Élida Damasceno Braga [1]
(elidabraga74@gmail.com)
GEERTZ,
Clifford. Pessoa, Tempo e Conduta em Bali. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
Ao
afirmar que o pensamento humano é uma atividade social essencial, Clifford
Geertz apresenta suas preocupações em relação a isso já alertando, inicialmente,
para a incompletude da temática. O autor se debruça sobre o povo de Bali para
observar como as ideias se definem em torno do aparato cultural, como este povo
percebe e reage e, por conseguinte, o que pensam, trazendo, assim, elementos
para uma análise da cultura. Desse modo, as conexões que se mostram dão sentido
para compreender não apenas a sociedade local, mas a humana como um todo.
Geertz
(1978) traz os conceitos de cultura e estrutura social em seu texto, abordando-os
de forma independente, ou seja, no sentido de que “é preciso compreender tanto
a organização da atividade social, suas formas institucionais e os sistemas de
ideias que as animam, como a natureza das relações existentes entre elas” (p.
227). O autor informa também a dificuldade de se trabalhar cientificamente o
conceito de cultura, haja vista a indefinição do objeto de estudo.
No
entanto, o pensamento visto como objetos em experiência com a impressão de
significados através de símbolos significantes coloca a cultura no patamar de
ciência como outra qualquer. O sentido para estes símbolos significantes é
encontrado através dos acontecimentos vividos pelo homem com padrões, que se
acumulam culturalmente. Vale salientar que, alguns desses padrões são inerentes
à pessoa humana e por isso aparecem em diversas sociedades. Daí que vem a
proposição do autor para que se lance um olhar mais atento para as
singularidades a fim de que se compreenda a problemática subjacente.
Geertz
(1978) destaca ainda a importância da caracterização humana individual. A
perspectiva individual, por categorias, perfaz “o mundo cotidiano no qual se movem os membros
de qualquer comunidade, (...) habitado por homens personalizados, classes
concretas de pessoas, positivamente caracterizadas e adequadamente rotuladas” (p.229). Contudo, Geertz (1978) adverte
para a não redução da análise cultural apenas à caracterização individual. Isso
ocorre devido à falta de um método para analisar a estrutura significativa da
experiência. Embora se tenham registradas algumas tentativas de análise
cultural no sentido de uma fenomenologia da cultura, uma das que se destacam,
segundo Geertz, é a de Alfred Schutz, com tópicos abordados sobre a “realidade
principal da experiência humana: o mundo da vida cotidiana enfrentado pelo
homem, no qual ele atua e vive”. Esses estudos deram suporte ao autor no
sentido de orientá-lo em suas pesquisas.
Em Bali,
Geertz (1978) observa uma série de padrões culturais, nos quais a atuação
humana pode se dar em termos de ordem temporal, estilo comportamental e identidade
pessoal, bastante diversas, mas nem sempre muito claras para os padrões
empíricos. O autor descreve os tipos de rótulos aplicados aos indivíduos ali,
um tipo de ordem simbólica a ser descrita em: nomes de pessoas, nomes na ordem
de nascimento, termo de parentesco, tecnônimos, status e títulos públicos. Para
se ter uma ideia, o nome pessoal não possui muita importância social em Bali,
pois são raramente usados. Aos demais vão se acrescentando importância,
afetando a condição humana com tal estrutura.
Outra
questão que aparece no texto de Geertz é a maneira como as pessoas veem o tempo dentro do
percurso biológico e também natural na sociedade balinesa. Além da condição
pessoal, da definição de pessoa, desde “os nomes ocultos até os títulos
ostentados” (p.255), o tempo em Bali é marcado, no geral, de modo qualitativo,
no que se manifesta como experiência humana. "Ele é usado para distinguir e classificar partículas de tempo (...) os ciclos são intermináveis e sem um clímax, pois sua ordem não tem significação. (...) Eles não acumulam, não constroem (...) Eles não lhe dizem que o tempo é agora, eles apenas informam que espécie de tempo é" (p.260).
Sobre
a conduta, Geertz (1978) observou que a vida social em Bali é construída em
torno do cerimonial, algo próximo à teatralização. Tudo nessa esfera é muito
exterior, calculado, pomposo, uma sociabilidade polida e bastante estética.
Nesse contexto, termos como a vergonha e o fracasso assumem características
marcantes na vida afetiva do povo balinês, tanto no plano interpessoal como no
plano coletivo. Contudo, a vergonha para os balineses, está no medo de não
cumprir com os papéis sociais propostos, tratando-se de um verdadeiro terror a
simples suposição de não atuarem em conformidade com o desempenho público
desejado.
Desse
modo, a análise cultural lida com formas cheias de significados. Significados estes
que não estão diretamente nas coisas, nos objetos, mas lhe são impostos pelos
homens que vivem em sociedade. A natureza da integração, da mudança e do
conflito cultural deve ser procurada nas experiências dos indivíduos e dos
grupos que sentem, percebem, agem e julgam estas simbolicamente, sem esquecer,
no entanto, que essas sensações são apreendias e interpretadas. Logo, as
estruturas simbólicas que definem pessoas, caracterizam o tempo e ordenam
comportamentos. Essas são produto da interação, de como se desenvolvem, bem
como o impacto que causam um ao outro (GEERTZ, 1978, p.272).
Portanto,
o autor faz uma observação inquietante quando aponta a possibilidade de
mudanças culturais na sociedade balinesa. Pensar em um tempo mais dinâmico, um
estilo de interação social menos formal e uma condição de pessoa que saísse do
quase anonimato, produziriam, assim, mudanças significativas no modo de vida,
haja vista esses três possuírem papéis fundantes na estrutura social balinesa:
a pessoa, o tempo e a conduta.
Por fim,
as questões levantadas nesse texto, tantos modos de vida repletos de valores e
significados, são vistos como elementos de controle social. Assim, a cultura ou
elementos dessas culturas, contribuem significativamente, com as formas de
controle e como definidores de comportamentos sociais. Trata-se, pois, de um
estudo de percepção dos indivíduos dentro de suas culturas no sentido de
analisar e descrever a estrutura de significados dessas.
[1]
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS.