terça-feira, 5 de junho de 2012

Mediações, representações e poder nos Estudos Culturais

Pensando nas questões teóricas e suas relações com o universo empírico de um contexto paradoxal de experiências locais implicadas por influências globalizadas, que são levantadas de algum modo nos textos de Stuart Hall, Eric Hobsbawn e Arjun Appadurai, da sessão nove e sessão dez (resenhadas abaixo), gostaria de lançar algumas provocações para o debate:

1) Como está sendo utilizada a noção de ideologia e o que ela diz sobre a noção de discurso e de representação na análise sociológica e antropológica?
2) Como são utilizadas as noções de diferença e ambivalência? Com se encaixam aí as influências das teorias da linguagem e da psicanálise?
3) Em que sentido a questão simbólica e as relações de poder são centrais para os autores?

Cada um deve pelo menos responder uma questão e também comentar as outras respondidas pelos colegas. As considerações podem ser feitas unicamente a partir dos textos em questão, mas também de outros textos com os quais autores dialogam criticamente ou ainda com a utilização de exemplos dos estudos de vocês.
Abraços

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Resenha: The Work of Representation


HALL, Stuart. “The Work of Representation”. In: HALL, Stuart. (ed.). Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. London, California and New Delhi: Open University and Sage, 2010.

Anabela Maurício de Santana
Luciano Rodrigues dos Santos
Na conceituada obra intitulada “The Work of Representation”, Stuart Hall explana que existem três enfoques que definem como funcionam as representações sociais. Para o primeiro, destaca o enfoque reflexivo, o significado está no objeto, pessoa, ideia ou evento do mundo verdadeiro e a linguagem funciona como um espelho que reflete o apropriado significado, sendo que este já existe no mundo.
Já o segundo, é o enfoque intencional, diz que é o autor/a que confere ao mundo, através da linguagem seu significado único. Para Hall o enfoque intencional é problemático, já que “não podemos ser unicamente a única fonte de significados de uma linguagem, visto que significaria que seria possível nos anunciar em linguagens absolutamente particulares”. O terceiro enfoque é o construtivista, para o qual não podemos confundir o mundo material, onde coisas e pessoas existem. Outrossim, o mundo dos símbolos, onde por sua vez funcionam a representação, o significado e a língua.
Sendo assim, os atores sociais irão fazer uso de um sistema cultural e linguístico para edificar os significados. Portanto, podemos dizer que a representação é uma prática “que utiliza artifícios e efeitos materiais, no entanto, a definição não depende do atributo material do signo, mas de seu papel simbólico”.
Sendo assim Hall na obra norteia o estudo que ele desenvolve sobre as representações. Assim, além de uma contextualização sobre as principais influências teóricas acerca do conceito, o autor adiciona uma série de análises empíricas.



Resenha: Para Allon White - Métaforas de Transformação


HALL. Stuart.Para Allon White- Métaforas de Transformação. In.: Da diáspora:  Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
Anabela Maurício de Santana
Luciano Rodrigues dos Santos

