Resenha
de PAIS, Machado José. Notas Preambulares; Parte I. in Culturas Juvenis. 2.ed.
Lisboa, 2003.
Por Lucas Carvalho
Culturas juvenis, nome que intitula o livro de
José Machado Pais, é referência quando se fala em uma sociologia da juventude,
a passo que a obra possibilita um novo olhar sobre o tema (a partir da perspectiva
analítica sobre o cotidiano). No texto que se segue serão apontados alguns dos
principais argumentos referentes às “notas preambulares” e a “primeira parte”
do livro. Será discutido o processo de maturação da pesquisa de Pais, os
dilemas, as escolhas de caminhos e métodos de investigação e consequentemente o
desenvolvimento de uma problemática sociológica referente a juventude
portuguesa.
Nas breves notas introdutórias, Machado Pais
afirma que nesse momento não iria fornecer nenhuma resposta sobre seu objeto de
pesquisa. O que se segue é uma reflexão mais do ponto de vista metodológico,
onde ele afirma sobre a dificuldade de oferecer respostas aos questionamentos
suscitados sobre objeto pesquisado (no caso a juventude portuguesa). É a partir
dessa dificuldade de oferecer respostas que surgem as teorias, classificadas por
ele, como estruturas de pensamento capazes de orientar os passos
investigatórios. Junto com as teorias, nasce uma tradição sociológica, que se pauta na idéia de que para cada
problemática construída é necessário uma vertente teórica para guiar a
investigação e dar legitimidade a esse processo.
Apesar de parecer um caminho fácil, o autor fala
da sua própria experiência, onde retrata que quanto mais mergulhava na
investigação das culturas juvenis, mais buscava esse aparato teórico para dar
sustentação a pesquisa, mais dúvidas surgiam, tornando o processo
investigatório mais complexo. Porém, é no meio dessas dúvidas, que Pais começa
sentir a necessidade de entender cada vez mais o cotidiano da vida dos jovens
para conseguir compreender como funcionava a lógica da relação entre as
transformações sociais, tanto no âmbito socioeconômico, quanto no âmbito
individual, social e familiar, vendo os jovens no centro desse processo.
A partir do momento em que Machado Pais
escolhe o estudo da vida cotidiana das juventudes como base analítica, ele
sente a necessidade de colocar em evidência o uso do tempo pela juventude,
relacionado com o ordenamento social, onde o autor revela que a partir daí será
possível compreender a realidade destes jovens, a partir do consumo desse tempo,
das suas experiências e vivências, possibilitando também o surgimento de formas
específicas de sociabilidades. Pais também revela que mesmo com todo um
aparato teórico, as vezes é preciso experienciar esse cotidiano juvenil, e também dar voz a ele, para que certos
símbolos, linguagens, relações de sociabilidade, sejam entendidas de fato e não
de forma arbitrária.
Na primeira parte do livro, o autor retrata a
necessidade de romper com o fato de analisar a juventude sobre o âmbito de um
grupo unitário, homogêneo. É preciso segundo José Machado Pais, analisar não
somente as similitudes desse grupo, mas também suas diferenças, tendo em vista
de que o fato dos indivíduos compartilharem certos sentimentos em comum, não
significa dizer que todos sejam iguais, tenham as mesmas trajetórias, as mesmas
experiências, inclusive sobre a própria noção de juventude.
Sobre as formas de analisar a juventude, o autor
abre uma discussão entorno de duas correntes teóricas. A primeira corrente ele
denomina de teoria geracional. Esta teoria enxerga a juventude sob o ponto de
vista etário, ou seja, a juventude é concebida como fazendo parte das fases da
vida. Enfatiza-se dessa maneira os aspectos unitários da juventude. Essa
corrente crê que em uma sociedade existe uma diversidade de culturas
desenvolvidas com um conjunto de valores dominantes. Dessa forma, a questão
essencial dessa corrente são as continuidades e descontinuidades dos valores e
relações intergeracionais, que são discutidos tanto do ponto de vista das
teorias da socialização, quanto da teoria das gerações. Uma das críticas que se
faz a essa corrente é, justamente, a sua tendência a tratar a juventude de
forma homogênea dentro de uma fase etária determinada, não representando de
forma adequada o grupo a partir dos seus próprios entendimentos.
