segunda-feira, 5 de junho de 2023

Juventude e Instituição: sentimentos, percepções e o reconhecer-se para ser reconhecido

 Por Raiane Santos

 

O sociólogo e filósofo alemão, Axel Honneth (1949), ao vislumbrar a teoria do reconhecimento a partir das discussões já antecipadas na filosofia de Hegel, compreende que tal teoria é baseada em três fases: no amor, no direito e na estima. O autor entende que a primeira fase do reconhecimento, acentuada pelas relações afetivas e pelo amor, deve ser considerada sobretudo a partir das relações primárias, “na medida em que elas consistam em ligações emotivas fortes entre poucas pessoas [...] e de relações pais/filhos”. (p.159). Esta fase do reconhecimento pautada nos afetos, acaba sendo objeto de estudos também no campo da psicanálise, mostrando, inclusive, que a relação mãe-filho quando passa por um rompimento simbiótico ainda na primeira infância, pode gerar distúrbios no comportamento do bebê, isso porque “a interação entre mãe e criança se efetua como um processo altamente complexo, no qual ambos os implicados se exercitam mutuamente na capacidade de vivenciar em comum sentimentos e percepções”. (HONNETH, 2009, p.162).

No que diz respeito à segunda fase do reconhecimento, sendo o direito, Honneth (2009, p.193), afirma que “um sujeito é respeitado e encontra reconhecimento jurídico não só na capacidade abstrata de poder orientar-se por normas morais, mas também na propriedade concreta de merecer o nível de vida necessário para isso”. Por último, a terceira fase do reconhecimento - baseada na estima - demonstra que os sujeitos operam diante de um processo de solidariedade, onde as relações sociais são estabelecidas de forma simétrica. Esta última fase funciona como uma consequência da segunda, ou seja, para que o sujeito consiga se enxergar de forma valorativa em meio a sociedade, é indispensável que o mesmo se reconheça enquanto sujeito de direitos.

As três fases do reconhecimento ao serem associadas ao contexto do acolhimento institucional, nos levam a pensar que as trajetórias de vida dos jovens que já passaram e que ainda se encontram em instituições de acolhimento são atravessadas por três segmentos: o rompimento do laço afetivo/parental; a luta para que sejam vistos como sujeitos de direitos e o autorreconhecimento permeado pela estima social a partir dos valores aspirados comunitariamente, ou seja, nos espaços de acolhimento institucional.

A socióloga Lia Pappámikail, em seu artigo intitulado Juventude(s), autonomia e Sociologia: questionando conceitos a partir do debate acerca das transições para a vida adulta, menciona que diante dos vários sentidos associados à juventude, ainda é permanente a ideia de que “o jovem é alguém inacabado, em processo de construção ou em devir. Este fato imprime a esta fase de vida um incontornável caráter transitório e ambíguo que tornou desde sempre, a sua análise conceitualmente complexa (...)”. (PAPPÁMIKAIL, 2010, p.399). 

A discussão levantada pela socióloga aponta para vários temas que emergem nos debates a respeito das juventudes, mas um dos fatores que ganha foco e que podemos associar aos debates que envolvem as dimensões do reconhecimento é o processo de transição que ocorre entre as categorias jovem e adulto. Quando Pappámikail coloca que o jovem é um sujeito em processo de construção, refere-se também a condição de construir uma determinada identidade, construção esta que acaba passando, em determinada fase, pelo processo de se reconhecer e ser reconhecido em ou a partir de algo. Pensar o processo de transição entre etapas da vida implica em diversos arranjos, seja a partir do matrimônio, inserção no mercado de trabalho, independência financeira, entre outros aspectos e categorias. Nesse sentido, a reflexão que é posta em pauta coloca em questão como jovens que utilizam os serviços de acolhimento institucional se reconhecem enquanto sujeitos e de que modo o ato de reconhecer-se implica na maneira como enxergam as etapas de transição ao longo de suas trajetórias?

 

Referências:

 

HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Tradução de Luiz Repa. São Paulo: Editora 34, 2009.

 

PAPPÁMIKAIL, Lia. Juventude(s), autonomia e Sociologia: questionando conceitos a partir do debate acerca das transições para a vida adulta. Sociologia: Revista do Departamento de Sociologia da FLUP, Vol. XX, 2010, pág. 395-410.

 

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