O capítulo ora mencionado tem o objetivo de tecer algumas explanações sobre uma obra publicada nos anos 80 por dois estudiosos da teoria de Bakhtin, trabalhando com considerações como dialogismo e carnavalização, que são Allon Whit e Peter Stallybrass.
A obra trata da perseverança do mapeamento dos domínios cultural e social na Europa em conjuntos simbólicos do tipo alto e baixo e ao mesmo tempo, vislumbra o processo de violação do popular, através da carnavalização. Assim, Hall fala da aproximação do pensamento de Bakthin e os Estudos Culturais.
Não obstante, o carnaval é a metáfora da suspensão e inversão temporária e sancionada da ordem, visto que o baixo se torna alto e o alto, baixo. O estudo de Rabelais proporcionou que Bakhtin passe a “considerar a existência do popular como um domínio e uma estética totalmente alternativos”. Logo, Bakhtin “utiliza o “carnaval” para sinalizar todas as formas, tropos e efeitos nos quais as categorias simbólicas de hierarquia e valor são invertidas”. Nesse sentido, Hall menciona que o “popular” de Bakhtin é caracterizado pelas práticas e tropos da “combinação dos contrários”, a saber, a noiva “chorando de rir e rindo até chorar”, isto é, as “duplicidades” da linguagem, as coisas invertidas ou às avessas. Todavia, o surpreendente e original a respeito do “carnavalesco” enquanto metáfora da transformação cultural e simbólica é que esta não é simplesmente uma metáfora de inversão que possibilita colocar o “baixo” no lugar do “alto”, preservando a estrutura binária de divisão entre os mesmos, pois no carnal deste autor o baixo invade o alto, ofuscando a imposição da ordem hierárquica, revelando a interdependência do baixo com o alto e vice-versa, a natureza mista e ambivalente de toda vida cultural.
Sendo assim, Stuart Hall sugere uma forma de refletirmos as modificações, considerando as relações entre os domínios social e simbólico, visto que as metáforas clássicas ligavam-se ao “momento revolucionário”. Outrossim, essas metáforas concebem o social, o simbólico ou o cultural como se fossem costurados um ao outro e quando as hierarquias sociais são demolidas, a qualquer momento uma inversão dos valores e símbolos culturais tem que acontecer. Isso posto, cabe salientar que existem diversos tipos de metáforas pelas quais refletimos a alteração cultural, cujas metáforas também tendem a mudar, assim aquelas que se apoderam de nossa imaginação e administram durante um dado momento os nossos pensamentos acerca das probabilidades da alteração cultural por conseguinte cedem lugar às novas metáforas conforme expressa.
Os autores apresentam como proposta meio para que as metáforas alternativas venham surgir como possibilidade de acordo efetivo, isto é, faz-se necessário levar em conta que existe um relacionamento estreito entre o social e o simbólico, arraigado de poder e, por conseguinte esse  jogo de poder se faz presente, no entanto, não são os fatos políticos ou históricos que detêm em si o poder, mas o modo como a população os concebe.
Desata forma, ao longo do capítulo o autor expressa que a questão do cânone deve ser considerada como paradigma, isto é, mesmo que se deseje desconstruir a arquitetura ideológica da modernidade, ainda é necessário refletir a partir do que já está posto. Logo, alguns conceitos como o de ambivalência, hibridismo e interdependência passam a perturbar e infringir a estabilidade do ordenamento hierárquico binário do campo cultural alto e baixo.

