domingo, 31 de outubro de 2021

Posfácio para "um dia de cada abril ou a função sócio-política do afeto"


* Texto escrito como Posfácio para o livro de poemas: Ramalho, Ítalo. um dia para cada abril ou a função sócio-política do afeto. Ed. Criação, Aracaju, 2021. pp 81-91


Estes tempos de pandemia têm sido socialmente críticos, desde os primeiros impactos que tivemos em abril, quando chegamos às mil mortes no País, até as mais de 100 mil mortes [este texto foi escrito em agosto de 2020], após passados cinco meses de má governação e má condução das políticas de saúde e de restrições sociais de aglomeração. Lá atrás começamos a conviver com uma nova realidade cíclica que já dura meses e que nos afetou indistintamente de forma cultural, social e psicossomática. 

Além dos efeitos perversos da doença provocada pelo vírus, as imposições de isolamento social e de confinamento alteraram radicalmente nossas vidas. Por um lado, transformaram nossas rotinas e formas de higienização e cuidado, de convívio social e afeto, de estudos, trabalho e lazer; por outro lado, também alteraram nossas formas de sentir felicidade e tristeza, indignação e complacência, prazer e tédio, amor e raiva... 

Neste sentido, estes tempos de pandemia também têm sido intensamente reflexivos, provocando sensações pensantes, nos desviando do curso planejado de presente e futuro e criando um lapso temporal e espacial que tornou possível viver de outro modo e de outra perspectiva os dias e os meses, os lugares e os ambientes.

No livro que temos em mãos ou em tela, o ciclo dos dias densos, no transcurso de um mês, foi transformado poeticamente em marco das experiências vividas e sentidas pelo autor, intensamente doloridas e caóticas, solitárias e angustiantes, infladas pela diminuição rítmica do tempo e do espaço. Do abril que foi ou não escolhido por acaso, mas que por coincidência serve como metáfora de abertura, de início de uma dada condição e catarse. Estas sensações que também foram experimentadas por muitos outros de nós e impuseram densas formas de reflexividade à experiência, tendo maior efeito nos primeiros meses de isolamento e confinamento social, quando as transformações no dia-a-dia ainda foram mais intensas, repentinas e impactantes. 

Ítalo Ramalho toma sua própria experiência vivida destes dias como arquétipo poético das práticas, das ilusões e das emoções. Viver, pensar, sentir e escrever sobre tais sensações é uma forma de se expressar diante do imponderável, tentar compreender seus efeitos e tentar entender-se a si e aos outros neste processo. Delimitar e fatiar o tempo sentido e o tempo vivido com a marca cronológica dos dias de um mês não é apenas uma forma de contar, no isolamento ou no confinamento social, mas também uma forma de registrar o experienciado, o pensado e o sentido através da linguagem e, neste caso específico, da poesia. Transformar o estranho, o caótico e o desconhecido em vida e em expressão e vazão estetizada também é um ato político de resistência e de resiliência que a linguagem poética permite, revelando potencialidades outras, diante das formas volúveis que as linguagens cotidianas do tempo rápido, industrial, metropolitano, online e digital não alcançam. 

Sobre os dias que passam, os registros na forma de poema revelam também a expertise do autor advinda das conexões entre campos de saberes distintos, o literário e o antropológico, o de amante das artes e da formação em direito, do qual emerge uma autoetnografia poética profunda, que observa o mundo a partir da realidade experimentada, onírica e subjetivada, marcada pela relação e pela existência do outro - e/ou dos outros - densamente refletida e reflexiva. Se é no(s) outro(s) que existimos, os efeitos do impacto do isolamento social se tornam estruturais nas percepções de nós mesmos, e a poesia se torna o verbo de um modo de se dizer sobre um/eu e sobre todos/nós e de modo holístico sobre o anthropo - o quê Ítalo Ramalho bem traduz nesta obra. 

O abril, aqui, mesmo que despedaçado, como diz a memória do autor sobre o livro/filme, no poema 15 de abril, é tratado como ciclo e como estrutura de sentido desta contagem poética dos dias, um dia para cada dia, um dia para cada abril, explorando muitas faces da carga semântica da palavra e dos significados sociais que ela sugere. Abril intenso, dilacerado, fragmentado, confuso, um dia como todos os dias, um mês como todos outros, só que não como antes, mas como agora, inusitado. Nesta poética do despedaçamento do presente, há um desejo de tradução deste tempo trágico em atos da rotina da vida vivida que se segue: dormir, acordar, transar, cozinhar, comer, limpar, ler, trabalhar, assistir, comprar... Ou simplesmente pulsar... 

            20 de abril 
        
            no entanto: 
            o pulso pulsa 
            pul.....sa 
                        
                        pul..........sa 
                        pulsalâmina 
                        sob o esqueleto estéril 
                    do verbo 

A poesia se abre no abril e se torna pulso, verbo lâmina, remexendo as próprias emoções do autor e do leitor a partir da intensidade explícita da simplicidade e da importância do cotidiano, brincando com jogos de palavras e com os ritmos da linguagem e na forma, mas atenta a análise psicológica e social e à mensagem política implícita das metonímias, às vezes explícita do verbo. É um jogo com os corpos, com a consciência, com a vida e com a morte, mesmo com o lento marcapasso do tempo e diante do espaço restrito da casa, do confinamento e do casamento.

No abril da pandemia, do isolamento e do genocídio como fim, Ítalo Ramalho também recorre à memória das sucessivas políticas de morte traduzidas para outros tempos, através da crítica histórica sobre a colonização do Brasil, por exemplo, trazendo o abril como marco da memória coletiva da existência de outros corpos de dor, e do silenciamento de outras formas de vida e de conhecimento. Da dureza da linguagem ácida e áspera do poeta/poema concreto, o autor encontra ao seu modo e ao seu tempo a sua forma de analogia à denúncia sobre a dominação colonial e judaico-cristã dos povos indígenas, porém sob o alento da resiliência e da reinvenção antropofágica que sobrevive na linguagem... 

