terça-feira, 27 de agosto de 2019

Resenha "Diferença, diversidade, diferenciação", de Avtar Brah



Foto: Luis Alvarez
Por Élida Braga


Esse texto encontra-se no capítulo 5 do livro Cartografias da Disápora: identidades em cuestión e traz reflexões que envolvem cultura e identidade, as quais apontam para as discussões sobre diferença e diversidade. Ao explorar e promover as interseções de raça, gênero, classe, o trabalho de Avtar Brah contribui para se perceber os modos diferenciados de pensar na produção da diferença e da desigualdade em experiências cotidianas, de modo articulado, colocando outros elementos que nos ajudam a compreender as violências em termos de gênero, raça e classe, que se constituem em marcadores sociais da diferença, vistos de maneiras interseccionadas.
Logo no início do texto, ela aborda o desenrolar do movimento negro, das pessoas de cor como eram descritas, sob as formas de resistência à estigmatização, inferiorização e exclusão. Faz uma crítica quando afirma que discursos etnicistas procuram impor noções estereotipadas de necessidade cultural comum, quando, na verdade, o foco deve recair sobre como essas necessidades são construídas e representadas nos vários discursos. Brah (2006) reforça que o termo “negro”, por exemplo, assumiu novos significados, sendo resultado de resistência e luta contra o colonialismo, mas também se refere ao surgimento de conflitos internos com os membros dos grupos, em disputas por emprego no setor estatal, pela mudança do próprio termo “negro” que já não abrigava mais os asiáticos, entre outras questões. Argumenta ainda que as interconexões entre os vários marcadores de diferenças existentes levam em conta os diferentes racismos posicionados entre si.
Em seguida, traz abordagens do feminismo, o qual, após a Segunda Guerra Mundial, se propunha a eliminar as desigualdades de gênero com base na diferenciação sexual. Eram propostas essencialmente voltadas para o biológico e o movimento já não dava conta das demandas que surgiam. Não se tratava, no entanto, de negar a condição de mulher enquanto ser biológico, mas de pensar e questionar o que movimenta a condição de subordinação das mulheres aos homens quando apontam para as conformações biológicas (BRAH, 2006, p. 342).
Dentro das temáticas que o texto sugere, tais como escravidão, colonialismo e racismo, dentro do contexto de mercado global, é possível estabelecer conexões com a exploração de classe e gênero, as quais se entrecruzam nas relações desiguais que vão para além do local. Diante disso, a autora afirma que
[…] nosso gênero é constituído e representado de maneira diferente segundo nossa localização dentro de relações globais de poder. Nossa inserção nessas relações globais de poder se realiza através de uma miríade de processos econômicos, políticos e ideológicos. Dentro dessas estruturas de relações sociais não existimos simplesmente como mulheres, mas como categorias diferenciadas, tais como “mulheres da classe trabalhadora”, [...] ou mulheres imigrantes”, ou seja, diferenças no sentido de condições sociais (BRAH, 2006, p. 341).

Nessas estruturas apontadas, os significados aparecem em modos, discursos e diferentes formas de feminino, para os quais se apontam trajetórias, as especificidades materiais e experiências vivenciadas de modos diferentes (BRAH, 2006).
A autora aponta para o racismo como marcador “inerradicável” de diferença. Todavia, alerta para o fato de que a diferença nem sempre revela opressão, pois também pode resultar em ações democráticas (BRAH, 2006). A autora refere-se à concepção de diferença como discursos específicos que são constituídos, contestados, reproduzidos e ressignificados. Nesse contexto, Brah traz a experiência como um conceito chave, já que no cotidiano das relações há muitas questões de gênero. Desde o trabalho doméstico e cuidado com crianças, emprego mal pago, violências, exclusão das mulheres dos centros chaves de poder, entre outras questões.  Tudo isso visto socialmente de modo naturalizado até ser interrogado e enfrentado. Cada um falando a partir de suas experiências e pontos de vista.
Segundo Brah (2006) a diferença pode ser caracterizada como relação social e como identidade. A diferença como relação social sublinha a articulação historicamente variável dos regimes de poder, dentro dos quais modos de diferenciação como gênero, classe ou racismo são instituídos em termos de formações estruturadas através das contingências, ou seja, no campo das possibilidades. Assim, “o mesmo contexto pode produzir várias histórias coletivas diferentes, diferenciando e ligando biografias através de especificidades contingentes” (p. 362).
Já a diferença como identidade está intimamente ligada às questões de experiência, subjetividade e relações sociais. Assim, “a subjetividade – o lugar do processo de dar sentido a nossas relações no mundo – é a modalidade na qual o sujeito em processo ganha significado ou é experimentada como identidade” (BRAH, 2006, p. 371).
Logo, o texto de Avtar Brah nos incentiva a perceber as diferenças, para as quais não cabe mais as caracterizações fixas que os padrões coloniais nos impuseram. Nos desperta também no sentido de compreender que mais que o compartilhamento de opressões é necessário “formular estratégias para enfrentar todas elas na base de um entendimento de como se interconectam e articulam” (BRAH, 2006, p. 376).

BRAH, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Caderno Pagu (26), Campinas-SP, Núcleo de Estudos de Gênero-Pagu/Unicamp, 2006, pp. 329-376. 

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