS), professora licenciada em Letras e assistente social. Referência Técnica em Políticas Públicas para população LGBTQI+ - SEAS /SE. Pesquisadora na Área de Gênero e Diversidade Sexual, especialista em Coordenação Pedagógica e especialista em Gênero e Sexualidade na Educação. É pesquisadora do Grupo de Pesquisa Educação, Cultura e Subjetividades - GPECS - UFS. Jessica Taylor é presidenta da UNIDAS e pós-graduando em gênero e sexualidade na educação pela UFBA. Linda Brasil, mestra em educação e militante feminista, LGBTQIA+ e transfeminista.


Enquanto a Pandemia Rola: "Gênero, pandemia e o impacto cotidiano sobre as mulheres"



Na próxima sexta, dia 7 de agosto, das 15h às 17h, o Observatório da Democracia da UFS, em parceria com o Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interéticas (GERTs/UFS) e com o Grupo de Estudos Decoloniais (UNIT), realiza mais uma edição do evento online Enquanto a Pandemia Rola, com o tema “Gênero, pandemia e o impacto cotidiano sobre as mulheres”.

A mesa contará com a participação das professoras Dra. Yara Frateschi (IFCH/Unicamp) e Dra. Patrícia Rosalba (PPGA/UFS), da psicóloga e pesquisadora Taynã Querino e mediação da professora Dra. Danielle Parfentieff de Noronha (DCOS/UFS).

As inscrições podem ser realizadas via Sigaa/UFS

terça-feira, 30 de junho de 2020

Enquanto a Pandemia Rola

Enquanto a Pandemia Rola é uma atividade semanal do Observatório da Democracia - UFS. Ouça a sessão: Impactos nas Comunidades Tradicionais Quilombolas, gravada em 26/06/2020, com Dany Xocó, João Victor Pankararu, Wellington Quilombola e Wellington Bomfim.


Para Acesso no Youtube



sábado, 18 de abril de 2020

Cientistas Sociais e o Corona Vírus


A ANPOCS - Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais está publicando semanalmente boletins sobre o tema do COVID19 sob o olhar dos Cientistas Sociais. Acompanhem:
http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2325-boletim-semanal

sábado, 4 de abril de 2020

O conceito de gênero e seu uso prático em pesquisas nas Ciências Sociais


Foto: Erna Barros

GT Estudos de Gênero 
Ana Paula O. Barros (PPGCOM/UFF)
Danielle Parfentieff de Noronha (DCOS/UFS)
Élida Braga (PPGS/UFS)
Erna Barros (PPGS/UFS)
Lídia Matos (SEC/BA)
Mariana Rocha (GERTS/UFS)
Raissa Freitas (GERTS/UFS)
Renata Maria Santos Lima (DED/UFS)
Maria Teresa Ruas (PPGS/UFS)


Com o objetivo de refletir sobre o que é ser mulher e quais são as possíveis causas das opressões que são vivenciadas pelas mulheres, Simone de Beauvoir, em 1949, publica o clássico O Segundo Sexo e a ideia de que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. O livro é um marco importante para o feminismo ocidental e abriu portas para estudos posteriores que irão culminar no conceito e interpretações sobre o gênero. Ao analisarmos o contexto em que ele foi produzido, quando poucas mulheres tinham espaço na filosofia, o livro de Beauvoir se torna ainda mais relevante. Entretanto, ele é apenas o início. 

O livro está localizado geográfica e socialmente num contexto específico e foi necessário ampliar a visão sobre o que é ser mulher e colocar a questão no plural, olhando para a diversidade e especificidades que são vivenciadas nas mais distintas realidades. Como exemplo, podemos citar o livro Mulheres, Raça e Classe, publicado em 1981 por Angela Davis, que visibiliza as singularidades que são causadas pela intersecção com raça e classe social. Além disso, com o passar do tempo, a ideia de que se ‘torna mulher’ se amplia ainda mais: o gênero se distancia do sexo biológico e começa a ser compreendido como construção social (Scott, 1990), que está vinculado a discursos, culturas, processos identitários e vivências particulares, tanto no sentido individual quanto coletivamente.