            22 de abril 
           
            antes do som 
            lusitano 
            o verbo yanomami 
            sustentou o céu de davi                            
                            inferno de cristo 
                            silêncio antunes 
                            arnaldo de fazer 
                            verboração 
                            carnificanção 

O abril deste livro não é apenas um mês, mas todos os meses repetidos sob o qual vivemos este longo inverno que marca e marcará nossas experiências e continuará aprofundando as realidades sociais já tão desiguais no Brasil. Algo que o autor já profetiza ao criticar a contabilidade frívola dos corpos e a dimensão do poder que ele denomina de necroliberalismo, através deste neologismo que traduz a sedução hegemônica de um modelo de economia liberal e da apolítica cega, decadente e gananciosa que nos afeta e se espalha pelo mundo. Aliás, doença, morte e política se completam de forma recorrente na poesia de Ítalo Ramalho, não como hipérbole estética, mas por se tornarem rotina ou parte da língua franca no imaginário cotidiano do isolamento social e no vernáculo da política, tangenciados pelas facetas pública e privada da vida, na qual mesmo confinados ninguém mais se esconde. 

Mesmo que a cronografia deste abril em algum momento se feche, com língua grossa (ou fina), como diz o autor, outros trinta poemas surgiram - surgirão - do pavimento superior do incansável subconsciente do poeta, da palavra dos meses do agora ou daquela um dia pensada, ritmada e conjugada como função sócio-política do afeto, aparecendo como parte do ritual do ofício pensante e incessante de burilar, de escrever, de declamar e de brincar silenciosamente com os sons, com as subjetividades e os significados das palavras até lhes dar vida pública. São ideias outrora inacabadas, não costuradas, são as formas do fabricar a poesia, agora amalgamadas e expressas em versos a compor o todo da obra, como efeito mágico da bricolagem. Nesta segunda ronda de poemas do livro – os outros trinta -, o autor suspende o abril para transformar o ciclo do mês em estrutura, e os versos seguem aparecendo com a marca dos sonetos; descomprometidos com a narrativa das rotinas do dia a dia, perpetuando de modo enigmático e gráfico o ícone da teia e da rede (#) como marcador de outras práticas; como um outro modo de pensar, dizer, sustentar, fabricar e coser a vida, que se repete como etéreo. Esta tessitura pensada das palavras e dos versos perfura outros planos de consciência, como ato de sustentação da própria existência, soltos, embora enumerados, sequenciados e tagados.            

                #20 

                para o poema nascer 
                é preciso costurá-lo 
                da ponta à cachaça
 
                pensar pelo pé é 
                fazer do caminho 
                bifurcado − 
                linha e pedra – 
                questão de equilibrachão 

No registro poético do autor reconhecemos o desejo pela poesia como possibilidade de equilíbrio, de razão, mesmo diante do uso lúdico, sonoro e semântico das palavras em tempos de normalidades suspensas. A experiência sentida e vivida, marcada pelos efeitos do tempo e dos acontecimentos, é traduzida em linguagem gráfica e sonora, na qual se encontram indivíduo e sociedade, afeto e política, emoção e racionalização, forma e conteúdo. É a poesia tornando o imaginável dizível, o incompreendido compreensível, as palavras em sensações e formas animadas... 

                 #22 

                em minhas mãos 
                o riso do livro 
                move 
                os dentes das suas 
                páginas 
                
                banquete farto: 
                proteína 
                verbal 

É certo que os últimos meses impactaram intensamente o curso de nossas vidas e que para muitos de nós as leituras foram boas companheiras. Mas, para muito além disto, surgiram novos modos de sociabilidades, novas estratégias de sobrevivência e de fazer político, novas formas de regulação social, novos comportamentos afetivos, novos modos de percepção e novas formas de intensificação do individualismo. 

Neste livro temos alguns registros sincrônicos destes processos também vividos pelo poeta a partir da experiência pessoal e da passionalidade racional da sua criação. Versos produzidos durante as sensações vividas, capturando impressões sobre instantes, tendo a forma como latência e como potência de dizer para além do plenamente compreensível para o agora. A poesia - como linguagem ou o livro como obra aberta -, neste caso, aparece metamorfoseada como actante, tanto deste momento para outros tempos, quanto do leitor que sou para outros. 

No futuro teremos estudos sobre a produção reflexiva gerada durante a vigência das excepcionalidades provadas pela pandemia. Sobre o quão intensa e distinta ela fora, sobre como as pessoas reviram as suas vidas e os seus desejos, repensaram os seus projetos e se viram como sujeitos diante da sensação de impotência. Sensação inicialmente já existente diante da guerra ideológica-política, provocada de forma insistente por modelos de governação antidemocráticos, como do caso brasileiro, que têm gerado efeitos ainda mais perversos durante a pandemia, aprofundando discursos de exclusão e de eliminação social, tomando como base moralismos perversos, seletivos e mal intencionados que transformam as orientações sérias e científicas no campo da saúde pública em chacota e instrumento de um modus operandi perverso de exercício de poder pelo poder. Aliás, o caos é terreno fértil para o crescimento de tais formas de fazer política, embora também abra espaço para a transformação revolucionária, para o encerramento dos ciclos, para o início de outros e para emergência de agências insurgentes.

De forma muito pouco reflexiva, vem se tornando senso-comum que as atuais regras de biossegurança, as normas de sociabilidade, de trabalho remoto, de estudos e de lazer destes tempos de excepcionalidade se tornarão o novo normal. A expressão mais me parece conter o desejo de uma nova normalidade de controle social, com maiores restrições à movimentação das pessoas, maior exploração do trabalho, maior endurecimento da vida social e a ideia de que a humanidade viverá a ameaça constante do apocalipse, independente do arrefecimento da pandemia; do que a vontade de entender o processo e de transformar esta realidade temporária. Não temos certeza se a pandemia provocada pelo vírus Sars-COV2 será um marco de transformações profundas e duradouras nas sociabilidades, nos costumes, na geopolítica e na economia global ou nas formas de experimentar a humanidade - e nem precisamos tê-la -, o certo é que enquanto ela se perpetuar continuaremos vivendo a experiência do individualismo de forma ainda mais intensa e jamais vista, e isto se reflete no quê e no como sentimos, sofremos, pensamos e produzimos. É sobre isto que importa dizer e fazer agora. Sobre os registros da experiência humana que nos tornem capazes de interpretar e de compreender para podermos existir, resistir e transformar. Mas, enquanto vermos nas ruas, nas redes sociais e nos noticiários que as pessoas estão saindo do isolamento social voltando a consumir loucamente, os discursos minimizando o impacto sobre as vidas, os negacionismos ideológicos segregacionistas se sobrepondo ao conhecimento científico e crítico e a economia colocada ainda mais acima das pessoas, os versos de Ítalo Ramalho continuarão soando como grito de dor e como alerta humanitário e trágico do agora. 