Resenha Stuart Hall

 Juliana Almeida, Gregorio Cerqueira e Mirtes Rose Menezes

HALL, Stuart. Para Allon White: metáforas de transformação. HALL. Stuart. Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: EdUFMG/Humanitas, 2003.

Hall faz uma reflexão em torno da obra A política e a poética da transgressão, de Peter Stallybrass e Allon White, que explora as categorias culturais ‘alto/baixo’ e sua predominância na Europa. O autor fala das metáforas da transformação e lança hipóteses sobre o que aconteceria se os valores culturais predominantes fossem transformados e novos significados socioculturais surgissem. Essas metáforas devem ter uma preocupação analítica para se entender as relações entre os domínios social e simbólico nos processos de mudanças.
 Uma crítica às idéias da classe dominante de Marx é feita por Hall, que relaciona à força material com a força intelectual – uma das metáforas clássicas de transformação. A teoria cultural já abandonou esse ponto de vista marxista e trata a questão social e simbólica na perspectiva de um ‘jogo’ entre poder e cultura. Esta referência à cultura ‘alta e ‘baixa’ não é recente, mas ainda nos é atual quando há a ameaça da ‘cultura minoritária’ pela presença constante da cultura de massa mercantilizada.
Stallybrass e White se apóiam na idéia de Bakhtin sobre o carnaval para dar uma noção de ‘transgressão’ dessa dualidade cultural. Nesse aspecto, o carnaval traz uma inversão temporária e consentida da ordem, onde alto e baixo se confundem. Essa metáfora do carnaval representa uma ligação com novas fontes de vitalidade, onde a fertilidade e os excessos proporcionam o transbordamento da energia libidinal e transformam o carnavalesco em uma poderosa metáfora da transformação social e simbólica. Não é simplesmente uma metáfora de inversão da estrutura binária, mas a transgressão dessa dicotomia ofuscando a determinação da ordem hierárquica e revela uma interdependência.
Desde o modernismo tem sido cada vez mais difícil manter o alto e o baixo distanciados nos seus modelos de classificação e o ‘popular’ vem sendo repensando na perspectiva do relacionamento, da resistência na visão de Gramsci onde o conceito ‘nacional-popular’ é um terreno de luta cultural e hegemônica ‘relativamente autônomo’ em relação a outros tipos de luta social. Hall cita Volochínov e o livro Marxismo e filosofia da linguagem, onde o caráter discursivo da ideologia é estabelecido e o domínio da ideologia e dos signos se coincidem. Esta obra exerce uma função crítica e faz um deslocamento da metáfora ‘base e superestrutura’ para a concepção ideológica do ‘discurso e poder’.
Hall cita Derrida, para definir que essa distinção alto/baixo está sob rasura e os conceitos de ambivalência, hibridismo e interdependência transgrediram essa estabilidade binária no campo cultural. Isso não significa que essa força metafórica ‘de cima’ e ‘de baixo’ sejam abandonadas. Eles continuam sendo fundamentais à organização das práticas culturais que não se situam fora do jogo do poder, na medida em que, através da cultura o poder opera para sobrepor, regular os mecanismos da hegemonia cultural. Portanto, como bem diz Hall, “aquilo que é socialmente periférico pode ser simbolicamente central”. (p. 226)