A segunda corrente recebe o nome de teoria
classista. Enquanto a corrente geracionista via a questão da reprodução social
a partir das análises das relações e conteúdos das relações intergeracionais, a
corrente classista enxerga essa reprodução a partir das questões de gênero,
etnia, raça, ou seja, a partir da perspectiva das classes sociais. Pela forma
de pensar a juventude através do foco nas classes sociais e analisar o processo
de transição para a vida a adulta sobre a ideia das desigualdades sociais é que
a corrente classista se mostra crítica aos conceitos de juventudes pautados na
ideia de fases da vida. Porém, o autor revela que os processos sociais vividos
pelos jovens, não podem ser pautados somente a partir da perspectiva do
antagonismo de classe social, mas também a partir das relações sociais, das
trajetórias individuais, das experiências de vida que eles carregam e que fazem
com que o transito para a vida adulta, que parecia ser algo já pré-estabelecido,
possa ser modificado.
Para finalizar, a partir da análise do cotidiano
e do curso de vida da juventude, das suas trajetórias, suas similaridades e
diversidades, Pais mostra que as culturas juvenis se mostram muito mais
complexas do que se pode imaginar. Podendo conter no interior delas tanto
aspectos, etários, classistas e geracionais, constituindo-se um verdadeiro
paradoxo. Dessa forma, o uso isolado, seja da teoria geracionista ou da classista,
não seria capaz de dar conta da complexidade da análise sobre as juventudes, podendo
gerar certos reducionismos sobre o tema. Dessa maneira, o autor justifica optar
por articular as duas correntes, na tentativa de compreender a juventude de uma
forma mais dinâmica, real e concreta.
3 comentários:
Ainda que seja bastante critica, essa visão conota uma visão feliz do autor em apresentar duas linhas de analises e pensamentos, pois a juventude não deve ser pautada sobre um só olhar e sim pautada sobre as relações sociais, gêneros e suas trajetórias. Ou seja, para se entender mais a fundo se faz necessária vivenciar a essas diferenças.
Para entendermos melhor, de uns anos pra cá, no país inteiro, e agora também em alguns países da América do Sul, jovens de diferentes classes, trajetórias, sonhos, relações sociais e nações estão vivenciando suas histórias e cotidianos. O que eles chamam de universidade nada mais é que vivencias em atmosferas diversas. Vivencias entre eles, seja em aldeias de índios, em campus universitário etc. Tudo para ajudar a não só compreender as problemáticas existentes, mas também para concretizar suas culturas e seus diversos segmentos culturais, conquistar novos espaços de maneira mais sólida e organizada, participar de ordem enfática no campo da política.
A leitura feita por José Machado Pais a juventude nos leva a uma reflexão maior entre o cotidiano x curso da vida, entre o universo Teoria Geracional e Corrente Classista.
A temática das culturas juvenis é realmente uma seara de análise muito complexa, a começar pela definição do objeto “juventudes”. Quais seriam os critérios para a sua definição: grupos etários? Grupos de afinidades das práticas cotidianas? Além disso, percebemos que o tema juventudes absorve a atenção dos pesquisadores não apenas pela sua complexidade e possibilidades diversificadas de análise, já que ele envolve, como percebemos na resenha do Lucas, um conjunto de práticas que diz respeito aos diversos atores com interesses diferenciados, mas também por ser uma perspectiva analítica em franca ascensão, com muita força na atualidade, expressa, por exemplo, através de eventos como a Jornada Mundial da Juventude, além das práticas dos movimentos sociais de diversos segmentos – estudantis, étnicorraciais, partidários, entre outros - de caráter progressista liderados por jovens. Desta forma, nunca é demais relembrar o velho Max Weber, quando diz que o interesse por dado objeto de estudo é suscitado pela relevância política e sociocultural que ele adquire para o contexto social no qual está imerso.
A temática das culturas juvenis é realmente uma seara de análise muito complexa, a começar pela definição do objeto “juventudes”. Quais seriam os critérios para a sua definição: grupos etários? Grupos de afinidades das práticas cotidianas? Além disso, percebemos que o tema juventudes absorve a atenção dos pesquisadores não apenas pela sua complexidade e possibilidades diversificadas de análise, já que ele envolve, como percebemos na resenha do Lucas, um conjunto de práticas que diz respeito aos diversos atores com interesses diferenciados, mas também por ser uma perspectiva analítica em franca ascensão, com muita força na atualidade, expressa, por exemplo, através de eventos como a Jornada Mundial da Juventude, além das práticas dos movimentos sociais de diversos segmentos – estudantis, étnicorraciais, partidários, entre outros - de caráter progressista liderados por jovens. Desta forma, nunca é demais relembrar o velho Max Weber, quando diz que o interesse por dado objeto de estudo é suscitado pela relevância política e sociocultural que ele adquire para o contexto social no qual está imerso.
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