                6 de abril 

                caixas de papel 
                deveriam conter 
                sapatos 
                guardam pés mortos 
                enforcados 
                pelo cadarço 
                dos corpos infectados 
                (eco à dor) 

Como leitor de hoje, não há como se deparar com este livro sem perceber o mundo pela conjunção das lentes do trágico e do satírico, do político e do afetivo; da desigualdade e da resiliência; não há como não se sentir incomodado, angustiado, ou às vezes esboçar um sorriso irônico, sarcástico, casual, ou noutras sentir-se como sujeito empoderado, embora na dor e no odor da morte dos outros - e da nossa humanidade. Estas são mensagens contidas neste livro, sobre o presente e sobre como ele nos faz sentir, pensar e resistir a partir do cotidiano, da estética e da política. 

Frank Marcon Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe.

Acesso ao livro na íntegra: https://editoracriacao.com.br/wp-content/uploads/2021/03/livro-final-site-1.pdf


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Estudos pós-coloniais em reflexão*

Grafitti Barrio Callao - Lima - Peru 2019  - Fotografia do Autor


Frank Marcon


* Texto avulso escrito orginalmente em 2005 como sistematização das leituras que realizava sobre o tema. Foi disponibilizado para acesso livre no site do NUER-UFSC (Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas), em 2007. 

O campo das reflexões e estudos pós-coloniais se constitui como tal no fim dos anos 80, início dos 90, do século vinte. São estudos em diversas áreas disciplinares, marcados fortemente pela teoria literária e em seguida absorvidos pela história e pela antropologia. A principal proposta disciplinar no campo das reflexões pós-coloniais é o seu caráter transversal, que perpassa a teoria literária, a psicanálise, a filosofia, a antropologia, a história e a política. Esta característica marca a sua forte presença entre os Cultural Studies (HALL, 2003) e as influências desta sobre as reflexões do pós-colonial. No entanto, esta não é uma área que apresenta consensos em torno de categorias ou do que significa a própria definição de pós-colonial, bem como no que diz respeito a outros tantos conceitos e categorias utilizados.

O que se pode dizer é que as referências ao termo e suas problematizações surgiram primeiramente entre os teóricos anglo-saxônicos (nos EUA, Inglaterra, Austrália, bem como nas antigas colônias inglesas) e multiplicaram-se também entre os intelectuais da diáspora do colonialismo francês, neerlandês e mais recentemente do português e espanhol.

Tornou-se polêmico o número significativo de estudos que passam a utilizar-se da designação de “estudos pós-coloniais”. Apesar de alguns autores proclamarem o surgimento de uma “área de estudos” ou de uma “teoria pós-colonial”, na disputa por um determinado espaço acadêmico, outros teóricos se tornam críticos deste tipo de postura, mesmo estando envolvidos com o campo das problemáticas contemporâneas suscitadas pelas experiências de ordem global do que fora o colonialismo.

Na perspectiva de sistematizar o contexto destes embates proponho uma breve digressão sobre o “pós-colonial”, enquanto conceito e enquanto campo de estudos. Aponto as principais categorias e conceitos trabalhados neste campo, os autores envolvidos com a temática em diferentes perspectivas e os principais referenciais teóricos utilizados pelos mesmos.

O termo adjetivo “pós-colonial” ou o substantivo “pós-colonialismo”, geralmente tem sido situado pelos estudiosos do assunto por três diferentes ênfases não necessariamente contraditórias entre si. São elas: as que distinguem o pós-colonial como uma teoria; aquelas que o definem como uma situação global contemporânea; e aquelas que denominam a condição política dos Estados nacionais após a independência ou a experiência colonial.

Para o antropólogo Miguel Vale de Almeida (2000), sobre o “pós-colonial”, devemos levar em consideração que:

“1) o termo deverá ser aplicado ao período posterior ao colonialismo, mas também posterior ao fracasso dos projetos nacionalistas e anti-colonialistas aplicados logo após as independências; 2) o termo deverá aplicar-se aos complexos de relações transnacionais entre ex-colônias e ex-centro colonizadores; 3) tudo o resto, como globalização, settler societies, neocolonialismo, colonialismo interno, devem ser tratados nos seus próprios termos (ALMEIDA, 2000, p. 231).

Mesmo assim, as sociedades não são todas pós-coloniais da mesma forma (HALL, 2003) Sintetizando alguns destes pontos, o “pós-colonial” como conceito só é útil na medida em que possa nos ajudar a pensar, dialogar ou descrever interpretativamente as mudanças nas relações globais que marcam as transições desiguais da era dos impérios para a era pós-independências. Por um lado, este é um conceito universal, na medida em que sociedades colonizadas e colonizadoras foram ambas afetadas pelo processo colonial. Por outro, o termo “pós” não pode ser meramente descritivo disto ou aquilo, do antes ou do agora. Ele deverá reler a colonização como parte de um processo essencialmente transnacional e transcultural global, produzindo uma reescrita descentrada, diaspórica ou global de anteriores grandes narrativas centradas em nações. Neste sentido o pós-colonial não é meramente uma periodização baseada em estágios. (ALMEIDA, 2000)

Este não é apenas um “pós” de superação de etapas, mas é um “pós” do gesto de “abrir espaços”, por ser posterior a algo, mas também por rejeitar os aspectos “de” algo.

Não significa que uniformemente as sociedades coloniais ou tradicionais ultrapassaram o “colonialismo”. Significa que esta é uma condição de posturas intelectuais, estéticas, políticas e econômicas marcadas pela deslegitimação da autoridade, poder e significados produzidos pelos impérios ocidentais. (APPIAH, p. 213) É um “pós” que contesta narrativas anteriores, legitimadoras de dominação e poder, como, por exemplo: de raça, gênero, classe, nação e etnia. Nesta perspectiva, o entendimento do “pós-colonialismo” como substantivo propõe a idéia de uma condição universal do pós-colonial. Condição global que emerge na literatura, na filosofia, na estética e na política fruto da mútua experiência colonial na metrópole e nas colônias.

Em outras palavras “as perspectivas pós-coloniais emergem do testemunho colonial dos países do Terceiro Mundo e dos discursos das ‘minorias’ dentro das divisões geopolíticas de Leste, Oeste, Norte e Sul” (BHABHA, 1998). Para alguns, o “pós-colonial” marca uma condição latente da contemporaneidade e torna-se também um projeto literário, político e teórico. Na afirmação de Miguel Vale de Almeida (2000), o pós-colonialismo acabou por se constituir numa corrente. Uma corrente teórica e crítica que estaria procurando desfazer ou desconstruir o eurocentrismo, com a consciência de que a pós-colonialidade não nasce e não cresce numa distância panóptica em relação à história. Estes estudos estariam propondo um “depois de ter sido trabalhado” pelo colonialismo (ALMEIDA, 2000, p. 228). Noutros termos, seria uma teoria do “discurso pós-colonial” ou a “crítica pós-colonial”.

Para Hall (2003), “uma das contribuições do termo “pós-colonial” tem sido dirigir nossa atenção para o fato de que a colonização nunca foi algo externo à sociedades das metrópoles imperiais” (p.108). O termo não se restringe a descrever uma dada sociedade ou época. “Ele relê a colonização como parte de um processo global essencialmente transnacional e transcultural – e produz uma reescrita descentrada, diaspórica, ou global, das grandes narrativas imperiais do passado, centradas na nação.”(HALL, 2003, p. 109). O pós–colonial não é, portanto, uma forma de periodização de estágios epocais. As lutas e os processos de descolonização seriam apenas um momento distinto que reverte fundamentalmente à configuração política do estado e do poder.

O “pós-colonial” seria um “discurso” epistêmico e cronológico, que não se trata apenas de posterior, mas de ira além do colonial. (HALL, 2003, p. 118) Um discurso que opera sob rasura, no limite de uma episteme em formação, não como um paradigma convencional, (HALL, 2003, p.121) mas como episteme que opera entre uma lógica racional sucessiva e uma desconstrutora. Uma resposta à necessidade de superar a crise de compreensão produzida pela incapacidade das velhas categorias de explicar o mundo (HALL, 2003, p. 124)

Numa perspectiva crítica ao uso do indiscriminado do termo “pós-colonial” e mesmo de uma teoria que se proclame como tal, McClintock (1995) diz que o termo pós-colonialismo é ao mesmo tempo celebratório e ofuscador. Isto significa dizer que enquanto alguns países podem ser pós-coloniais, em relação aos antigos domínios metropolitanos, eles podem não ser pós-coloniais, em relação aos seus novos vizinhos colonizadores, se pensarmos na re-estruturação geopolítica mundial das últimas décadas (McCLINTOCK, 1995, p. 13). Também o “neocolonialismo” universal não seria uma repetição da performance do colonialismo? Na visão de McClintock (1995), esta distinção entre “colonial” e “pós” pode ser prejudicial por deixar de estar atenta à continuidade das relações de poder colonialista no mundo contemporâneo. Mesmo assim, a autora diz que admite trabalhar com muitos dos conceitos daquilo que está sendo posto como teoria pós-colonial. Uma das características, do uso de conceitos, teorias e da noção de pós-colonial, é que ela é perpassada pelas discussões sobre o pós-modernismo e a globalização de mercado, o que implica estarmos também atentos a estes debates.

Para Don ROBOTHAM (1997), “o desmoronamento do comunismo e a passagem ao capitalismo pela Europa Oriental e a Ásia Central, o desaparecimento do movimento de países não alinhados, a crise da África, as dificuldades econômicas, sociais e políticas da União Européia, a ascensão na Ásia, da China e do Japão, as dificuldades dos EUA conservar sua posição única e superpotência, a revolução eletrônica e a mundialização das finanças e das comunicações, trouxeram novos desafios às ciências sociais”. (p. 296). Pensando o “pós-colonialismo” e sua relação com a Antropologia, Robotham (1997) diz que a disciplina entra num período contemporâneo sem precedentes, mas é necessário rever seus próprios conceitos de ocidentalização, modernização e pós-colonialidade. Eu diria que a Antropologia pós-colonial seria aquela que rejeitaria em absoluto um projeto racionalista Iluminista. Para muitos estudiosos, os representantes desta antropologia seriam alguns dos mesmos antropólogos considerados como “pós-modernos”, como: James Clifford, George Marcus, Cushman & Fischer. Por exemplo, a obra considerada como fundadora da antropologia pós-colonial é o livro Writring Culture, de Clifford e Marcus (1986).

Finalmente, inspirador das discussões sobre “pós-colonialismo”, Edward Said (1990) não trabalha com a noção de pós-colonial na sua obra emblemática: “Orientalismo”. Said (1990) trabalha com o conceito abrangente de “imperialismo”, e o define como forças políticas que, muitas vezes, fazem alguns países deterem uma determinada hegemonia cultural e econômica predominante sobre outros. Este imperialismo que representa a legitimidade dos valores ocidentais num plano universal e constrói sua visão hegemônica sobre o Oriente enquanto unidade geográfica e colonial. O mesmo ocorrendo com outras categorias, como: raça, nação, colônia, terceiro mundo, América Latina e África, que se tornaram noções generalistas, estereotipadas, abrangentes e sistemáticas que perduram e são atualizadas a partir de referentes já constituídos do pensamento racionalista ocidental. Said (1990) problematiza a perspectiva imperialista para dizer que “a tarefa mais importante de todas seria o estudo das alternativas contemporâneas para o orientalismo, que investigue como se podem estudar outras culturas e outros povos desde uma perspectiva libertária, ou não-repressiva e não-manipuladora” (SAID, 1990, p. 35). Isto constituiria, talvez, o projeto ou a proposta maior de uma “teoria pós-colonial”.

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PRATT, Mary Louise. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: EDUSC, 1999.

PRATT, Mary Louise. Pós-colonialidade: projeto incompleto ou irrelevante? In: VÉSCIO, Luiz Eugênio e SANTOS, Pedro Brum (Org.).Literatura & História: perspectivas e convergências. Bauru: Edusc, 1999. p. 17-54.

ROBOTHAM, Don. Postcolonialités: le défi des nouvelles modernités. In: Revue Internationalle des Sciences Sociales. n. 153, 1997. pp 393-408.

SAID, Edward. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1990.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Entre Prospero e Caliban: Colonialismo, pós-colonialismo e inter-identidade. In: RAMALHO, Ma. Irene e RIBEIRO, Antônio Sousa. Entre ser e estar: raízes, percursos e discursos da identidade. Porto: Afrontamento, 2001. (Vol 08 de A sociedade portuguesa perante os desafios da globalização).

SMITH, Anthony D. A identidade nacional. Lisboa: Gradiva, 1997.