Resenha Appadurai

 Juliana Almeida, Gregorio Cerqueira e Mirtes Rose Menezes

APPADURAI, Arjun. Etnopaisagens globais: notas e perguntas para uma antropologia transnacional. In: Dimensões culturais da globalização. Lisboa: Teorema, 2004.
Appadurai utiliza um neologismo – etnopaisagem - para abrir a discussão a respeito das etnografias. A forma como o autor coloca, permite verificar o “ângulo” do qual esses trabalhos tão freqüentes na Antropologia são elaborados. A que medida a posição do observador é modificada a forma de ver o objeto (grupo) a ser estudado é modificado, as representações são modificadas. À medida que o grupo também muda, sejam essas mudanças sócio-espaciais e cultural na perspectiva da identidade, todas as representações se configuram em novas, colocando o trabalho etnográfico sem bases concretas que o sustente. Preocupado com essas mudanças dentro do binômio tempo/espaço, o autor faz analises, a cerca dos desafios e da posição do que ele chama de cosmopolitismos etnográfico, onde a partir dessa visão o produto cultural, é resultado de um processo de desterritorialização que vai além dos limites e das fronteiras políticas dos territórios físicos. Esse processo de desterritorialização alimenta o imagético, principalmente daqueles que deixaram os seus territórios, abrindo uma possibilidade de apropriação do capital para realizar essa fantasia de levá-los a “terra dos seus sonhos”.
Mediante ao que foi exposto, Appadurai faz uma analise dos estudos culturais em terreno global, pois a cultura constitui-se em um conceito central na Antropologia. Para que os antropólogos possam entender o mundo dentro desse contexto de desterritorialização, tem que extrapolar as fronteiras da etnografia tradicional, fazendo as suas constatações em um campo global, sem as delimitações, mas vivido e onde as relações acontecem. Para tanto, Appadurai, esclarece mencionando a importância dos meios de comunicação de massas que nos coloca em contato com o “mundo” gerando dessa forma a introdução de elementos (não pertencentes as suas estruturas originais), mas que alteram a existência local. Para melhor compreensão, o auto, cita três exemplos: o primeiro, uma visita a Índia, acompanhado por sua companheira que é norte americana, o filho mais novo, o irmão e outros membros de uma comitiva que faziam parte de um ritual, para o casamento da sua sobrinha, para a consolidação da suas analises a cerca das desterritorialidades e da etnografia cosmopolita as imagens formuladas eram bem diferentes da realidade.
No segundo exemplo, Appadurai cita um conto de Cortázar, onde é narrado o esforço do atleta com relação as piscinas. É um exemplo baseado nas “forças” que tencionam a chegada da superação ou as limitações impostas pela natureza com relação ao fluxo de ir e vir, mas que para atingir o objetivo, muitos atletas acabam acarretando sérios problemas ou indo ao óbito. Quando nos remetemos ao campo das relações culturais, percebemos como os fatos podem ganhar certas conotações a depender da localidade o qual estão inseridos e dessa forma se justificam as singularidades. No terceiro e ultimo exemplo, o cinema entra em cena com India Cabaret, que narra a historias das mulheres que migram dos seus territórios e tornam-se dançarinas. O mais importante para Appadurai, é a forma como o filme expõe a imaginação dessa mulheres, no que diz respeito à nova vida fora do seu território contribuindo para essa visão de mundo desterritorializado.
Algumas reflexões foram feitas conduzidas pelo texto de Arjuna Apadurai: o termo etnopaisagem é usado para se referir aos velhos dilemas da antropologia, como a influencia das tradições de percepção e perspectivas e o local do observador para o processo de produção das representações, somado com as novas configurações sociais em mudança. Esse processo de mudança, influenciados pela globalização, coloca os grupos sociais em desterritorialização que afeta diretamente, segundo Appadurai, a base da representação cultural. Aponta ainda, uma nova dimensão deve ser estudada pelo antropólogo: a influência do cosmopolismo.
Dessa forma a antropologia e a etnografia se encontram diante de um desafio metodológico: como trabalhar a produção das representações em culturas deslocadas? Existe um esforço da etnografia para aperfeiçoar sua metodologia nesse novo cenário, entretanto para o autor não é o bastante, segure mudanças mais estruturais e sugere ainda uma etnografia genuinamente cosmopolita. Outro ponto que Appadurai levanta é o espaço que a imaginação tem ganhado na vida das pessoas e consequentimente na realidade social. Antigamente a imaginação só serviria como fuga da vida real, mas com o desenvolvimento da mídia e os meios de comunicação de massa associados às possibilidades de consumo, ambos os frutos do capitalismo global, proporcionaram a realização de ações que se restringiam ao mundo das idéias.
Do modo como o autor ressalta o crescimento da importância da imaginação pode-se pensar que a representação da vida social, que é uma idéia, ganha mais foças nas áreas que tratam da imaginação como a arte de forma geral e a literatura especificamente, que de certa forma reforça o que os estudos culturais vem utilizando e de certa forma o autor coloca que os estudos culturais está na frente da etnografia para compreender dilemas da representação sociais na atualidade.