Nesse sentido, pesquisadoras brasileiras começaram na década de 1980 a refletir sobre essa especificidade também regional, buscando compreender mais a realidade das mulheres brasileiras e seus diferentes marcadores sociais (Cadwell, 2000), como, por exemplo, Lelia Gonzalez, além de também, principalmente nos últimos 10 anos, começarmos a considerar outras epistemologias possíveis para os estudos de gênero, como aquelas que pensam outras formas de saber através da decolonialidade do poder, do conhecimento, do ser (Machado et. al, 2018) e do próprio gênero (Lugones, 2008).

A compreensão do gênero como construção social ainda abre espaço para pesquisas que pensem os gêneros, também no plural, e comecem a discutir temas relacionados à identidade de gênero e à sexualidade (Grossi, 1998). Desde as ciências sociais, o olhar para os distintos grupos a partir dos estudos de gênero possibilitaram que muitas pesquisas pudessem refletir sobre as relações de poder e como são construídos culturalmente os diversos papéis sociais, como no caso dos temas relacionados às juventudes (Weller, 2005), principalmente a partir dos anos 2000.

Ademais, vale ressaltar que, dos termos cultura e identidade surgem discussões sobre diferença e diversidade, os quais suscitam as intersecções de raça, gênero e classe. Para tanto, percebe-se modos diferenciados de pensar na produção da diferença e da desigualdade em experiências cotidianas que, de modo articulado, evocam outros elementos que nos ajudam a compreender as violências em termos de gênero, raça e classe, os quais se constituem em marcadores sociais da diferença, vistos de maneiras interseccionadas (Brah, 2006).

O gênero em nossas pesquisas

Este texto foi desenvolvido a partir das leituras que realizamos no primeiro momento do GT Estudos de Gênero, vinculado ao GERTs, e neste tópico vamos apresentar como cada participante do grupo traz a questão de gênero para suas pesquisas, apresentando na prática as possibilidades de diálogo com este conceito nas ciências sociais. 

No bojo dos estudos de juventudes, a crítica perpassa pela ausência de pesquisas que focalizam o papel que os grupos juvenis assumem na construção das identidades femininas, ou seja, para além de questões relativas à sexualidade e a maternidade (Weller, 2005). Nesse sentido, uma pesquisa recente , intitulada “Jovens mulheres, hip hop, estilos de vida e  feminismo”, desenvolvida por Raissa Freitas, consiste em analisar os significados da participação de mulheres ligadas ao Hip-Hop na região metropolitana de Aracaju/SE. Considerado como movimento juvenil contemporâneo e de grande visibilidade, o Hip-Hop conta com um público majoritariamente masculino. No entanto, observa-se um crescimento significativo de mulheres em suas expressões artísticas seja no rap, no grafite, seja no break. Desta forma, foi possível pensar a participação feminina nessa cultura a partir das identificações, dos discursos e das práticas que se constroem nesse contexto, mas também compreender como se dão atualmente as relações de gênero e as sociabilidades estabelecidas nas práticas culturais que envolvem esse universo.

Já a pesquisa intitulada “Uma Cidade muda não muda: graffiti e mulheres no espaço público”, realizada por Erna Barros na cidade de Aracaju-SE, propõe uma leitura do graffiti enquanto fenômeno urbano em diálogo com a estrutura da cidade como espaço de disputas a partir de uma perspectiva de gênero. A autora buscou contribuir para uma discussão sobre o transitar das mulheres pelo ambiente público “por sobre os ombros” de grafiteiras que ressignificam estes espaços, apoiadas na representação de entendimentos sobre uma cidade pensada e planejada segundo uma ideia de universalidade do humano, ou seja, uma perspectiva hegemônica do masculino em detrimento do feminino. A identificação de uma “hostilidade à presença das mulheres” no espaço público se dá a partir do acompanhamento de grafiteiras utilizando o registro fotográfico e fílmico como dispositivo de pensamento e da observação dos usos cotidianos e discursos da, para e através da cidade junto à prática do graffiti como ferramentas de representação, contestação e expressão. Sob um olhar de gênero, a hostilidade da cidade se apresenta em decorrência das relações sociais e desiguais de poder entre homens e mulheres, que irão aparecer no dia a dia na forma com que ambos ocupam e vivenciam suas experiências nas cidades. 