STOLER, Ann Laura. Race and the education of desire: foucault’s history of sexuality and the colonial order of things. London: Duke University Press, 1995.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Do colonial ao pós-colonial, do arquivo ao campo: “luso”, “franco” e outras fonias. Seminário temático ‘A Antropologia e seus métodos: o arquivo, o campo, os problemas’. XXV Encontro anual da ANPOCS. Caxambu, 16 a 20 outubro de 2001.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Ecos do Atlântico Sul: representações sobre o terceiro império português. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Fapesp, 2002.

YOUNG, Robert J. C. Colonial desire: hybridity in theory, culture and race. London and New York: Routledge, 1995.

domingo, 18 de julho de 2021

LIVRO



Juventudes e Desigualdades Sociais em Tempos de Crise e Radicalização Política


Organizado por Frank Marcon 

e Danielle Parfentieff de Noronha



Colaboradores e Capítulos

Que política e política para quem? Juventude e engajamento político em Moçambique

Alcinda Honwana

 

Por-venires en tiempos distópicos (o acerca de juventudes, desigualdades, pandemia,

utopías, Estados, la vida, la muerte, y… ¿algo más?)

Mariana Chaves

 

Situação da juventude e desafios pós-pandemia

Carles Feixa

 

Juventude, raça e gênero: um olhar socioantropológico acerca do sistema socioeducativo em Aracaju/SE

Élida Damasceno Braga e Lucas Vieira Santos Silva

 

Representações sobre gênero e juventudes em Meu nome é Bagdá

Danielle Parfentieff de Noronha

 

Graffiti e hip-hop: resistências urbanas e as agências estetizadas das mulheres na cidade

Erna Barros e Raissa Freitas

 

Entre o protagonismo e a invisibilidade: dinâmicas reivindicatórias das políticas públicas de juventudes em Sergipe

João Víctor Pinto Santana, Adrielle da Silva de Oliveira, Letícia Oliveira Feijão Galvão e Frank Marcon

 

O coletivo Fora do Eixo, a comunicação e a política em tempos de ativismo em rede

Wener da Silva Brasil

 

Cultura escolar, sociabilidades juvenis e os desafios na implantação da Lei 10.639/03

Saionara Serafim Andrade dos Passos

 

Experiências juvenis e políticas de drogas

Anatil Maux

 

Geração como problema e achado empírico nos estudos sobre juventudes

Frank Marcon e Mateus Antonio de Almeida Neto


domingo, 2 de maio de 2021

IV Semana de Antropologia da UFS exibe Mostra Elas por Trás das Câmeras - Sergipe

 



A IV Semana de Antropologia da UFS contará com uma edição especial da Mostra Elas por Trás das Câmeras com foco em realizadoras sergipanas. Entre os dias 4 e 6 de maio, no canal do YouTube do evento, estarão disponíveis 10 curtas dirigidos ou codirigidos por mulheres que passaram pela Universidade Federal de Sergipe. A curadoria foi realizada pelas professoras Danielle de Noronha e Maíra Ezequiel e tem o objetivo de visibilizar e fomentar o cinema produzido e protagonizado por mulheres em Sergipe. Para assistir, acesse: https://bit.ly/elasportrasdascameras-sergipe

Conheça a programação:

A Água Não Flui Para Trás (Dir: Dominique Mangueira)

Sinopse: Pequenas encenações, performances, imagens de arquivo, fragmentos narrativos, reflexivos e poéticos acerca da infância, da maternidade e do isolamento social, abordados a partir do olhar subjetivo da diretora.

A Viagem de Bruna Bola (Dir. Milena Araújo e Vivian Oliveira)

Sinopse: Bruna é uma bolinha vermelha astronauta prestes a embarcar em sua primeira viagem espacial. Cumprimentando o presidente com uma leve inclinação para frente, que é como as bolas se cumprimentam no planeta Bolar, Bruna se despede do seu mundo, enquanto caminha mais perto de seu sonho intergalático, viajando através das estrelas e se aventurando em sua imaginação. A viagem de Bruna Bola é resultado do trabalho final da matéria de Animação I, do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe, finalizado em março de 2020.

Abjetas 288 (Dir. Julia da Costa e Renata Mourão)

Sinopse: Em um futuro distópico, Joana e Valenza fazem uma jornada à deriva por uma cidade nordestina. Através da música eletrônica e trilha ruidosa, as personagens nas andanças pelas ruas, performam o que sentem enquanto vivem nessa sociedade tentando entendê-la. Abjetas 288 trata sobre territorialidades, identidades e meritocracia, tudo com um tom irônico e se utilizando de elementos alegóricos que dialogam com a história popular de Aracaju.

Babá Eletrônica (Dir. Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo)

Sinopse: O curta mostra como as crianças estão à mercê da vigilância social para seguirem padrões que foram historicamente construídos na sociedade.

Em Concha (Dir: Clecia Borges)

Sinopse: Sob o olhar voltado para o isolamento social, transcreve-se através de imagens e uma narrativa poética as “frestas” que aparecem como ponto de fuga e de criação nesse momento.

Mariana (Dir. Milena Araújo)

Sinopse: Após Rita, mãe de Mariana, fugir de casa sem deixar explicações, a moça, de apenas 16 anos, se torna a única mulher a trabalhar na casa e no bar de seu pai, espaço sufocante e masculino. Assume também a função de escrivã de cartas e encomendas para as pessoas da comunidade onde mora, tarefa antes prestada a bom gosto por sua mãe. É através deste espaço entre as cartas e o bar que Mariana entra em contato com as diferentes razões da fuga de Rita, e começa a traçar também o seu próprio destino.

Não é Sobre Beleza (Dir. Amanda Nascimento, Céu Lima, Fannie Guimarães, Michael Roan e Matheus Souza)

Sinopse: É um projeto documental que propõe uma análise sobre o que é belo e explana a disparidade entre o caos do centro urbano e os profissionais de estética neste meio.

Ocupe a cidade (Dir. Thais Ramos e Kaippe Reis)

Sinopse: Sinopse: O documentário aborda as ocupações culturais em Aracaju tendo como base o evento Ensaio Aberto, que aconteceu entre 2015 e 2016.

Pattaki (Dir. Everlane Moraes)

Sinopse: Na noite densa, quando a lua sobe a maré, os seres presos no cotidiano da escassez de água, são hipnotizados pelos poderes de Yemaya, a deusa do mar.

