Por Frank Marcon
Este texto foi escrito originalmente
como relatório final de pesquisa, oriundo de um projeto de pesquisa de iniciação
científica, com o mesmo título, concluído em 1996, na Universidade do Oeste de
Santa Catarina. Foi minha primeira experiência com pesquisa, naquela ocasião idealizada
e orientada pelo Dr. José Carlos Radin, meu professor durante quatro anos da
graduação do curso em História, no período em que vivi em Joaçaba/SC. Além de primeiro
orientador no mundo das pesquisas, Radin se tornou um grande amigo e uma
referência de carreira acadêmica, que concilia docência e pesquisa com profissionalismo,
ética e zelo, no caso dele com larga trajetória dedicada ao tema sobre migração
europeia na região sul do país. A provocação incitada por ele no projeto, me
instigou a enveredar pelo tema da construção das identidades sociais, das
relações tensionadas pelos preconceitos e pela produção de desigualdades
étnico-raciais que se desdobraram, no meu caso, em muitas outras pesquisas não
necessariamente sobre migrações.
Retomo
o relatório passados mais de vinte anos, por me sentir provocado a refletir
sobre as motivações pela qual o fenômeno do conservadorismo nacionalista, expresso
nos resultados eleitorais das eleições de 2018, tiveram maior reverberação e
impacto no estado de Santa Catarina, principalmente nas cidades pequenas e médias em
que a presença de descentes de imigrantes é bastante significativa. Além disto,
de lá para cá tem ficado cada vez mais evidente que nestas mesmas localidades avançaram
as simpatias e a militância que tomou como símbolos as cores e insígnias oficiais
do nacional como forma de fazer política. Junto a isto, se tornou comum e cada
vez mais visível e amplificada a defesa de concepções conservadoras em torno de
ideais individualistas e de propriedade privada, de valores familiares machistas,
de moral cristã e de apego ao autoritarismo militar, não necessariamente enquanto
instituição, mas enquanto modelo de disciplina, hierarquia e de ordem moral.
Durante o Estado Novo,
entre 1937 e 1945, o país passou por uma campanha nacionalista intensa, que foi
direcionada principalmente para as populações das áreas de imigração. Embora, décadas
antes, a imigração europeia para o Brasil tenha sido amplamente estimulada pelos
sucessivos governos da união e dos estados e os imigrantes tenham sido vistos
positivamente como solução civilizatória e modernizadora para o País, houve um
momento em que se tratou o imigrante e seus descendentes como um problema
nacional, até mesmo como uma ameaça à soberania. Se desde o século dezenove, a
chegada de imigrantes aos milhares possibilitara a constituição de vários
núcleos populacionais no interior das regiões sul e sudeste, assim como bairros
com predomínio étnico em algumas cidades médias e grandes, o contexto dos anos
trinta tensionou certo entendimento sobre a imigração, os imigrantes e seus
descendentes no Brasil. A geopolítica global, com o advento da Segunda Guerra
Mundial e a intensificação das ideologias nacionalistas pelo mundo também
fizeram eco no Brasil e os imigrantes e descendentes foram considerados suspeitos
de não aderirem ao compromisso e ao sentimento nacional idealizados como autênticos.
O que parece bastante paradoxal
é que eles se tornam contraditoriamente parte do projeto identitário civilizatório
e modernizador (porque imigrantes europeus) e problema cívico-identitário
(porque imigrantes europeus) em questão de poucos anos. Talvez isto diga muito a
respeito dos efeitos destas experiências sob as famílias imigrantes na primeira
metade do século vinte, principalmente nas regiões brasileiras em que se constituíram
colônias de origem europeia. Incluir-se e ao mesmo tempo proteger-se, experimentar
sua existência em um mundo distinto e a partir de outras tradições e ao mesmo tempo
obter reconhecimento e a legitimidade institucional fora um desafio legal e
moral para tais pessoas. Estas duas linhas estruturantes do paradoxo parecem ter
possibilitado a convergência entre o conservadorismo como apego as tradições e
a defesa da propriedade e da família, e o reconhecimento do autoritarismo do
estado como ordenador, regulador e legitimador destas existências, mesmo quando
impositivo ou violento contra eles próprios. Como se tornar brasileiro,
mesmo que imigrante ou descendente, fosse algo que passasse a ser desejado por eles
e fizesse parte da construção da legitimidade de estar aí. As campanhas
nacionalistas tiveram algum êxito neste sentido.
O texto original do relatório
- cuja versão impressa foi depositada na Biblioteca da Unoesc – e que agora apresento
aqui, passou por revisões gramaticais e de linguagem, embora eu tenha procurado
reproduzir ao máximo a sua textualidade, como forma de manter o registro sobre
um momento específico em que este foi escrito e também pela particularidade da capacidade
analítica daquele momento iniciático. Ou seja, não retornei, aqui, as fontes e as
análises, o que poderia ser bastante enriquecedor para compreensão do momento em
que vivemos e sobre o fenômeno de adesão aos discursos nacionalistas na região,
pois isto demandaria também um grande esforço por atualização bibliográfica, novas
pesquisas documentais e novas entrevistas, que por muitas questões eu não teria condições de realizar agora. Embora existam várias pesquisas produzidas sobre o tema
da campanha nacionalista dos anos 30/40, o objetivo de dar publicidade só agora
aos resultados obtidos naquele momento é o de contribuir para provocar e animar
outros/as pesquisadores a pensar nas relações e conexões daquele fenômeno com o
momento político pelo qual passamos.
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Em
Santa Catarina, o candidato do PSL à presidência da república, Jair Messias
Bolsonaro, atingiu uma das votações proporcionalmente mais expressivas entre os
estados da federação com relação ao seu oponente no segundo turno, foram mais
de 75% dos votos válidos; bem como, foi eleito governador pelo mesmo partido, o
desconhecido Moisés, que por acaso também carrega nome bíblico e também é militar,
embora o primeiro, tenha sido capitão do exército e o segundo seja oriundo do
corpo de bombeiros. Sobre a proporcionalidade dos votos por estado ver: https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/resultados/mapa-eleitoral-de-presidente-por-estados-2turno/
Último acesso em 24/11/2020.