Neste sentido, partindo do pressuposto que homens e mulheres possuem necessidades diferentes no espaço urbano e suportam as ocorrências neste ambiente também de maneiras distintas, a pesquisa intitulada “O corpo feminino no espaço urbano: desigualdades e resistências de uma vivência”, realizada por Mariana Rocha, propõe uma análise sobre o corpo feminino que, como sujeito, ocupa os espaços públicos, mas também busca conquistar lugar de fala na cidade. A autora buscou expandir a temática da experiência urbana, levando em conta a diversidade de condições humanas presentes no espaço público, como em todos os espaços da vida em sociedade. Neste intuito, a pesquisa foi realizada através de uma ponte construída com a disciplina Cultura, Paisagem e Cidade, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes, que propõe uma aproximação sensível com a cidade, através de errâncias exploratórias, junto com uma abordagem interdisciplinar em estudos da paisagem. Nesta exposição, acaba-se por provocar a vivência das relações sociais estabelecidas no espaço urbano, onde foi possível identificar a fragilidade existente na ocupação feminina do espaço público, que historicamente são produzidos no modelo patriarcal.  Assim, a luz dos estudos de gênero e estudos da paisagem, investiga-se quais elementos definem e condicionam a vivência feminina na cidade. 

Ainda sobre o corpo, mas a partir do diálogo com as artes e com a comunicação, a pesquisa intitulada “Reinvenções do feminino, corpos e sexualidades: Um mapeamento das artes gráficas contemporâneas produzidas por mulheres”, realizada por Ana Paula Oliveira Barros, entende as artes gráficas como um espaço de comunicação, sendo também uma importante referência para a construção da imagem feminina. Nas sociedades ocidentais, tanto o corpo de um modo geral como a sexualidade feminina em particular, foram durante muito tempo representados de modos idealizados por homens e para homens, de acordo com um conjunto específico de discursos acerca do que significa ser mulher. É possível apontar esses discursos como predominantemente patriarcais, que têm inundado a sociedade ocidental com visualidades heteronormativas e racistas, sempre colocando o corpo da mulher numa situação de objeto de desejo a ser observado e utilizado pelos homens. Considerando a riqueza desse objeto, a pesquisa se propõe a fazer uma análise genealógica de certas transformações históricas que afetaram tais representações ao longo dos últimos dois séculos. O objetivo final consiste em investigar de que maneira, nas últimas décadas, algumas artistas gráficas têm abordado o erotismo em suas obras, construindo assim as suas próprias subjetividades ao adotar diferentes estratégias de combate aos discursos hegemônicos em torno à feminidade. Nesse processo, estão acontecendo importantes reinvenções dos sentidos atribuídos aos corpos e às sexualidades associadas ao feminino. 

Já com as reflexões produzidas dentro do feminismo negro, acompanhamos um crescente números de estudos como o de Lélia Gonzalez (1988) que vai analisar como esse corpo feminino e negro é percebido. Ela destaca a estigmatização desses corpos, ora como mulata, ora como um corpo servil. Este é um esforço de produção de conhecimento acerca das mulheres negras da perspectiva das próprias sujeitas. A pesquisa desenvolvida por Lídia Matos segue essa linha no esforço em compreender como são produzidos conteúdos sobre os cabelos crespos e cacheados, oportunizados pelo movimento de transição capilar, em que analisa produtoras de conteúdo que postam vídeos em canais no YouTube e elaboram um conhecimento específico sobre os cabelos e seus cuidados, mas não apenas isto, refletem a partir desse referencial estético sobre a construção das identidades em torno das questões raciais e os desafios dentro do contexto brasileiro.

Também através dessa relação com a comunicação e a arte, Danielle de Noronha, na tese “Representacionesde la diferencia:Género, raza y trabajo en la prensa hegemónica brasileñabuscou entender como as representações relacionadas à gênero, em intersecção com raça e trabalho, veiculadas no jornalismo hegemônico brasileiro atuam para a manutenção de relações de poder. O jornalismo, que possibilita pensar sobre a coexistência entre discurso e realidade, é entendido como um importante mecanismo de formação de opiniões sobre o mundo que nos rodeia. Deste modo, a pesquisa parte do pressuposto que a imprensa exerce grande influência nos processos identitários, atua na (re)formulação de tradições, memórias e estereótipos sociais, além de ser um dos principais meios em que se (re)produz o padrão colonial do poder, do saber e do ser, que influencia tanto o imaginário como a vida prática social. Danielle atualmente também desenvolve uma pesquisa sobre a relação entre gênero e cinematografia, pensando na relação entre aquelas e aqueles que estão atrás das câmeras com as representações relacionadas à gênero no audiovisual brasileiro, e sobre os discursos relacionados ao parto, ser mulher e ser mãe nas rodas do projeto Parir- Parto Domiciliar Planejado do Vale do Capão (BA).