Proibido pisar na grama (Dir. Letícia Lima de Almeida)

Sinopse: “Proibido pisar na grama” é um curta documentário que aborda as questões e posições que o racismo estrutural e institucional impõe à população negra brasileira, como o condicionamento ao trabalho braçal, a criminalidade e a falta de acesso a educação, é também uma mensagem de resistência.

Para mais informações sobre a Semana de Antropologia da UFS, acesse: https://semantufs.wordpress.com/

terça-feira, 27 de abril de 2021

Escola, Pandemia e Relações Étnico-Raciais

 

Fonte da imagem: https://medium.com/@gregoriogrisa/reorganiza


Adrielle da Silva Oliveira – Graduanda em Ciências Sociais/UFS

Bruno Edwin Santana Alves de Melo – Graduado em Ciências Sociais/UFS

Débora Rejane Viana Sobral – Mestranda em Antropologia/UFS

Gil Marcos do Santos Carvalho – Mestrando em Antropologia/UFS

Laise Maria da Silva -  Mestra em Sociologia/UFS

 

A autoestima do aluno implica diretamente no seu desempenho escolar, e um dos principais aliados da construção da autoestima é a representatividade que, mesmo nos dias de hoje, é exceção na grade escolar ainda eurocêntrica. Os negros e negras até hoje têm a escravidão como sua principal característica a ser ressaltada na academia, apesar de toda sua diversidade étnica, história e de resistência.

No ano de 1996 com intuito de reverter essa situação, a Constituição Federal institui a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), nº 9.394/ 96, que validou juridicamente a importância das ações transdisciplinares, afim de resgatar a cultura popular e à valorização da pluralidade cultural. Contudo, não havia especificação do que seria essa pluralidade. Sendo, assim, a lacuna no ensino da cultura afro-brasileira continuava apesar da lei instituída.

Somente sete anos depois, em 9 de janeiro em 2003, entra em vigor a lei Nº 10.639, que tornou obrigatório que as instituições escolares no Brasil adequassem a grade curricular fazendo a complementação aos estudos sobre África. Sendo esse o primeiro passo para construção de uma memória positiva e que gradativamente possa ressignificar a imagem que a academia transmite sobre a participação do negro na história.

Após 18 anos da implantação da lei 10.639, o ensino de temas afro-brasileiros ainda sofrem uma grande desvalorização dentro das instituições de ensino, que apesar de ser obrigatório na grade curricular, ainda é encarado como algo opcional. De acordo com Moraes (2013) uma pesquisa realizada na prefeitura de São Paulo, no ano de 2013, mostra que “mais da metade das escolas trabalham o tema. Mas na maior parte dos casos, é geralmente iniciativa isolada de um professor que gosta do tema. E há o problema da descontinuidade. Se o professor deixa a escola, muitas vezes o assunto deixa de ser abordado. ” (MORAES, 2013).

Logo, apesar da criação da lei, percebeu-se que em São Paulo as discussões sobre as relações étnico raciais nas escolas muitas vezes não passam de ações pontuais, que surgiram como iniciativa de alguns professores e não como algo obrigatório em sua grade escolar.

 Tal realidade não difere muito do resto do Brasil, e reflete mais uma vez no quanto ainda estamos atrasados com relação aos debates sobre as relações étnico raciais no ambiente escolar. Tendo isto em vista, acredita-se que tais discussões tendem a se tornar ainda menos presentes durante a pandemia.

Em tempo de conter a propagação do coronavírus, depois de um ano pandêmico, os desafios de manter a educação viva e se adaptando a um mundo virtualizado e distanciado, esbarra no separatismo social.

Segundo Palhares (2020) uma pesquisa feita pelo IBGE mostra que entre os jovens de 14 a 29 anos que abandonaram a escola no Brasil, sem ter completado a educação básica, 71,7% são negros. De acordo com a pesquisa, o motivo da evasão dado pela maioria é a necessidade de trabalhar. Levando em consideração que a pesquisa realizada foi feita antes da pandemia, a tendência é que esse número cresça devido a necessidade de aulas remotas por conta do coronavírus e a falta de condições de muitos alunos acompanharem essa nova forma de ensino é ainda maior. Acarretando em um impacto significativo em estudantes negros e negras e afetando ainda mais o debate sobre relações étnico raciais nas escolas.

Pode-se observar que a escola herda da sociedade o racismo estrutural, e a partir do momento que a mesma trata as discussões étnico raciais como algo optativo, acaba contribuindo para os atrasos nessas discussões. Mesmo com a obrigatoriedade do ensino afro-brasileiro nas escolas, durante a pandemia ficou ainda pior sua implementação, devido a desistência de negros e negras e por muitas vezes a temática ser deixada de lado em detrimento aos demais assuntos.

A aplicação dos conteúdos referentes a história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas sempre foi feita de forma superficial e pontual, sem a transversalidade necessária para o enraizamento desses temas no currículo escolar e para uma compreensão efetiva das desigualdades e opressões raciais que marcam a história do país e o cotidiano dos alunos e alunas negros e negras.

Com a virtualização do ensino e a consequente redução dos conteúdos escolares, comprimidos para caber nas vídeo aulas, principalmente na rede pública, que passou por uma ainda maior uniformização dos materiais de ensino, a “temática afro brasileira” ficou ainda mais invisibilizada, insuficiente talvez seja a palavra certa, diante de um contexto de aumento exorbitante da vulnerabilidade das populações negras, e em que a reflexão sobre o racismo e as desigualdades geradas por ele, poderiam ser, mais do que nunca, um instrumento para compreender e lidar com a realidade.

Cresce a pobreza e também as correntes que mantém as populações negras nos grupos subalternizados. Longe da escola, devido aos altíssimos índices de evasão, e de sua história, o caminho para a construção da equidade social e racial vai ficando cada vez mais longo. Por isso, se torna mais urgente a aplicação efetiva da lei 10.639, e para isso faz-se necessário produções que se adaptem a essa nova realidade das escolas.

Diante desse cenário caótico é possível ver algumas alternativas para lutar contra mais esse entrave nas discussões sobre as relações étnico raciais no ambiente escolar. Uma alternativa que pode ser apontada é a iniciativa de projetos, como o do Grupo de Estudos e Pesquisas em Relações Étnico-Raciais, ErêYá, da Universidade Federal do Paraná, que produz e divulga materiais sobre a cultura afro em tempos de pandemia, e pode servir como referência para que professores trabalhem a temática em aulas remotas.