Resenha


APPADURAI, Arjun. Etnopaisagens globais: notas e perguntas para uma antropologia transnacional. In: Dimensões culturais da globalização. Lisboa: Teorema, 2004, p. 71-93.

HALL, Stuart. Para Allon White: metáforas de transformação. In: Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: EdUFMG/Humanitas, 2003, p. 205-228.

Lucas Santos Passos
Sérgio da Silva Santos

APPADURAI apresenta em seu trabalho uma discussão em torno de uma noção da etnopaisagem, que ele define como uma forma de construir uma ideia de não homogeneidade da identidade. O autor remete à perspectiva de uma indeterminação quando se trata de identidade, principalmente por não se construir de forma redomada e simples. Sua ideia passa por uma discussão importante para a produção nas ciências sociais na contemporaneidade, buscando uma reinterpretação nas análises sociais e resignificação dos termos produzidos por uma teoria social herdada do ocidente. Assim, propõe uma critica ao determinismo de algumas correntes teóricas como o funcionalismo e o estruturalismo.
A crítica ao funcionalismo presume sua ideia fundamental de organicidade das relações sociais, que determina o lugar e a função dos indivíduos num sistema. Esse pensamento influenciou muito as produções da antropologia e da sociologia, e que sem certo sentido, ainda influenciam muitas das produções contemporâneas. A crítica ao estruturalismo remete a ideia de determinação de termos, sendo o marxismo o mais importante lócus de produção. Termos como classes sociais, modo de produção, estão sempre em consonância com uma ideia de estrutura, com um momento de estruturação e de classificação das relações sociais. E que emerge também na contemporaneidade.
Nesse sentido, APPADURAI propõe a saída desse modelo de pensamento, e propõe um caminho de indeterminação, de reinterpretação e de resignificação. Para construir um modelo de produção etnográfico que permita uma analise no sentido de deslocamento do específico e do particular. Sendo assim, o autor se coloca diante do problema ao incitar uma discussão interessante ao momento atual da produção sociológica e antropológica, permitindo-se aumentar o universo de análise a partir da observação dos fenômenos da desterritorização.
Para APPADURAI, esse fenômeno indetermina a identidades, criam formas de representação a partir do mecanismo da imaginação. A partir dessa ideia, o autor afirma que os termos da negociação entre vidas imaginárias e mundos desterritorializados são complexos e por certo não podem ser captados somente pelas estratégias de localização da etnografia tradicional. Assim, o que uma nova espécie de etnografia pode fazer é captar os impactos da desterritorização sobre os recursos imaginativos das experiências locais vividas. Ou seja, a questão central da etnografia agora é a seguinte: qual a natureza localidade como experiência vivida num mundo globalizado, desterritorializado?
APPADURAI mostra que o princípio de indeterminação, somado com as novas perspectivas contemporâneas de vida social, onde a desterritorialização e o imaginário ou, como ele mesmo afirma, a fantasia como pratica social, não devem ser entendidos pelos etnógrafos de forma contentar-se com a percepção “falsa” do local. Devem-se sim entender os deslocamentos ocorridos no intuito de não conceber a identidade como algo genérico.
Já HALL nos traz em seu texto uma discussão levantada por Allon White e Peter Stallybrass no livro “A política e a poesia da transgressão”. A ideia discutida aqui é desdobramento da teoria cultural que ocorria nos domínios dos estudos que aparentemente se mostravam incompatíveis. Nesse sentido, esclarece-se que a discussão de maior importância dentro do contexto dos dois autores é a “natureza contraditória das hierarquias simbólicas”. Hall discorre sobre a perspectiva de que o baixo não é mais a imagem refletida do alto. Assim, esse processo de transformação permite que haja uma aproximação com os estudos culturais.
Desta forma, é possível afirmar que HALL interpreta o texto de Allon White e Peter Stallybrass a partir de um posicionamento próximo ao dos Estudos Culturais. Assim, possibilita a aproximação dos autores com seu pensamento. Hall identifica uma transgressão à estabilidade do ordenamento cultural de alto e baixo a partir dos conceitos de ambivalência, hibridismo e interdependência.
Os textos apresentam uma proximidade teórica importante quando ambas pretendem desenvolver uma possibilidade de desconstrução de ideias, a partir de uma criação ou significação. A valorização do imaginário permite uma abordagem crítica da racionalidade, e permite um pensamento voltado para um sujeito essencializado pela forte tendência a criação, ou mesmo a construção de uma realidade a partir desta.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os estudos culturais e as metáforas de transformação

[i]
Daniela Nogueira Amaral
Danielle Parfentieff de Noronha
Tânia Carolina Viana de Oliveira