Interessada na questão do trabalho e suas transformações no bojo da ascensão neoliberal e da financeirização capitalista, Maria Teresa Ruas se deparou com a necessidade de um olhar interseccional sobre a realidade. Atenta ao ganho de força do debate sobre a desdemocratização brasileira em sua área de origem, a ciência política, em meio às tentativas de analisar os retrocessos democráticos que se aceleram no país nos últimos anos, a pesquisadora se propôs a identificar os impactos desses retrocessos sobre a superexploração do trabalho, base estrutural da acumulação no capitalismo periférico. Nessa trajetória, o tratamento dos trabalhadores em seu plural masculino e homogeneizador mostrou-se não só insuficiente à proposta de análise, como simplesmente irreal. A realidade do trabalho é concretamente composta por inúmeras transversais, entre as quais o gênero ganha protagonismo, mas não basta: e daí resulta a necessidade do olhar interseccional. Consciente de que tanto o enfoque que se pretende adotar na pesquisa, quanto a realidade localizada histórica, espacial e contextualmente se impõem na determinação de quais categorias de análise, dentre as inúmeras possíveis na análise interseccional, Maria Teresa passa a direcionar seu olhar para as trabalhadoras rurais. 

Elida Braga, em sua pesquisa de doutorado, nos leva a compreender os sentidos construídos sobre as adolescentes em conflito com a lei que cumprem medidas  socioeducativas por atos infracionais, na Unidade Feminina de Aracaju – UNIFEM, bem como aqueles produzidos a partir do Estado e dos envolvidos no sistema socioeducativo sob perspectiva de gênero. Com isso, aparece o modo pelo qual o Estado produz sentido sobre o que é ser mulher e como se aplica determinadas formas de intervenção sobre as adolescentes, além do desafio de trabalhar temáticas incomuns de modo sobreposto, a saber a adolescência e o gênero no contexto institucional estatal. Ademais, buscou-se nas adolescentes as percepções dos processos nos quais se constroem na condição de internas, como elas se percebem no processo e constroem a si neste contexto. 

Por último, sabendo que a educação é transformadora e que somente através dela podemos nos libertar das amarras da desigualdade, a pesquisa de Renata Maria pretende abordar a importância do acesso à educação para todos, todas e todes, sem distinção, para que assim então, ela cumpra seu papel. Para que uma educação seja transformadora é necessário incluí-la na sociedade de acordo com as realidades de cada grupo, a aula que será ministrada em uma escola pública de um bairro periférico, não vai ser a mesma aula dada em uma escola particular de um bairro burguês, a educação liberta quando se encaixa e colabora com o desprender das correntes que cada indivíduo possui. Partindo desse pressuposto, a autora fará uma pesquisa de campo em diferentes escolas, de diferentes regiões, detalhando a importância da educação naquele espaço e expondo as diferentes desigualdades presentes em cada uma. A luz de autores como Paulo Freire, Djamila Ribeiro, José Carlos Líbaneo, Angela Davis, dentre outros, a pesquisa trará as diferentes desigualdades presentes na sociedade, seja de gênero, seja de raça, seja de classe, e a importância da educação na transformação.

Com estes exemplos, esperamos visibilizar diversos trabalhos que estão contribuindo para o desenvolvimento das pesquisas relacionadas à gênero no âmbito das ciências sociais a partir de distintas realidades brasileiras, no geral, e principalmente sergipanas, no específico. 

Referências bibliográficas

BEAUVOIR, Simone.
O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000 [1949]. (Introdução e capítulo 3, vol.1).

BRAH, Avtar. Diferença, Diversidade e Diferenciação. In: BRAH, Avtar. Cartographies of diaspora: contesting identities. Longon/New York, Routledge, 1996, capítulo 5, p. 95-127. Cadernos Pagu (26) jan-jun de 2006, pp. 329-376.

CADWELL, Kia Lilly. Fronteiras da diferença: raça e mulher no Brasil. Estudos feministas, Florianópolis, v. 8, n.2, 2000. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/11922


DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo editorial, 2016.

GONZALEZ, Lélia. "Por um feminismo afrolatinoamericano". Revista Isis Internacional, Santiago, v. 9, p. 133-141, 1988. 