É claro que para obtermos um avanço e não regredimos ainda mais no debate étnico racial no ambiente escolar, é preciso encarar a temática como algo obrigatório e não optativo, fazendo com que mesmo em tempos de pandemia a discussão não seja ainda mais esquecida.

Referências

Moraes, Maurício. Ensino da cultura negra ainda sofre resistência nas escolas. BBC News/ Brasil, 2013. Disponível em:

<https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/11/131118_educacao_negro_mm>

Palhares, Isabela. Negros são 71,7% dos jovens que abandonam a escola no Brasil. Folha de São Paulo, 2020. Disponível em:

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/06/negros-sao-717-dos-jovens-que-abandonam-a-escola-no-brasil.shtml

Grupo ErêYá - https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/grupo-de-estudos-de-relacoes-etnico-raciais-produz-conteudo-digital-como-alternativa-a-pandemia/

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), nº 9.394/ 96 - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

Lei Nº 10.639 - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm



JUVENTUDES E PANDEMIA DO COVID-19

 REFLEXÕES DO GRUPO DE ESTUDOS DE JUVENTUDES NO SEMESTRE 2020.2


 Anatil Maux de Souza

João Víctor Pinto Santana

Mateus Antonio de Almeida Neto 


Em meio a uma pandemia viral de contágio por vias de transmissão aérea, o Brasil passa, no ano de 2021, pelo décimo terceiro mês de calamidade sanitária em toda a sua extensão territorial. A generalização não é universalizadora aqui. É o próprio caos que se dissemina em variantes num embate cuja resistência consiste em apontar para a vacina como solução. A experiência no Sudeste brasileiro é diferente da experiência no Nordeste, que É diferente nos contextos de classes médias e nos contextos baixa-renda e zonas periféricas.

Neste momento atual – mesmo com todos os decretos dos governos estaduais/municipais e o empenho para conter a pandemia, tanto através de auxílios, lockdown, hospitais de campanha e da corrida europeia e asiática para a confecção de uma vacina eficaz – o Brasil apresenta o maior número de casos e mortes durante toda a pandemia.

Não restam dúvidas, portanto, que é preciso olhar para o que se tem como ideal utópico da quarentena e o que efetivamente é possível realizar dela em termos práticos e distópicos. A pandemia é um acometimento global, mas não é um fenômeno universal.

Os dados mundiais, relacionados ao ranking de vítimas da covid-19, demonstram que o Brasil está atrás apenas dos Estados Unidos da América - que em janeiro de 2021 elegeu o democrata Joe Biden como novo presidente (o que pode ser traduzido como uma grande insatisfação do povo norte-americano com a política do republicano Donald Trump). O presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, era totalmente afinado com a política de Trump, um tipo de neoliberalismo com características nacionalista e conservadora. Esta realidade pode demonstrar que as esferas políticas do Brasil não se afinaram de forma objetiva para conter o avanço da Covid-19.

Paralelamente, no Brasil, fatos jurídicos e sociais (decisões judiciais; escândalos de corrupção; requerimentos de impeachment, protestos, panelaços, negacionismos etc...) reacendem as chamas da polarização político-partidária (delimitada, basicamente, entre esquerda/direita), que em nada contribuem para um direcionamento efetivo da crise humanitária e sanitária que envolve a realidade brasileira, que já possui variantes específicas do covid-19. 

Enquanto a pandemia do covid-19 exacerba e revela cenários problemáticos de uma trajetória nacional nos níveis estruturais verticais (política nacional ou política “global”) e horizontais (grupos de risco e populações vulneráveis), o isolamento social se torna um privilégio para populações com empregos estáveis e para quem tenha uma seguridade e que garanta o regime de emprego sem afetar a subsistência.

A juventude assume um protagonismo social e moral em toda essa discussão, visto que, por um lado, se apresenta como o principal grupo social etário responsável por amenizar/evitar um colapso financeiro/econômico no país em um futuro próximo, entretanto, por outro lado, os jovens assumem uma excessiva responsabilização pela transmissão do coronavírus, pelo fato de não terem condições de parar as suas atividades laborais (é o caso, por exemplo, dos trabalhadorxs em serviço de delivery) e/ou, eventualmente, estarem buscando manter seus espaços de sociabilidade como forma de resistência.

Ao que parece, a discussão da juventude como “problema” volta à tona nas ciências sociais. Desta vez, com uma roupagem diferente, pois a juventude passa a ser compreendida, ao mesmo tempo, como “salvadora” e/ou “vilã” da pandemia no Brasil.

Assim, nota-se que os jovens têm se articulado pelas redes sociais, divulgando festas e encontros movidos à música, dança, bebidas e drogas em geral. Estes momentos fortuitos, para esta população, são formas de dinamizar o lazer maquinofaturado, trabalho e renda diante dos impactos causados pela Covid-19, ao mesmo tempo em que negligenciam os impactos causados pela pandemia.

Dentro desse contexto de instabilidade e insegurança sanitária-político-social, os jovens, diante da denominada “segunda onda” da Covid-19, têm sido descritos pelas mídias e os profissionais da área da saúde como um dos principais vetores de infecção e da propagação do vírus neste momento.

Entendemos por “juventudes” um recorte geracional complexo, que vai desde aqueles indivíduos nascidos pós-queda do Muro de Berlim (1989), que vivenciaram a emergência das transformações tecnológicas do modelo analógico para o digital, como os que são considerados nativos da revolução digital, imersos numa cultura de trocas, trabalho e socializações diante das redes sociais digitais. As juventudes do tempo presente podem ser consideradas herdeiras de uma cultura de consumo e estética correlacionada a uma dinâmica do capitalismo de “rede de fluxos”, que tem demonstrado uma necessidade crescente por reformas trabalhistas, que paulatinamente tem precarizado as formas de autonomia desta população, principalmente das classes baixas, que associam o tempo da juventude entre a escolarização, o trabalho, o lazer e a constituição de família.

No contexto atual, o uso de aparelhagem tecnológica, a exemplo de computadores, notebooks, tabletes e celulares modelos smartphones conectados a internet, tem contribuído e fissurado os bloqueios da indústria cultura e do espetáculo, dinamizando toda uma cultura e estética que, provavelmente, até o final do século passado, eram restritas a determinado territórios, a exemplo de uma cultura que emergia e circulava apenas em contextos vistos como periféricos, que passou a se movimentar por outros lugares, a exemplo de espaços considerados mais elitizados. São as novas “agências estetizadas”, um fenômeno que tem impactado indústria burguesa que se apropria da estética como meio de produção e formam estilos de vida e nichos de mercado em escala transnacional. Portanto, é crucial refletir sobre as “juventudes” e a noção de “agências estetizadas” no cenário de pandemia no Brasil.