O texto Para Allon White: Metáforas de Transformação é resultado de uma palestra ministrada por Stuart Hall em memória de Allon White, organizada pela Universidade de Sussex. A partir do texto A política e a poética da transgressão, de White em coautoria com Peter Stallybrass, Hall fala sobre a mudança nas metáforas de transformação, o diálogo que os autores fazem com Mikhail Bakhtin e a relação com a teoria cultural desenvolvida no Centro de Estudos Culturais, iniciada nos anos 1970.
As mudanças culturais são pensadas a partir de diferentes tipos de metáforas, como por exemplo, as ideias sobre o que aconteceria se o discurso da cultura hegemônica fosse questionado e novos discursos e configurações socioculturais começassem a ser evidenciados. Tais metáforas, além de permitir discorrer sobre possibilidades de transformação, devem ainda promover meios de imaginar as relações entre os domínios sociais e simbólicos.
As metáforas clássicas de transformação eram modeladas pelo “momento revolucionário” e pensadas sempre a partir da inversão, quando há a substituição total da cultura alta pela cultura baixa. White e Stallybrass expandem estas metáforas e desenvolvem uma nova forma de pensá-las, não apenas a partir da transposição que coloca o baixo no lugar do alto, mas infringindo este binarismo e levando em consideração outras questões simbólicas e culturais que estão em jogo no cerne destas relações.
No livro A política e a poética da transgressão, os autores ultrapassam os limites propostos pelas metáforas clássicas da transformação e estabelecem um diálogo crítico com a psicanálise de Freud e, principalmente, com Bakhtin.  Para os autores, a noção de transgressão se funda na ideia de Bakhtin sobre o carnaval. “O carnaval é a metáfora da suspensão e inversão temporária e sancionada da ordem, um tempo em que o baixo se torna alto e o alto, baixo, o momento da reviravolta, do mundo “às avessas” (p. 224).
No carnaval há uma inversão das categorias simbólicas de hierarquia, os discursos e as práticas são alterados e os modelos clássicos do que se entende por formal são ultrapassados. “A natureza contraditória das hierarquias simbólicas” é o que move a mudança nas metáforas de transformação proposta por White e Stallybrass. Para Stuart Hall, o processo de mudança entre as metáforas é resultado de uma transição na vida política e cultural de uma forma geral, que também pode ser percebido no trabalho mais crítico desenvolvido nas últimas décadas, como o realizado no Centro de Estudos Culturais a partir dos anos 1970.
Com base em três exemplos, Hall pontua as “afinidades eletivas” do trabalho de Bakthin, e também com o livro de White e Stallybrass, com os debates da teoria cultural dos estudos culturais. O primeiro exemplo pertence ao início dos estudos culturais, quando já era questionado o uso das categorias alto e baixo; o segundo é sobre um trabalho com subculturas jovens, onde é repensado o termo popular e, o terceiro, sobre a análise do discurso ideológico, com base num debate com o livro Marxismo e filosofia da linguagem, conhecido como sendo um trabalho de V. N. Volochínov, mas que carrega a suspeita de ter sido escrito por Bakhtin.
Atualmente, a transgressão do binarismo entre alto e baixo já é comum dentro da teoria crítica, mas como demonstra Hall, não se trata apenas de abandonar esta distinção, mas transcendê-la. Para White e Stallybrass, os processos de ordenação e classificação que os eixos alto e baixo representam como processos culturais fundamentais são essenciais para a constituição da identidade de qualquer domínio cultural. Os conceitos de ambivalência e hibridismo, por exemplo, que começaram a transgredir a ordem binária do campo cultural em alto e baixo, “não destroem a força operacional do princípio bieráquico da cultura” (p. 239), sendo ainda fundamental para a organização e regulação da prática cultural.
Segundo Stuart Hall, é necessário “mudar o foco da atenção teórica das categorias “em si mesmas”, enquanto repositórios de valor cultural, para o próprio processo de classificação cultural” (p. 239). Não se deve esquecer que as práticas culturais fazem parte do jogo do poder e das tensões que permeiam os mecanismos da hegemonia cultural.
Dessa maneira, Hall chama atenção para a relevância de retomar um texto lançado há anos, que se torna bastante pertinente nas discussões presentes no âmbito dos Estudos Culturais, em que o fluxo da transformação cultural não ocorre apenas de cima para baixo, como numa dualidade antes proposta, e sim proveniente de diversas maneiras e “direções” presentes no debate cultural. Não é preciso abandonar certas metáforas de transgressão, e sim deslocá-las para outro patamar discursivo.

[i] Resenha de HALL, Stuart. Para Allon White: metáforas de transformação. In: Da diáspora – Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: EdUFMG/Humanitas, 2003, pp. 219 – 244.

Etnopaisagens globais: notas e perguntas para uma antropologia transnacional

[i]
Daniela Nogueira Amaral
Danielle Parfentieff de Noronha
Tânia Carolina Viana de Oliveira