GROSSI, Miriam Pillar. "Identidade de Gênero e Sexualidade". Antropologia em Primeira Mão, n. 24, Florianópolis, PPGAS/UFSC, 1998. Disponível em: http://bibliobase.sermais.pt:8008/BiblioNET/upload/PDF3/01935_identidade_genero_revisado.pdf 


LUGONES, María. 2008. “Colonialidad y género”. Tabula Rasa, nº 9: 75-101.


MACHADO, Débora. COSTA, Maria Luisa; DUTRA, Delia. Outras Epistemologias para os Estudos de Gênero: feminismos, interseccionalidade e divisão sexual do trabalho em debate a partir da América Latina. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas V.12 N.3 2018. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/repam/article/view/20997/19336


SCOTT, Joan W. 1995. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 20, nº 2: 71-99.

WELLER, Wivian. A presença feminina nas (sub)culturas juvenis: a arte de se tornar visível. Rev. Estud. Fem. [online]. 2005, vol.13, n.1, pp.107-126. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ref/v13n1/a08v13n1.pdf.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Em Tempos de COVID-19: juventudes, estilos de vida e geração digital

Foto: Frank Marcon

Mateus Antonio de Almeida Neto
Ana Júlia Sateles Vieira
Gabriela Losekan
Letícia Oliveira Galvão