Nesta toada, as universidades brasileiras assumem o papel social de resistência e reforçam a função das infraestruturas que funcionam como produtoras de ciência e de conhecimento, e atuam no âmbito da formação de recursos humanos. Afinal, a quem serve o aparato das técnicas nos avanços tecnológicos e científicos? De fato, atualmente não estão no Ministério da Saúde, nem muito menos inseridos em reflexões e embasamentos de políticas públicas. Diante dessas condições estruturais, existe uma experiência distinta dos indivíduos nas suas experiências de vida em relação ao pertencimento desse projeto de saúde coletiva. Universitários docentes e discentes com o isolamento social ficaram impossibilitados (fisicamente) de ocuparem as salas de aula de fato, assim como também muitas pesquisas se viram estagnadas diante desses agravantes. O fazer científico assumiu outras formas e passa a existir (e resistir!) na modalidade remota.

Exatamente dentro desse contexto que o “Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas” (GERTS), através do Grupo de Trabalho intitulado: “Juventudes”, sob a supervisão de Prof. Dr. Frank Marcon, no ano de 2020, entre os meses de Agosto e Dezembro, realizou atividades mensais, por meio de encontros remotos através do aplicativo googlemeet, com o intuito de manter em circulação o conhecimento acerca da temática “juventudes” como uma faixa-etária geracional interessante para pensar processos históricos no país, especialmente no atual contexto de pandemia do covid-19.

As sessões contaram com a presença de pesquisadores e pesquisadoras de diversas universidades brasileiras (a exemplo da: Unb, UFAL, UFRN e UFS), em diferentes níveis (doutores; doutorandxs; mestres e mestrandxs; graduadxs e graduandxs) e foram divididas entre debates e compartilhamentos teóricos sobre os textos e troca de experiências dos pesquisadorxs durante o contexto da pandemia. Os encontros do grupo de estudos foram divididos em quatro sessões temáticas, que trataram de: (a) práticas e representações juvenis em suas nuances desde corporeidades e estetizações à formas de comunicar; (b) geração propriamente dita na literatura clássica da sociologia da juventude; (c) a temática da precariedade na construção de ser e estar nas relações e, por fim, (d) a discussão sobre juventudes e políticas públicas com o enfoque na modulação teórica das relações das juventudes com o sistema democrático e os modelos convencionais de participação política que inscreve alguns fatores que são melhores entendidos quando olhamos para as gerações de juventudes em termos comparativos em meio a seu meio sócio político vigente a época.

Ao debatermos sobre o tema “Práticas e representações juvenis”, analisamos as agências estetizadas que se verificam nas novas formas de protagonismo juvenil, como é o caso dos ativismos e protestos sociais que partem de um processo de socialização no universo digital. Portanto, entendemos como as formas de acionamento, estetização, mobilização, sentidos de resistência e reivindicação se tornam essenciais nesse contexto. A grande questão que se levanta dessa discussão parece ser a seguinte: e no contexto de pandemia, onde o isolamento social é a melhor medida de prevenção ao contágio, como é possível analisar este fenômeno? Formas de protagonismo virtual também foram discutidas e problematizadas.

Considerando a necessidade de compreender o conceito de geração nas teorias sobre juventudes, bem como debater sobre o problema da juventude na sociedade moderna, a sessão 2, sob o  título: “Geração nas teorias sobre juventudes”, partiu da premissa de que é necessário um aprofundamento acerca da teorização sobre os estudos geracionais na sociologia das juventudes.

Na sessão 3, tendo o objetivo de refletir sobre as diversas formas de precarização, nas esferas: simbólica, econômica e social, que envolvem a juventude contemporânea foi fundamental dimensionar as facetas do fenômeno social denominado de: “juvenicídio moral”, bem como suas causas e efeitos na realidade prática e no estilo de vida dos jovens. Nesse sentido, percebe-se que a juventude vem se tornando a categoria social que arcará com o ônus (não somente econômico, mas também social, político e ideológico) oriundo da pandemia do coronavírus e das omissões dos representantes institucionais para combate deste vírus.

E, por fim, tendo como premissa o entendimento de que a relação entre juventude e políticas públicas é um pilar fundamental na compreensão sociológica das juventudes, a sessão 4 visou debater sobre as concepções sociológicas de juventude com a perspectiva de problematizar o alcance e efetividade de políticas de/para/com a(s) juventude(s), assim como a questionar a visão “romantizada” e, ao mesmo tempo, pejorativa, da relação entre juventude e política. Nesse sentido, temas como: a (in)efetividade da Lei Aldir Blanc; e operacionalização do auxílio emergencial foram trazidos à baila nas discussões.

*Este breve texto faz parte de um conjunto de reflexões do Grupo de Estudos de Juventudes durante o semestre letivo de 2020.2. Desde já, agradecemos o espaço de interlocução que foi criado entre os pesquisadores participantes e, aproveitando a oportunidade, registramos a nossa expectativa de que este debate tenha continuidade nos próximos semestres, motivo pelo qual, em breve, estaremos divulgando um novo cronograma de atividades para o semestre de 2021.1. Contamos com a sua participação e colaboração!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FEIXA, Carles; LECCARDI, Carmem. O conceito de geração nas teorias sobre juventude. In: Revista Sociedade e Estadovolume 25, número 2 Maio / Agosto, 2010.  


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MARCON, F. Agências Estetizadas, Geração Digital, Ativismos e Protestos no Brasil. In: PONTO URBE, v. 23, p. 1-19, 2018. 

 

MARCON, F. Juventudes, precariedades e estetização: mobilidades, formas de trabalho e estilos de vida. In: MARCON, F.; NORONHA, D. P. D. Juventudes & Movimentos. Aracaju: Criação, 2018. p. 335-353

 

STRECKER, T.; BALLESTÉ, E.; FEIXA, C. El juvenicídio moral en España: antecedentes del concepto causas y efectos. In: CABASÉS, M. À.; PARDELL, A.; FEIXA, C. Jóvenes, trabajo y futuro. Valencia: Tirant Lo Blanch, 2018. p. 430-460.