O texto que constitui o terceiro capítulo do livro Dimensões Culturais da Globalização de Arjuna Apadurai tem o sugestivo título de Etnopaisagens globais: notas e perguntas para uma antropologia transnacional. A partir do neologismo etnopaisagens, o autor enfatiza, ao tempo que esclarece, um outro modo e um novo olhar sobre aquilo que até então era preponderantemente a forma mais corrente de se fazer antropologia, afinal, a perspectiva na qual se move e se detém o observador para explorar o seu objeto de análise afeta também aquilo que se observa - etnopaisagens que reverberam diferentemente para aqueles que clicam aspectos diferenciados de suas nuances. Em outros termos, e atualmente de maneira mais paroxista, o antropólogo que trabalha tendo como instrumento de investigação o estudo etnográfico, no instante mesmo de focar o outro, interfere no modo de percepção e, ousamos dizer, até de tradução desse outro. Sabemos que de certa maneira esse imbróglio metodológico já há muito é discutido e enfatizado como constitutivo das relações que nas ciências humanas envolvem subjetividade, escolha e valores no complexo universo do que se concebe como neutralidade axiológica e objetividade científica. Entretanto, essa perspectiva surge de modo mais contundente, sobretudo, num tempo em que os engessamentos de uma cultura localizada vêem-se perpassados por fluxos de vidas que migram, deslocam-se, abrem-se para outras realidades; vidas que, às vezes, sentadas diante das telas de TV ou de cinema, incorporam as histórias contadas às suas próprias histórias particulares, à medida que fruem, disseminam, ressignificam  modos, modas, idéias e  ideais . Nesse aspecto, coloca-se, senão em xeque, ao menos sob outra ótica, práticas analíticas que devem abranger movimentos interativos os mais diversos dentro da dinâmica que opera com uma  desterritorialização que afeta perfis culturais e, outrossim, evidencia o conteúdo fictício que os sedimenta no imaginário daqueles que nesses perfis se re-conhecem.
Assim, no texto de Apadurai, o antropólogo que se detém sobre as vidas que em trânsito se refratam, lembrando-nos daquilo que Eduard Said  nomeia como geografias pessoais, ou,  dizendo de outra forma, o antropólogo que se debruça sobre o movediço espaço da desterritorialização, vê-se instado a conduzir um modus operandi diverso no seu registro etnográfico e, antes de fazer as vezes do pintor meticuloso, estrategicamente fixado no melhor ponto para abranger mais detalhadamente a paisagem, remete-nos ao câmera-men que se vê às voltas com uma multiplicidade de ângulos para captar a movimentação da cena, visto que a cultura substantivada adjetiva-se em  culturas que  se interpenetram como películas que se movem umas dentro das outras, preconizando um cosmopolitismo etnográfico para flagrá-las em seu devir incessante.
Os Estudos Culturais como partícipes desse estado de coisas, acirram e sedimentam os debates não mais sobre metanarrativas emblemáticas, mas sobre a potencialidade de decodificações da cultura traduzida em micronarrativas interpretativas que desvelando ou tentando desvelar enigmas particulares – a natureza da localidade como experiência vivida - desconstroem a centralidade de um eu essencialista nos moldes do Iluminismo e enfocam o papel da imaginação como repertório dos mais significativos nas representações que configuram a vida social. Isso não significa dizer que se perde a perspectiva de uma macroetnografia que considera aspectos mais cosmopolitas em suas edições narrativas, mas, ao contrário, enfatiza-se a relação entre os elementos micro e macro que se embaraçam na constituição de um novo significante, logicamente respaldando novos e múltiplos significados. Acreditamos que é nesse sentido que Apadurai sublinha a importância dos meios de comunicação como “diacríticos semióticos fortes” na construção de mundos possíveis, nem sempre acessíveis é preciso esclarecer, mas que funcionam como variações que trazem outros elementos à realidade local. Elementos que travestem-na com costumes e estilos, que não sendo seus originalmente, passam a conotar uma outra visão da coletividade sobre si mesma quando inserida no apelo mais abrangente das miradas da globalização. Nesse aspecto, inúmeras fantasias podem advir de contatos filtrados pelas lentes da ficção e que talvez por isso mesmo apontem outras maneiras de perceber o cotidiano como que trespassado por múltiplas linguagens no hiper-texto de vidas banais, onde o debate sobre a palavra, o mundo e a relação entre eles é cada vez mais oportuno e até imprescindível. É importante enfatizar que alguns aspectos destacados nesse texto são extremamente visionários quanto às implicações comunicativas que envolvem os fluxos imaginários e identitários configurados depois da Internet.