O ano de 2020 tem sido abalado mundialmente pelo coronavírus (COVID-19), desde os primeiros casos na China. A diminuta transparência das políticas governamentais, em nível mundial, tornou tal situação uma pandemia, caso de atenção pública mundial. A Organização Mundial da Saúde (OMS), entre outras entidades associadas a saúde pública, secretários e ministros da saúde de várias nações têm aconselhado sobre medidas para prevenção e combate, entre elas, o isolamento social, quarentena para os infectados, o uso contínuo de água, sabão e álcool em gel 70% para lavar as mãos, distanciamento de 2m entre pessoas, entre outras, como o fechamento de áreas comerciais e serviços com possibilidade de aglomeração. No Brasil, o governo federal liderado pelo presidente da república, Jair Messias Bolsonaro, junto com vários empresários do setor das indústrias, comércio e serviços, têm se pronunciado contra a medida de isolamento social, que deve abalar a estrutura econômica e a política nacional. Os governadores têm destacado que preferem ficar ao lado da ciência.
Em Sergipe, o decreto do governo do Estado nº 40.567, de 24 de março, destaca que, apenas serviços alimentícios com entrega delivery, estabelecimentos voltados a saúde à nível de emergência e urgência, setores de abastecimento e alimentos, podem funcionar, desde que utilizem as medidas preventivas. Dessa forma, bares, restaurantes e casas de espetáculos passaram a ser fechados, atingindo aos artistas em geral, principalmente aos jovens das periferias e os que vivem da economia informal ligado a este segmento. Vários são os músicos que têm se manifestado pelas redes sociais digitais, principalmente utilizando aplicativos de comunicação com acesso a plataformas de streaming, que com o uso de um celular com câmera de vídeo e áudio conectados à internet, transmitem seus shows de suas residências e estúdios, a exemplo das lives no Instagram. Neste espaço virtual, os artistas têm solicitado entre os seus seguidores, contribuição financeira, a exemplo de jovens artistas do samba, que vivem do estilo de música e dança associado ao gênero. Este texto tem como objetivo fomentar o debate sobre os estilos de vida distintivos das juventudes e suas expressões associadas a uma dita autonomia social e financeira.
A pandemia advinda pelo COVID-19 tem contribuído para reflexões não somente sobre a crise econômica que a acompanha, mas, também, sobre aspectos sociais que a mesma carrega. Enaltecida por alguns canais jornalísticos como “a crise que definirá a nossa geração” (CHADE, 2020), o isolamento social como ferramenta de prevenção obriga a repensar prioridades, assim como enxergar as distintas realidades sociais que configuram o Brasil. A falta de uma liderança que oriente a população durante esse período de incertezas e a discrepância de informações a que se tem acesso, fazem questionar quais serão os impactos do COVID-19 e do isolamento social, não só à sociabilidade, como, também, às projeções de futuro dessa geração de jovens nativos da revolução digital e filhos da crise ambiental em todos os seus aspectos. 
Como destaca Rodrigues (1992), as cidades, o processo de urbanização, a implementação de tecnologias digitais, bem com o embelezamento estratégico de certas áreas urbanas, a estruturou em eixos: habitação (tanto para as classes ditas populares quanto para à média e a classe alta); comércio varejista e atacado; industrial; setores vinculados a saúde, entre outros. A cidade tornou-se o espaço privilegiado do consumo, provocando significativas alterações em seus consumidores, a exemplo das juventudes enquanto símbolo de renovação das sociedades contemporâneas (FEATHERSTONE, 1995). Os bens materiais e sua produção, a troca e o consumo são características do hipercapitalismo - criativo, transestético -, que resulta do processo de autoreprodução e transformação de mercadorias num signo, no qual o significado é determinado de forma arbitraria diante de um sistema de autoreferenciamento de significantes (FEATHERSTONE, 1995).
É neste mundo que as juventudes nascidas a partir da revolução tecnológica digital dos anos 1990, tem produzido uma nova forma de ser, sentir, experienciar e estar jovem distinta das gerações precedentes (FEIXA; NOFRE, 2012). Assim, no contexto das sociedades contemporâneas e das megalópoles, estilos de vida são um dos componentes da forma cultural urbana e exigem “uma construção a partir do consumo de bens, de modo individual, com maiores preocupações de referências do que de pertenças, de identificações e não tanto de identidade” (RODRIGUES, 1992, p.103). 
Partindo desse ponto, é possível levantar novamente parte da discussão acima sobre as manifestações virtuais de jovens artistas durante a crise do COVID-19. Sendo obrigados a seguir orientações contrárias aos estímulos do “estar-junto” suscitados pela vida urbana (MAFFESOLI, 1998), esses jovens ainda manifestam, contudo, o que se entende por uma coletividade expressa, dessa vez, virtualmente - a exemplo das lives e outras formas de reunir-se online em tempos de isolamento. É possível pensar, então, como um “ethos centrado na proximidade” (MAFFESOLI, 1998) pode se configurar de maneira distinta nos tempos atuais.
Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, as juventudes passaram a ser tematizadas, nas Ciências Sociais, por transpor barreiras socioculturais, políticas, econômicas e afetivas diferentes do universo denominado adulto, seja na forma de se relacionar uns com os outros, em grupos demarcados por gostos, aparência física, lazer, indumentárias e até relações voltadas para uma distinção de classe e gênero, entre outras formas distintivas (CLARKE, 2014). Tal aspecto, formou toda uma indústria cultural e de massa que estetizou formas estilísticas do universo juvenil dos trabalhadores associado ao lazer e proporcionou uma economia dos símbolos, um caldeirão de enunciados, identidades múltiplas, cambiantes e relacionais, ou seja, estilos de vida que passaram a fazer parte de uma cultura juvenil e geracional ancorados em objetos-símbolos (FEIXA; NOFRE, 2012; CLARKE, 2014; MURDOCK, 2014).
Lá se vão algumas décadas e muitas distintas formas de vivenciar o fenômeno das culturas juvenis. Nestes tempos de pandemia, as juventudes associadas a estilos de vida ligados as artes e a cultura, somadas às suas habilidades digitais, por mais afetadas que estejam sob o aspecto econômico dos efeitos do isolamento, têm dado uma resposta bastante significativa a sociedade, ao publicar em suas redes sociais digitais a identificação com o contexto global e local sobre o isolamento social, enfatizando o “fique em casa”. Além do mais, as redes sociais digitais, a exemplo do Twitter, do Instagram e do Facebook têm possibilitado as juventudes formas alternativas de “estar-junto” experimentando a sensação de pertencimento à uma comunidade global, mesmo diante de suas diferentes preferências, interesses e gostos, das suas diferentes formas de entender o mundo ou de  suas formas de identificação pessoal e coletivas. Os modos de aproximação e de identificação social a partir do consumo estarão em plena transformação daqui para frente e necessitaremos recolocar algumas discussões sobre sociabilidades e sobre as identidades afetivas, sociais e políticas.   

Referências

CHADE, Jamil. Coronavírus: a crise que definirá a nossa geração. EL PAÍS, 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-17/a-crise-que-definira-nossa-geracao.html?ssm=FB_CC&fbclid=IwAR3rJYaXRRqVnVrOwsNr2wMN-tLeVujknW38PlLFkdz64RE3v1fCsT5SdXs. Acesso em: 30/03/2020.