 O antropólogo destaca ainda três exemplos para evidenciar as considerações que subjazem à necessidade dessa macroetnografia ou etnografia cosmopolita a qual defende. O primeiro exemplo, eminentemente pessoal, sublinha a globalização e a desterritorialidade conjuntamente. Numa visita de sua família a um templo indiano famoso, para que seu irmão receba as bênçãos dos deuses para um bom casamento para sua filha, o séquito de indianos e americanos - a mulher e o filho do antropólogo estão presentes - constata-se que um dos mais destacados sacerdotes do templo foi para Houston, entronizando a deusa Meenaki nas terras americanas. Nos muitos fios que engendram essa trama de peculiaridades parentais, o esperado casamento da indiana acontece com um estudante de Química de Nova Yorque; o filho do antropólogo indiano, em sua viagem de turismo na trilha de suas raízes imaginárias, tece os fios de sua vida de meio- americano ou de “americano com hífem” através das biografias que transpõem localidades, e o cientista que reconstrói as memórias da “sua” Madurai; um brâmane tâmil criado em Bombaim e feito homo academicus nos Estados Unidos, lança sobre essas vidas de culturas que se interpenetram seu olhar interpretativo.
No segundo exemplo, a ficção deflagra o que o mito desvelava no passado, é a deixa condizente para as reflexões de Apadurai. A alegoria do realismo mágico de Júlio Cortázar – um Argentino nascido em Bruxelas – serve de mote para salientar como a literatura pode espelhar os deslocamentos, as desorientações e as ações das vidas-mundo inscrevendo-as em mapas de socialização e moralidade, enveredando-se, na esteira dos Estudos Culturais, sobre a política e a poética da cultura. Num conto intitulado “Nadando numa piscina de calhaus cinzentos”, a interpretação de Apadurai, embarcando agora numa viagem mais radicalmente fictícia, sublinha, entre outras coisas, através das metáforas de Cortázar, a irracionalidade de competições que exaurem os atletas na luta pelo destaque e pelo sucesso; num outro prisma, num mundo engendrado de contextos no mínimo insólitos, como a piscina que já não se preenche apenas com água, as pessoas tentam viver, muito e amiúde, como eficientíssimos atletas que se esforçam por superar particularidades pessoais e locais, mergulhando nos desafios que os novos cenários nacionais abarcam.
Na terceira vinheta, o cinema assume as vozes da escritura e através dos recursos imagéticos que ele manipula, a desterritorialização é enfocada em suas reverberações mais comezinhas e não menos imaginadas. Na película Índia Cabaret de Mira Nair, flagra-se pequenos espaços da vida de mulheres que buscam um lugar onde caibam, a um só tempo, suas fantasias e necessidades, “todas elas prostitutas honestas e pertinazes que fabricam uma identidade de artistas”. Numa espécie de imitação caricata de si mesmas, essas dançarinas, orgulhosas e envergonhadas, negociam suas vidas imaginadas longe de casa. O filme, realizado em 1984, põe em tela, literal e metaforicamente falando, o cinema que imita, mas também tenta revelar os dramas de prostitutas reais em pequenos cabarés como o de Meghaj quando essas mulheres investem no papel de prostitutas fictícias glamourizadas pela Sétima Arte. Assim, numa ficcionalidade de mão dupla, em que se apela para a metalinguagem, as vidas imaginadas tramam uma existência em que se movem como verdadeiros personagens de uma narrativa em que se representam de maneira figurada. Para Apadurai, o filme em questão é um modelo gritante de como a etnografia artística pode contemplar, num mundo desterritorializado, “os problemas de personagem e ator, pois que opera com o fabrico de si num mundo de tipos e de tipificação”.
Diante do exposto, suspeitamos, conduzidos pelas reflexões que o texto de Arjuna Apadurai propõe, que a etnografia nos dias que correm não pode se furtar de narrar a nova ordem que os cenários desterritorializados comportam, onde as etnopaisagens não deixam de ser bagagens pessoais que se carrega de locais que sobrevivem à custa também das particulares memórias inventadas que lhes representam. Nesse aspecto, o cosmopolitismo dos anos 90, facilmente detectável nas inúmeras linguagens que os meios de comunicação enfeixam, pode fazer parte de um novo inventário etnográfico que flagre não o exótico ou o selvagem, mas o dialogismo de vidas e culturas que se interceptam, ou melhor, se re-produzem diferentemente à medida que são diversamente imaginadas. Para isso, re-cursos etnográficos antigos podem conduzir novos percursos, onde o momento histórico presente é que precisa ser lembrado com seus desafios de globalização.



[i] Resenha de APPADURAI, Arjun. Etnoopaisagens globais: notas e perguntas para uma antropologia transnacional. In: Dimensões culturais da globalização. Lisboa: Teorema, 2004.