CLARKE, John. Estilo. In: HALL, Stuart; Jefferson , Tony (Eds.). Rituales de resistencia: subcultruas juveniles en la Gran Bretaña de postguerra. Primeira edición de Traficantes de Sueños. Traducción: A. Nicolás Miranda; Rodrigo O. Ottonello; Fernando Palazzolo. Madrid: Gráfica Lizara, 2014.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e desordem global. In: Cultura de Consumo e Pós-modernismo. São Paulo, Studio Nobel, 1995.

FEATHERSTONE, Mike. Culturas da cidade e estilos de vida pós-modernos. In: Cultura de Consumo e Pós-modernismo. São Paulo, Studio Nobel, 1995.

FEATHERSTONE, Mike. Estilo de vida e cultura de consumo. In: Cultura de Consumo e Pós-modernismo. São Paulo, Studio Nobel, 1995.

FEIXA, Carles; NOFRE, Jordi. Youth Cultures. Sociopedia.isa, 2012.

Georg Simmel. A filosofia do dinheiro (1900/1907). Tradução de Antonio C. Santos. Frankfurt/M, Suhrkamp, 1989.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.

MURDOCK, Graham; MCGRON, Robin. Conciencia de clase y conciencia de generación. In: HALL, Stuart; Jefferson, Tony (Eds.). Rituales de resistencia: subcultruas juveniles en la Gran Bretaña de postguerra. Primeira edición de Traficantes de Sueños. Traducción: A. Nicolás Miranda; Rodrigo O. Ottonello; Fernando Palazzolo. Madrid: Gráfica Lizara, 2014.

RODRIGUES, Walter. Urbanidade e novos estilos de vida. Sociologia – Problemas e Práticas, nº 12, pp. 91-107, 1992.

De Fenômeno Social a Objeto Sociológico: Uma breve discussão acerca do conceito de violência


Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil*


Lucas Vieira Santos Silva
Juliano Machado Ramos


O termo violência tem se desenvolvido semanticamente de uma maneira diferente de como foi pensada na antiguidade, caracterizando-se, cada vez mais, como uma palavra moderna. Em seu sentido antigo, a violência esteve relacionada a duas outras palavras: vis – que significava força ou guerra – e potesta – que significava poder e domínio, sendo que nesse momento os dois significados se correlacionavam.  Já na modernidade, o conceito de violência vai ser construído a partir de sua recusa ética, em oposição a promessa moderna de uma possível “paz eterna”. Nesse sentido, é na modernidade que ocorre uma separação semântica entre os termos violentia e potesta, onde o Estado toma para si o exercício legítimo da violência, atribuindo o seu sentido negativo à sociedade civil. (MISSE, 2016; PORTO, 2000; WIEVIORKA, 1997).
Para Michel Misse (Idem), dialogando com Norbert Elias, toda essa situação de atribuição de negatividade a palavra violência, decorre do processo civilizatório que ocorreu ao longo da modernidade. Nesse sentido, com o intuito de afastá-la das relações sociais, o Estado moderno, utilizando-se de uma violência socialmente vista como legítima, a atribuiu a um número cada vez maior de ações e comportamentos que afetavam os valores morais vigente na sociedade moderna. Essa situação de atribuição é em certo sentido paradoxal, já que ao mesmo tempo que a modernidade tentava afastar de todo jeito a violência das relações sociais, foi exatamente nesse período, onde um maior número de comportamentos foi socialmente construído como violentos (MISSE, 2016)
Desta forma, com o intuito de construir um conceito sociológico de violência que iria além da constatação empírica do fenômeno, Michel Wieviorka (1997), vai refletir acerca das transformações sociais, econômicas, políticas e culturais que ocorreram no mundo pós década de 70 e as mudanças que acarretou no fenômeno da violência. Para o autor, duas situações são imprescindíveis para a percepção dessa nova dinâmica do fenômeno da violência, assim como para sua construção enquanto conceito da sociologia. A primeira está relacionada ao processo de perda do monopólio legítimo de uso da violência por parte do Estado, o que faz com que o uso da violência enquanto recurso político, que para o autor já teria se extinguido na modernidade, seja retomado; E o segundo, as mudanças que ocorreram na sociedade industrial, a partir da desestruturação do conflito entre capital e trabalho, o que distanciou o conceito de violência das noções de conflito e crise. Para Wieviorka (1997), ambas as situações permitiram a produção de um novo paradigma da violência, a partir do surgimento de indivíduos extremados, que na palavra do autor, poderiam ser vistos como antissujeitos. A partir disso, Wieviorka vai restringir a polissemia do termo violência conceituando-o como uma agressão física intencional, interpessoal ou coletiva.
Por outro lado, Butler (2015) ao pensar nas disputas que definem as formas legítimas e não legítimas de violência, discute a influência das clivagens sociais e relações hierárquicas de dominação na distribuição desigual da exposição à violência. Nesse sentido, a autora afirma que os indivíduos são formados a partir de uma violência externa que está constituída nas interações e valores sociais que os ensinam a como agir em sociedade. E que de certa maneira, não se apresenta apenas em sua exterioridade, mas também em sua forma interna, relacionando-se a reprodução da violência aprendida no outro ou em si mesmo. Em suma, a autora irá discutir a questão da violência a partir da violência estrutural produzida pelo Estado no processo de construção dos sujeitos e como essa violência será reproduzida pelos sujeitos em suas interações sociais.   
Não obstante, na tentativa de não restringir o conceito de violência para ação social ou dominação estrutural, e consequentemente, captar dentro das pesquisas sociológicas o caráter dinâmico e polissêmico que o termo carrega, Michel Misse (1999; 2016), Porto (1999; 2000) e Machado (1999; 2004) pensam violência não mais como conceito, mas como representação social. Essa solução pragmática não tem intuito nenhum de pôr um fim na produção de um conceito de violência, mas visto a polissemia desse conceito, utiliza-se de seus sentidos e significados comuns para a produção de pesquisa empírica. Isso pode ser observado no uso que Porto (1999; 2000) faz da teoria das representações sociais para pensar tanto os sentidos simbólicos atribuído por alguns jovens de classe média de Brasília em seus atos desviantes, assim como para pensar a construção da identidade policial a partir das representações que eles tem de si e da segurança pública; Pode ser observado também tanto no conceito de sujeição criminal como no de acumulação social da violência produzido por Michel Misse (1999; 2016) no intuito de compreender o uso acusatorial da violência nas interações sociais e nas relações estabilizadas, e as práticas sociais proveniente disso; E, por último, no conceito de Sociabilidade violenta desenvolvido por Machado (1999; 2004) para pensar a nova ordem social que se construiu no Brasil, pós década de 70, que tinha à violência como um recurso possível para as interações sociais.
Em suma, toda essa discussão empreendida nesse texto, nos ajuda a refletir acerca da polissemia do termo de violência e a dificuldade de se construir acerca dele um conceito sociológico definitivo. Nesse sentido, o texto nos ajuda a pensar em três abordagens bastante utilizadas nas pesquisas atuais acerca do fenômeno, que seriam: a abordagem a partir da ação social; da dominação estrutural; e por fim da representação social. Essas diferentes abordagens teóricas e metodológicas acerca do fenômeno mostram não apenas a polissemia do conceito, mas a necessidade de pôr a violência no centro da teoria social.

Referências
BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, v. 2009, 2015.
MACHADO DA SILVA, Luís Antonio. Criminalidade violenta: por uma nova perspectiva de análise. Revista de Sociologia e Política, n. 13, p. 115-124, 1999.
MACHADO DA SILVA, Luiz Antonio. Sociabilidade violenta: por uma interpretação da criminalidade contemporânea no Brasil urbano. Sociedade e estado, v. 19, n. 1, p. 53-84, 2004.
MISSE, Michel. Malandros, marginais e vagabundos. A acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. IUPERJ. Tese de doutorado em Sociologia, 1999.
MISSE, Michel. Violência e teoria social. Dilemas-Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 9, n. 1, p. 45-63, 2016.
PORTO, Maria Stela Grossi. A violência urbana e suas representações sociais: o caso do Distrito Federal. São Paulo em perspectiva, v. 13, n. 4, p. 130-135, 1999.
PORTO, Maria Stela Grossi. A violência entre a inclusão e a exclusão social. Tempo social, v. 12, n. 1, p. 187-200, 2000.
WIEVIORKA, Michel. The new paradigm of violence. Tempo social, v. 9, n. 1, p. 5-41, 1997.

* Fonte da Imagem: https://spbancarios.com.br/09/2017/reuniao-no-ministerio-publico-mostra-violencia-policial